terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

nuvem

É só apagar a luz do quarto e a que mora aqui dentro se apaga também. Dou de cara com todas as realidades maciças que vêm me consumindo todas as noites há um tempo que eu já nem sei mais contar. Abraço o travesseiro com força pra ver se mando embora a sensação imponente de um vazio jamais antes sentido - não é fome, não é crise, não sou eu comigo mesma nem eu com o mundo. Nem eu com ele, nem eu com ela. Não sou nem eu, porque não tem mais o que ser.

Meia dúzia de sonhos, uma pitada de idealismo e os muitos litros de paixão que sempre me compuseram - it's all gone. Não me encaixo mais na forma antiga, não cabe o meu corpo no que sempre foi comum. Desenformei a mim mesma e quebraram pedaços no meio do processo. Sobrou, agora, essa coisa disforme e feia de se olhar. E mesmo que o gosto ainda esteja a salvo (é só tirar as casquinhas queimadas que melhora), ninguém se atreve a apostar que a aparência não passa disso - de aparência.

Faz assim: segura a minha mão com força. Isso, mas aperta bem. Pressiona até doer os ossos - os teus e os meus. E diz pra mim que eu vou esbarrar comigo mesma assim que dobrar aquela esquina. Tá vendo aquela esquina cheia de gente logo a frente? Eu to morrendo de vontade de correr até lá. De andar de braços dados com eles e falar do céu que não pára de mudar. Perguntar se eles querem ver um filme ou comer alguma coisa no final do dia. E não sair dali. Daquela esquina comum, da retidão dessa rua morna. Porque eu não sei o que existe do outro lado e não sei se quero saber. Então aperta minha mão com força e diz pra eu passar reto por todos eles. Pra eu passar reto pela imagem de mim mesma que eu construí pra estar ao lado deles. E correr em busca do que eu sou de verdade. Do que eu deixei cair lá atrás - lá dentro.

Mas então por que é que alguma coisa dentro de mim me puxa pra esse desconhecido escuro? De onde vem esse impulso incontrolável de me jogar da ponte da vida sem pára-quedas pra ver no que dá?

E se for eu, mais uma vez, fugindo de mim? E se for eu querendo os holofotes do mundo inteiro ao meu redor, pra suprir a ausência da minha própria luz ou o fato de que eu nunca consegui enxergar essa luz de verdade? E se for eu querendo fugir do que eu sou, por saber que o caminho pra assumir isso pode ser difícil e sem glamour algum? E se eu tiver passado a minha vida inteira construindo um mundo de fantasias pra hoje perceber que ele é feito de açúcar e a tempestade vem aí?

E que ironia... O barco é de papel.
Cansei de novo,

2 comentários:

beatriz althoff disse...

Não da pra dizer que eu entendo tudo. Porque pra mim eu sempre entendo além, e além no nosso mundo é bem vasto. Consolo nunca serviu, apertar a mão já tem sido perder membros e ficar só com a sensação de não estar só. Mas se for pra ficar com o nada, eu também não vou deixar. Ter sido muito de tudo, pouco de tanto, nos da a pesada impressão disso: de não ter o que mais ser. E mesmo assim, a gente vai sendo, contra a maré, contra a gente, contra a quem mesmo?. No fim o automatismo vira vida, vira o que a gente é, porque no meio da obrigação a gente acha um certo conforto e da a vida por ele. A gente tem essa falha a mais, de dar tudo por tudo, sobrando pouco pra quem fica. E quem fica é uma alma que realmente queria ficar. Ser muitas, ainda é ser uma.
Te amo em todas elas.

tungkaran hati.blogspot disse...

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