quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Aquelas

Vim pra dizer que estamos vivas.

Quando acordei hoje cedo eu era de novo a mesma menina de quinze anos cheia de buracos e de intensidade. Chorei a vida difícil na cidade grande, a saudade dos pampas gaúchos, o medo de não reencontrar mais em mim aquela que sonha e acredita. Reli Clarice Lispector, abracei de novo as mesmas dores - porque existir dói, meu Deus, como foi que eu pude esquecer? - e adormeci sozinha no sofá desse apartamento que não é meu.

E acordei com fome. Liguei o ventilador, fritei um ovo que deu errado e me fez sentir falta da minha mãe, fiz um arroz que deu certo e comi feliz. É, feliz. Porque quando eu acordei tava passando Friends na Warner. Aí pensei que eu ao menos tenho TV a cabo agora, que meu quarto é pequeno mas tem uma porta pra fechar e pra eu assim poder me fechar em mim mesma quando dá vontade. Ri do Chandler só de calcinha no banheiro feminino e pensei que a Julia Roberts é uma atriz e tanto.

Lembrei que eu sou atriz. Que depois de anos imaginando e calculando possibilidades, eu de fato moro no Rio de Janeiro, estudo na escola onde sempre quis estudar, faço a arte que eu amo... E aprendo a cada dia a me amar também, sem clichês baratos. Percebi que de lá pra cá - dos quinze pros vinte, que não é tanto mas é muito - já tapei um monte de buracos e transferi a intensidade habitual pra um mundo de coisas mais produtivas que o meu simples diário. Passei dos amores inconstantes e difíceis pros que me fazem ser "mais fácil" constantemente. Olhei no espelho e dei boa tarde àquela que sabe o que quer e corre atrás.

A tarde passou, o sol forte deu lugar a uma chuva torrencial, caiu um raio do ladinho do meu prédio. Passado o susto e o prato quase espatifado no chão durante a lavagem da louça, voltei ao sofá. Li George Orwell, pensei no mundo, nas pessoas, no Renan Calheiros de volta à presidência do Senado. Meu Deus, como eu ando alienada... Aquela de treze anos, revolucionária até o último fio de cabelo, espiou de leve pelo buraco do meu umbigo. Disse assim: se lembra de mim? Pois é. Eu ainda to aqui, mas ando dormindo bastante.

E pensei que a vida é isso. Que quando eu me cobro pura seriedade ou quando me entrego exclusivamente ao que é material e bobo eu estou, em ambos os casos, assassinado uma parte de mim. Descobri que eu sou sim muitas e que mesmo quando passa, não passou. Porque pra ficar latente outra vez é só cutucar ou alimentar - um livro, uma música, uma vitrine de sapatos bonitos. Cada uma aqui dentro vê em coisas diferentes o que a faz acordar e me surpreende, num dia qualquer, com sua ainda-existência. E vai ser assim até o fim dos meus dias, arrisco dizer.

Vim pra dizer, então, que estamos vivas, eu e todas as outras que moram dentro de mim. E que eu não tenho mais medo - nem vergonha - de nenhuma delas.