quarta-feira, 16 de novembro de 2011

"Não ao plágio" ou "O dia em que meu nome passou a ser Maíra Fernandes"

por Isadora Cecatto
"Meu nome é Isadora Cecatto, sou autora do blog http://isacecatto.blogspot.com/, criado no ano de 2008 e utilizado até os dias de hoje. No meu blog eu publico pensamentos e sentimentos pessoais, traduzidos em forma de contos, crônicas e ensaios em geral. Às vezes, atipicamente, você pode encontrar nele alguma citação, parte da obra de outro autor que não eu mesma. Nesse caso, o texto surge entre aspas e é creditado, ao final, a quem o escreveu. O contrário também já aconteceu: alguns amigos e leitores costumam, às vezes, postar em suas redes sociais ou blogs trechos das coisas que eu escrevo. Como pessoas sensatas, usam também as aspas e o meu nome no final. Isso me faz sentir honrada e feliz.

Acontece que no dia 14 de novembro desse ano, 2011, eu tive uma pequena surpresa. Encontrei, por puro acaso, o blog de uma menina chamada Maíra Fernandes, no endereço http://nossaslinhastortas.blogspot.com/, criado em abril desse mesmo ano. A garota descreve a si mesma como "poeta nas horas vagas", deixando claro que os textos ali publicados são seus e jamais citando o nome de quem quer que seja. Mas o que eu encontro? Oito publicações com conteúdo de minha autoria, em sua maioria na íntegra, bem como algumas com poucas alterações e acréscimos. Os meus textos. Coisas que eu compus pra pessoas específicas, em situações e dias específicos. Frutos da minha paixão pela literatura e do meu crescimento como escritora ao longo de muitos anos de expôr sentimentos no papel e, com o passar do tempo, na tela do computador. Como se não bastasse, os perfis do orkut e do facebook da menina contêm um desses textos, por sinal pertencente ao grupo dos meus favoritos. Novamente sem meu nome, sem aspas, sem qualquer referência que leve ao meu blog ou a mim. Isso me faz sentir desrespeitada e infeliz.

Alguns me disseram pra esquecer o assunto. Que não valia a pena se estressar com isso, que eu deveria me sentir honrada por gostarem do que eu escrevo ao ponto de copiar. E foi aí que, na continuação das minhas pesquisas, descobri que a Maíra não se contentava em plagiar só a mim: várias publicações consistiam em textos do blog de uma grande amiga: a Stephanie, do http://dessajanela.blogspot.com. Indo mais fundo na coisa toda, percebi que se há dois ou três textos de autoria da própria Maíra em seu blog, é muito. Outros blogs, de pessoas que eu sequer conheço, também foram vítimas de plágio. E eu resolvi que não bastava tirar o site dela do ar (coisa que o servidor do blogspot.com faz em menos de 48h, depois de conferir os links referentes à quebra de direitos autorais). Lembrei que plágio é crime e que a impunidade não deve predominar.

Por falar em crime, aliás, descobri também que Maíra Fernandes é estudante de Direito na Universidade Federal de Minas Gerais. E eu me pergunto se ela já teve acesso às matérias que falam de crimes na internet, um assunto tão discutido e tão popular nos dias de hoje. Se ela sabe que o plágio pode levar ao pagamento de multas ou mesmo de penas mais graves e complicadas. Que copiar sem autorização pode levar até à prisão. Os que não valorizam esse tipo de coisa podem discordar, mas a verdade é simples: roubar um texto é como roubar qualquer outra coisa. Você arranca um quadro da parede de alguém, rabisca seu nome no cantinho e expõe em sua própria sala pra todo mundo pensar que você sabe pintar?

As pessoas estão acostumadas a pensar que internet é terra de ninguém, como me disse uma amiga. Que o conteúdo o qual elas encontram em sites, blogs e redes sociais por aí pode ser utilizado livremente e sem consequências. E isso passa bem longe da verdade.

O meu texto mais reproduzido pela Maíra se chama "escreve". Ele diz, logo nas primeiras linhas, que o meu único conselho possível nesse mundo de opiniões incansáveis se resume em um apelo: que as pessoas escrevam. Eu disse escrevam, e não copiem. É irônico ver isso reproduzido em um blog que não passa de puro plágio.

O meu apelo agora é outro: creditem! Se você gosta do trabalho de alguém, se identificou com o que outra pessoa escreveu, seja uma música famosa ou um texto desconhecido de blog, fique à vontade pra publicar e dividir com seus amigos. Mas não se esqueça, por favor, de acrescentar o nome do autor no final. E de avisar, quando possível, que você está compartilhando no seu site ou onde for. Dessa forma você não desvaloriza o trabalho de ninguém, tampouco dá créditos a alguém que não os merece.

