segunda-feira, 2 de maio de 2011

deixa eu ser fútil em paz




Sei que as postagens por aqui costumam ser, em geral, carregadas de certo tom poético e melancólico, raras vezes diretas ou mesmo argumentativas. Mas essa semana eu observei algumas coisas que me intrigaram um pouco e resolvi falar a respeito, contradizendo minha sensação de que não sirvo muito pra dissertar nesse tom mais prático.

Primeiro o príncipe e a princesa oficializaram a relação. Uma cerimônia bonita que despertou o interesse de todos os tipos de mídia: sites de moda, jornais diários, revistas de fofoca e tablóides conceituados publicaram de pequenas notas à reportagens gigantescas a respeito do casamento real. Acompanhei uma coisa ou outra e sei de amigos que assistiram ao negócio todo, postando comentários ou até piadinhas em suas respectivas redes sociais. Eis que surge um grupo bem grandinho de pseudo-intelectuais pra criticar a atenção dada ao evento com o argumento de que é uma coisa fútil, pouco digna dessa atenção. Coisa de gente bobinha, cabecinha fraca, "que assiste Big Brother" (?).

Daí um primo x e um amigo y descobrem que eu acompanho a série Gossip Girl e consideram uma contradição. Outro me vê lendo "livro de mulherzinha" (julgamento precipitado do título "A mulher que não prestava", da brilhante Tati Bernardi) e despeja meia dúzia de críticas sem sentido. E eu descubro o inaceitável: por todos os lados, em todos os lugares, incluindo todas as faixas etárias, as pessoas rotulam e esquecem que o nome disso também é preconceito.

Sempre me prolongo e não gostaria de fazê-lo dessa vez, mas é preciso alertar: um gosto ou hábito não diz quem você é! O casamento do príncipe William, como disse uma amiga, foi uma notícia agradável no meio de outras tantas horríveis que ouvimos e lemos todos os dias. Toda mulher - ou quase toda - sonha sim com uma cerimônia de contos de fadas e deu uma babadinha inevitável ao assistir o da vida real na semana que passou. Qual o problema em respirar um pouquinho enquanto não chega o outro turbilhão de tragédias e desastres diários? O que há de tão condenável nisso pra que uma multidão se revolte e praticamente te arranque da frente da TV, atribuindo a você palavras fortes como "fútil", "alienado" e "sem senso-crítico"?

A série Gossip Girl não me leva a pensar nas dores do mundo, não me ensina geografia ou matemática e me faz esquecer que eu tenho quase 19 anos e uma vida de responsabilidades pela frente. Me tira do meu mundinho e me transporta pra um que não existe - ao menos não pra mim. Mas adivinha? Eu adoro isso. Adoro sentar na frente da TV ou do computador e me sentir uma adolescente como qualquer outra por quantas tardes eu quiser. Babo nas roupas da Jenny, dou risada com as infantilidades da Blair, acho o Nate um gato e quero o cabelo da Serena. Isso faz de mim uma pessoa fútil, cabeça-de-vento, alienada? Isso diz alguma coisa sobre quem eu sou na maior parte do tempo? Me impede de ler bons livros (e o da Tati Bernardi é um, sim), ir atrás do que eu quero e ser alguém na vida? Se eu assistisse ao Big Brother isso me tornaria burra ou menor que alguém?

Antes de se preocupar com a imagem que você passa pras pessoas, seria mais interessante ocupar a cabeça com a essência que você constrói todos os dias, quem você se torna a cada toque do seu despertador. Uma pessoa pode ouvir Restart, Luan Santana, Taylor Swift e Avril Lavigne, se ela quiser. E você pode achar tudo isso um lixo da mesma maneira. Vai ver é o que ela pensa quando você coloca Beatles e Coldplay no último volume do seu iPod.

E quem dos dois está certo? O que poupar críticas e respeitar.

Vamos abrir a cabeça? É engraçado ver como as mesmas pessoas que criticam esses hábitos falam em liberdade de expressão, fim do preconceito e legalização consciente das drogas. Acordem! O mundo não precisa de uma juventude metida a "cabeça" que só leia Bukovski, Clarice Lispector e Aldous Huxley. É necessária uma geração que acompanhe isso e tudo o mais que tiver vontade, porque se limitar é deixar de conhecer, parar no tempo, estagnar. Vamos assistir novela, ler Meg Cabot e fazer bolão do Big Brother! Quem vive só de realidade perde muito momento bom por besteira. Conselho de amiga: essa seriedade toda pode e vai te enlouquecer. Todo mundo precisa de um ar.

Tá na hora de se preocupar mais em ser feliz do que em parecer foda. Não gosta de modinhas? Modinha é nadar contra a corrente só porque disseram que é legal ser diferente.

E legal, convenhamos, é ser você mesmo! E se ser eu mesma é ser fútil, deixa eu ser fútil - e feliz - em paz.

10 comentários:

George Luis disse...

