quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Chocolate, laranja e o que você sabe







Eu abri a geladeira e roubei um pedacinho de chocolate branco. O quadradinho derreteu na minha boca enquanto eu andava até o sofá, cansada. Puxei pra perto uma almofada e me deixei escorregar até que estivesse confortável.


E pensei em você. Pensei também no quanto eu gosto dessa coisa de pensar em você enquanto um pedaço de chocolate branco derrete na minha boca. E fazia frio lá fora e eu estava sem meias, mas alguma coisa num cantinho do peito aquecia e aquecia sem cessar. Eu andava descalça e mal agasalhada, só que lá dentro estava tudo tão coberto e aconchegante que, ineditamente, nem a garganta arriscava doer.


O chocolate acaba. Eu tinha essa coisa de notar tudo, desenhar tudo, narrar tudo o tempo todo e sempre. Eu tenho, né? Eu ainda tenho. Nessa hora eu registrei que pensei em você e pensei depois na gente. E que eu me assustei quando pensei porque por muito tempo, você sabe, eu disse que não haveria mais um "a gente"; não tão cedo. Que eu não queria existir junto com mais ninguém... Eu que nem sozinha sabia ser alguma coisa. Então eu decidi que eu ia. Aprender a ser sem precisar de outro alguém sendo junto comigo. Você sabe.


E sabe o que aconteceu depois? Eu descobri que não tem um "a gente". Tem eu e tem você. Tem eu com você, eu e você, eu mais você. Percebi que eu sou sozinha uma coisa inteira porque eu simplesmente sou, não porque o certo é ser. E que você também é sozinho toda a laranja, sem essa de metades estúpidas. Quem é que gosta de ser metade de alguma coisa, afinal? Quem é que quer seus gominhos escorrendo pela falta do próprio outro lado?


A gente não é dois em um. A gente é dois. Mas o meu um, a minha laranja - ela é bem mais feliz ao lado da sua. E isso é bonito, porque eu não escorro sobre mim mesma quando você se vai. Eu não preciso de você e você não precisa de mim. Mas a gente se quer. A gente se prefere assim, perto um do outro. E vive longe, sabe sorrir longe, mas prefere sorrir perto e entende que dá. Laranja não tem mão, mas a gente tem e segura um na do outro. Você entende que a minha casca grossa esconde um monte de sucos e histórias; eu entendo sem que você se exponha o que está escondido por detrás da sua. Não saímos por aí exibindo nossos recheios, nossas vidas, nosso meio inteiro. Nos conhecemos no tempo um do outro, respeitando as fraquezas e os medos um do outro. Ou os meus medos e as minhas fraquezas, pra ser mais justa. Eu que sempre fui cheia deles. Eu já contei isso pra você, não contei?


Encontrei a outra metade da minha laranja e ela era, na verdade, uma parte desconhecida e perdida de mim mesma. Só depois rolei por aí e esbarrei em você, que resolveu ficar. E eu resolvi ficar também, porque essa coisa de preencher espaço - duas laranjas ocupam mais que duas metades de uma - foi uma novidade da qual eu gostei. Sempre foi meio vazio aqui... Não sei se eu te contei.

Descascar laranja dá trabalho, isso você sabe. Eu sei. Mas sei também que cortá-la ao meio não resolve... Aprendi a esperar. A parar de me escancarar desse jeito, com o desespero de quem quer ser enxergada de verdade a todo custo. Com o pavor de quem nunca foi descascada até o fim e por isso guarda um universo de sentimentos e cores a ser dividido. Lá no meio. Naquele lugar que, a menos que você corte a laranja ao meio, demora pra ser alcançado.



E eu senti isso tudo enquanto devorava, exausta, uma barra inteira de chocolate branco. Eu, uma laranja inteira.

4 comentários:

M o r f i n a d o r disse...

Grande metáfora. Acho que sobrou só o bagaço, pois o suco foi pra tela!

Capacidade de expressão impar!

Nice words!!

kisses

Lorena Weasley* disse...

No final, sempre sobra só o bagaço da gente, né Isa? Principalmente quando o suco é azedo...

Nico Robin disse...

Dizem que quando vc parte a laranja no meio, vce está pronta para casar :(

Natasha Sierra disse...

Lindo! Amei!
Tão verdadeiro...

(Sim, vim dar uma conferida no seu blog tb. heheh E estou adorando ele!)