O meu blog é só um dos milhares que sofrem desse mal todos os dias. E a Maíra é apenas mais uma entre tantas pessoas que, por incapacidade de produzir algo sozinhas ou pura preguiça, pegam a obra de terceiros e a utilizam como bem entendem. Vamos acabar com isso?

Me ajude a espalhar essa mensagem se você é contra o plágio e a violação dos direitos autorais. Por um mundo mais criativo e pelo fracasso dos espertinhos.

Site com as imagens dos textos plagiados e dos originais: https://picasaweb.google.com/isacecatto/Plagio#

Isadora Cecatto, 16 de novembro de 2011"
 
 
- texto publicado e fortemente compartilhado via Facebook

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Mosaico

"Eu sou sozinha alguma coisa que, mesmo não sendo inteira, é completa. O ar se adapta a mim. Bem como as pessoas, as coisas. E eu me adapto a eles com certa facilidade, da mesma forma. Existe algum tipo de mecanismo o qual me permite estar à vontade em quase todas as situações do mundo, com todos os tipos de pessoas e seus pensamentos singulares. Eu gosto de conversar e de conviver com as diferenças. Gosto de respeitar e da automaticidade com que sou respeitada em retribuição. Me agrada o meu próprio lado universal, sempre adequado. É tão bom ser aceita e aceitar - desse jeito natural, tão simples... De quem sorri pra vida por saber que há algo especial em cada cantinho de mundo e de gente"



14 de agosto de 2011, 00h40 ~ casa de um amigo, Rio de Janeiro.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Chocolate, laranja e o que você sabe







Eu abri a geladeira e roubei um pedacinho de chocolate branco. O quadradinho derreteu na minha boca enquanto eu andava até o sofá, cansada. Puxei pra perto uma almofada e me deixei escorregar até que estivesse confortável.


E pensei em você. Pensei também no quanto eu gosto dessa coisa de pensar em você enquanto um pedaço de chocolate branco derrete na minha boca. E fazia frio lá fora e eu estava sem meias, mas alguma coisa num cantinho do peito aquecia e aquecia sem cessar. Eu andava descalça e mal agasalhada, só que lá dentro estava tudo tão coberto e aconchegante que, ineditamente, nem a garganta arriscava doer.


O chocolate acaba. Eu tinha essa coisa de notar tudo, desenhar tudo, narrar tudo o tempo todo e sempre. Eu tenho, né? Eu ainda tenho. Nessa hora eu registrei que pensei em você e pensei depois na gente. E que eu me assustei quando pensei porque por muito tempo, você sabe, eu disse que não haveria mais um "a gente"; não tão cedo. Que eu não queria existir junto com mais ninguém... Eu que nem sozinha sabia ser alguma coisa. Então eu decidi que eu ia. Aprender a ser sem precisar de outro alguém sendo junto comigo. Você sabe.


E sabe o que aconteceu depois? Eu descobri que não tem um "a gente". Tem eu e tem você. Tem eu com você, eu e você, eu mais você. Percebi que eu sou sozinha uma coisa inteira porque eu simplesmente sou, não porque o certo é ser. E que você também é sozinho toda a laranja, sem essa de metades estúpidas. Quem é que gosta de ser metade de alguma coisa, afinal? Quem é que quer seus gominhos escorrendo pela falta do próprio outro lado?


A gente não é dois em um. A gente é dois. Mas o meu um, a minha laranja - ela é bem mais feliz ao lado da sua. E isso é bonito, porque eu não escorro sobre mim mesma quando você se vai. Eu não preciso de você e você não precisa de mim. Mas a gente se quer. A gente se prefere assim, perto um do outro. E vive longe, sabe sorrir longe, mas prefere sorrir perto e entende que dá. Laranja não tem mão, mas a gente tem e segura um na do outro. Você entende que a minha casca grossa esconde um monte de sucos e histórias; eu entendo sem que você se exponha o que está escondido por detrás da sua. Não saímos por aí exibindo nossos recheios, nossas vidas, nosso meio inteiro. Nos conhecemos no tempo um do outro, respeitando as fraquezas e os medos um do outro. Ou os meus medos e as minhas fraquezas, pra ser mais justa. Eu que sempre fui cheia deles. Eu já contei isso pra você, não contei?