Bom, eu não achei contradição, nem nada. Fui realmente estúpido, dei uma de senso comum, nem sei pq. Foi mal. De verdade. Desculpa. Eu tenho as minhas mil futilidades e acho q elas é que são as minhas maiores diversões. Amo os musicais. E quanto mais bobinho, mais me divirto. Quero é as músicas grudentas que me fazem dançar e sentir toda a felicidade do mundo.
Não quis desmerecer o seu gosto por Gossip Girl. Quis brincar com a dicotomia meninosXmeninas.
Logo eu ... que assisti Moulin Rouge mais vezes do que a minha namorada, rs. Fui eu que mostrei Glee pra ela.
Agora, um saldo positivo eu tenho que ressaltar! Fui chamado de amigo! rs
Beijos, deixo-te, enfim, em paz!

Isadora Cecatto disse...

Tinha esse medo de que você pensasse que eu fiquei chateada! Jamais. Até agradeço pela inspiração repentina que o comentário gerou. Já fiz essas observações momentâneas sobre mil coisas e sei que não signifa que você julgue... foi só o conjunto das coisas (e o fato de muita gente que não é como você julgar agressivamente) que me fez pensar a respeito e protestar contra esses rótulos.

mas ei, é amigo sim! e seus comentários são dos que mais me fazem dar pulinhos, junto com os da Lorena. é legal quando pessoas que a gente admira parecem nos admirar também.

forget about it! gerou um texto.
beijos,

isa.

George Luis disse...

Parece, não. Admiro e muito. Não só pq vc escreve tão verdadeiramente (pensei em escrever bem, mas "escrever bem" é pouco; vc escreve com verdade - a melhor das verdades, a que toca o outro, a verdade artística), mas também pq vc é ATRIZ e CANTA!
Eu tbm tenho esse turbilhão de emoções querendo sair por todas as formas de arte. Fiquei muito feliz de saber que vc tinha vindo pro Rio, pq assim que eu tiver o meu primeiro projeto (para o teatro ou para o cinema) quero vc comigo, no meu grupo. Juntos no mesmo time.
Até pq já vestimos a mesma camisa, né. Só falta entrar em campo e marcar o gol (ok ... metáforas podres ... Prazer! Esse sou eu! rs).

Bem ... beijos!!! Amo Lorena por isso! Só traz gente boa (nem sempre, na verdade ... mas vc é gente boa!)!

Isadora Cecatto disse...

Opaaaa, to chegando por aí final de junho e com certeza quero fazer parte de qualquer projeto seu! Além do mais, vai ser um prazer conhecer você e a Lorena pessoalmente, né? :)

Quanto a cantar e atuar, são duas paixões ainda em desenvolvimento, mas fico feliz por isso causar uma impressão positiva! hahaha aí no Rio é que eu vou começar a levar essas duas coisas a sério pra um dia poder me considerar profissional de verdade.

Nos vemos pela cidade marvilhosa, então! Beijos pra você e pra fofa da Lorena (que é um dos motivos pelos quais não desisti desse blog há um tempão atrás, diga-se de passagem).

M o r f i n a d o r disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
M o r f i n a d o r disse...

Nice words....
Muito bem escrito... achei foda o texto e a maneira
que você conseguiu expor a idéia.

Confesso que faco parte do outro time. Visto a camisa daqueles que têm certo preconceito. Concordar com teu texto não reduz meu preconceito aos que ouvem Luan Santana ou o pagode/sertaneja, mesmo que em momentos de amenidades. E também não vejo nada de errado em ter esse preconceito. Até porque, se entrarmos com muita intensidade na discussão, discriminar os que têm preconceito também é uma forma de preconceito.

Vale ressaltar que não me envergonho porque meu preconceito é silencioso. Continuarei achando podre os exemplos musicais acima e rebaixando seus ouvintes em meu ranking pessoal. É claro que o pronome da última frase já diz tudo: o ranking, assim como seu uso, é meu, é pessoal.

Penso que a questão maior da discussão é respeitar o nosso semelhante. Mas isso não significa ser livre de preconceitos. Acho que podemos te-los, desde que os guardemos para uso próprio, conforme já relatei acima.

Outro fator importante acerca da questão é que o preconceito funciona como um filtro natural, através do qual vamos selecionando as coisas em nossas vidas. E acho que ele funciona bem, como regra geral (pode resultar em erros, é claro - ai está a exceção), na medida em que separamos o joio do trigo com boa dose de acerto.

Não existe fórmula certa ou conduta adequada. Aliás, cabe aqui frase já bem conhecida: a desgraça desse mundo é que todos têm suas razões.

Sei que o assunto é delicado e minha pretensão ao escrever foi apenas de fazer pensar mais, sem chegar a conclusão de "certo" ou "errado".

Mais uma vez, parabéns pela capacidade de expressão.

Foda!!

beijos

Pingalouca disse...

Parabéns pelo blog!

Netto Feel disse...

carara!! Tipo, achei essa sua mudança muito prática. Adorei o jeito que escreveu, que, mesmo não querendo ser poetisa escrevendo suas observações, você é poetisa. Sempre acompanho seu blogg e desta vez precisei comentar, pois foi como um crescimento no modo de escrever. Parabéns

H A R R Y G O A Z disse...

Have a SUPER week !

Giu disse...

O necessário é viver dentro da realidade do mundo, mesmo que essa realidade consista em se desligar dele um pouco e puxar as fantasias e os sonhos mais loucos e impossíveis pra perto da gente.