quarta-feira, 22 de junho de 2011

Receita pra esquecer



Te esquecer seria não beber mais. Seria não ir a uma única festa sequer pra não correr o risco de ver ou ouvir qualquer coisa que me remetesse a você. Seria não comer mais minha comida favorita, não assistir ao melhor filme do mundo e jogar fora o meu iPod. Te esquecer significaria não voltar jamais a qualquer uma das cidades pra onde já fui com você, que não foram poucas. Não dormir na minha cama, no meu travesseiro, nos meus lençóis. Não usar meu moletom favorito, mudar de perfume e acho que até de desodorante. Pra te esquecer eu teria de rasgar dois anos de diários e apagar mil postagens de blog. Não cantar nunca mais as músicas que eu fiz pra você ou mesmo as anteriores, que eu fiz pra outros mas que, no fim das contas, só me lembravam o que a gente viveu. Não poderia ouvir ou cantar música alguma, se quer saber. Seria preciso fechar os olhos pra um mundo de coisas e arrancar do coração quase que seu conteúdo inteiro.

Pra te tirar da minha memória minhas roupas teriam de ser queimadas. E junto com elas a calça de pijama e a camiseta velha do meu pai, que você usava quando não conseguia ir embora pra dormir em casa. Eu não poderia mais visitar qualquer fast food existente, qualquer restaurante... Italiano, mexicano, japonês. Não poderia ligar o rádio ou falar inglês. Teria que limpar o HD do meu computador por completo, esvazias minhas gavetas, doar meus livros todos.



A cada passo que eu dou eu vejo um pouco de você, entende? Quando não é uma imagem ou situação, vem à tona um cheiro qualquer que me remete a um momento qualquer. E nesse momento, lá está você. Na água do meu miojo que ferve, na buzina perto de casa, no carro igual ao seu que eu vejo passar. Eu sou capaz de ver seu rosto no do cara que veste um suéter igual ao que você sempre usava. Posso ouvir sua voz ao telefone, ignorando a razão que leu outro nome antes de atender à chamada. Eu não brinquei - parei de comprar o meu desodorante porque era o mesmo que você usava. E porque com ele vinha aquele cheiro dolorido de nós dois. Cheiro de cama desarrumada, de chuveiro ligado há horas, de cara de sono e video-game. Um cheiro que me impede de continuar e eu preciso - mesmo nem sempre querendo - dar um passo adiante. Eu preciso me encontrar antes de te reencontrar... Mesmo sabendo, por te conhecer tão bem, que você acha tudo isso um exagero existencial. Mesmo sabendo que a vida pode não reservar um reencontro.



A verdade é que pra te esquecer eu teria que voltar no tempo e mudar o passado, ou ter algum tipo de amnésia eterna. E mesmo assim arrisco dizer que, durante algum instante qualquer, eu ouviria alguma música que me faria sentir isso que eu sinto sempre que lembro de você, da gente, da nossa história. Mesmo sem que eu entendesse o porquê, penso que sentiria esse mesmo aperto e essa mesma perplexidade diante da cama vazia e tão ineditamente enorme. E arderia nos dias de chuva, como hoje. Cutucaria também nos de sol. Porque não dá pra esquecer o que foi importante e fez bem - não se apagam dois anos de uma vida, muito menos os melhores dela. Eu preciso, é verdade, seguir em frente. Mas te deixar pra trás seria me deixar pra trás... E ser feliz, por Deus, não é isso.

Vamos combinar assim: a gente para de tentar se esquecer. E começa a se esforçar pra lembrar que não dependemos um do outro pra viver. É, eu sei. Era mesmo melhor quando tínhamos um ao outro pra culpar, pra amar, pra dividir essa intensidade toda que bate às vezes. Ou mesmo pra compartilhar o tédio dos dias tranquilos e de paz. Mas sabe o que é? Eu não conseguia mais sozinha. E como é que se vive quando respirar só existe tendo a sua mão na minha?

Minhas asas se abriram e o sol não me deixou negar.