Encontrei a outra metade da minha laranja e ela era, na verdade, uma parte desconhecida e perdida de mim mesma. Só depois rolei por aí e esbarrei em você, que resolveu ficar. E eu resolvi ficar também, porque essa coisa de preencher espaço - duas laranjas ocupam mais que duas metades de uma - foi uma novidade da qual eu gostei. Sempre foi meio vazio aqui... Não sei se eu te contei.

Descascar laranja dá trabalho, isso você sabe. Eu sei. Mas sei também que cortá-la ao meio não resolve... Aprendi a esperar. A parar de me escancarar desse jeito, com o desespero de quem quer ser enxergada de verdade a todo custo. Com o pavor de quem nunca foi descascada até o fim e por isso guarda um universo de sentimentos e cores a ser dividido. Lá no meio. Naquele lugar que, a menos que você corte a laranja ao meio, demora pra ser alcançado.



E eu senti isso tudo enquanto devorava, exausta, uma barra inteira de chocolate branco. Eu, uma laranja inteira.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

o avesso do avesso é o meu lado errado




Eu ando sempre virada do avesso e talvez por isso tenha tanto medo dessas minhas exposições involuntárias. Vai ver é também esse o motivo pelo qual tudo o que me toca traz sentimentos que alcançam extremos de intensidade em segundos - carregar o coração do lado de fora é viver à mercê do que a vida quiser.

Eu gosto muito de gente. Gosto de sorriso de gente, de lágrima de gente, de abraço de gente. Me emociona o bom dia sincero e o altruísmo gratuito, desse jeito bem clichê e bobo que sempre moveu meus dias. Me alimento dessa coisa incrível que é ser do bem. E não que eu seja o tempo todo - há sempre aqueles momentos em que a minha humanidade (no sentido realista da palavra) toma conta de mim. E minha feiúra acaba estampada em tudo o que eu sou e faço e penso. Mas a sensação de contradizer a mim mesma volta a me lembrar o quão imutáveis são algumas de minhas verdades.

Eu queria uma flor gigante pra dar pro mundo e virar as costas. Dar meia volta rápido o suficiente pra não encarar o efeito causado, o qual é sempre mais murcho do que eu gostaria. Voltar pra casa imaginando livremente o tamanho dos sorrisos e das bocas escancaradas em surpresa. Você entende o que eu digo? Eu sei. Sei que eu sou meio torta e que essa história de caminhos retos soa estupidez quando por mim proferida. Mas será que você consegue enxergar o porquê de cada uma das minhas esquinas?

Eu queria dizer pra você um monte de coisas que eu não digo. E eu sei que você adivinha isso toda vez que olha dentro do meu olho. É por isso que eu desvio o olhar e fica parecendo que eu não tenho amor nenhum por dentro. Fica como se eu vivesse um tanto faz constante, numa peça onde você não passa de mero figurante. Talvez só espectador. Como se na minha mania de fazer teatro eu gostasse de ser sozinha uma coisa inteira. Só que pra mim não existe tanto faz, entende? É sempre tudo ou nada, agora ou nunca, morrer ou arder de tanta vida que escorre. Então eu queria que você não acreditasse nessa minha expressão de indiferença - ela é só medo; é puro pretexto. Pra que eu não precise tirar a capa a qual eu uso todos os dias na tentativa de esconder que eu sou assim - sempre virada do avesso. Pra que o avesso do que eu sou (e que costuma ser mais eu do que o meu lado certo) não te assuste ou faça desistir.

Eu disse que sou normalmente calma e não menti. Só que dentro de mim mora outra, moram outras pessoas e coisas e monstros e escuridões. Também clareia em excesso, às vezes... Enfim. Eu posso te cegar com toda a minha luz e te deixar perplexo diante de um escuro de buraco negro na mesma fração de segundos. É que eu sou inconstante e não escolhi ser.

Mas eu sei amar, sabe? Amo muito o mundo inteiro e amo até mesmo as minhas dores, agora que aprendi a aceitar. Amo a mim, às vezes. Acho que cada vez mais. E acho também que odiar a si mesma pode ser um tipo raro de amor.

Sabe do que eu realmente gosto? Dessa sensação de vomitar a mim mesma e só me compreender assim, me vendo do lado de fora. Não me conhecer - ou melhor, me surpreender todos o dias com as coisas as quais eu jamais soube que eu era, que eu sou - isso é uma bondade sem tamanho de Deus.

"porque és o avesso do avesso do avesso do avesso"

domingo, 17 de julho de 2011

until the very end




Crescer não é fácil. Dói mudar, ver as pessoas mudando, a cabeça se enchendo de coisas novas e fazendo com que certezas se tornem dúvidas intermináveis. E a gente cresce meio sozinho, não é? Porque contar com pai e mãe é uma coisa que se aprende mais tarde e amigos, nessa fase, não preenchem todas as lacunas. Ao menos não preencheram pra mim.

Mas pensando agora, na verdade, eu vejo que não cresci assim tão solitária. E eu sei que isso vai destoar absurdamente de tudo o que eu costumo escrever por aqui, além de soar besteira pra grande parte das pessoas as quais acompanham meu turbilhão de sentimentos mal exteriorizados. Só que hoje eu acompanhei a última parte de uma coisa importante pra caramba pra mim e até tentei, mas não consegui ignorar a vontade de registrar e demonstrar o que isso causou aqui dentro.

Quem leu a série mais conhecida das últimas décadas sabe bem do que eu falo - Harry Potter fez parte da infância e da adolescência de um mundo de gente. E hoje eu me encontro aqui, uma quase-adulta extremamente emotiva, chorando o fim simbólico do que na verdade é eterno.

Não sei bem o que falar e de que forma fazê-lo. Que esse último foi o melhor dos filmes, que o epílogo teve poder pra matar alguém do coração, que eu admiro absurdamente a mente brilhante a qual criou esse universo inteiro. Um clichê inevitável: o mundo da magia é pra mim real e arrisco dizer que será pra sempre a minha melhor fuga pra essa coisa complicada que é crescer. A conexão mais forte com esse pedaço importante e inesquecível da minha vida.

Então sei lá... eu queria agradecer. Jo Rowling, meus amigos pottermaníacos, meus amigos nada pottermaníacos que me aguentaram na minha fase de vício e que me aguentam agora nessa fase melancólica de olhar pra trás e me emocionar com tudo o que passou. Queria falar do quanto é inexplicável o poder da palavra, das ideias de alguém, da literatura e, bem piegas mesmo, do tamanho que tem a importância do amor e da amizade nesse mundo doido. Falar do tanto que o Harry, o Ron, a Hermione e todos os outros fizeram por mim.

Eu sei - tudo batido e repetitivo demais. Mas eu hoje senti o peito se encher de uma saudade precipitada no decorrer do último lançamento oficial da saga Harry Potter. Senti uma mistura de tristeza e felicidade extrema; fiquei desse jeito que só a tia Jo sabe me deixar. E desejei com toda força que todo mundo possa experimentar a sensação de adentrar o Mundo da Magia como eu adentrei, lá na hoje tão distante infância.

Desejei virar cada página outra vez. Conhecer cada personagem, chorar a cada passagem e agonizar de novo em todos os dias intermináveis de espera e ansiedade. Ficar mais dezoito horas em pé no frio congelante de Londres, só pra ver a Jo Rowling passar pelo tapete vermelho e acenar com aquela expressão de carinho que é só dela. Quis como nunca voltar no tempo e viver tudo pela primeira vez. Com a mesma emoção e uma paixão ainda maior diante da expectativa de um novo livro, um novo filme, um pedacinho a mais da história mais envolvente do mundo.

Hoje eu me calo mais fácil ao falar do que Harry Potter significou e significa pra mim, pra o que eu sou hoje e pra o que eu pretendo ser. É que crescer pode ser bem difícil, mas uma hora a gente cresce de uma vez e acaba esfriando o que deveria permanecer fervendo por dentro. Na falta de novas, então, uso as mesmas palavras por mim escritas pouco tempo depois de terminar a leitura do sétimo e último livro Potter, há quase três anos:

"(...) J.K. Rowling sabiamente nos deixou a lição de que não há um fim, afinal. Há na verdade um constante recomeço. Os tempos de escola de Harry, Ron, Hermione e Ginny acabaram, é certo. Mas o Expresso de Hogwarts, de alguma forma, continuará partindo a cada primeiro de setembro como sempre fez, pois isso é eterno. E basta querer enxergar"
- da coluna A magia não tem fim, Potterish.com, setembro de 2007.

Porque eu me orgulho do sentimento de compreensão e saudade o qual me tomou hoje naquela sala de cinema. E de dizer que sim - eu estive com o Harry até o fim.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Rain









Dia de chuva no Rio de Janeiro e eu me pergunto como uma cidade pode ser bonita e colorida mesmo em tardes cinzentas de inverno. O frio é simbólico - as pessoas andam na rua como se intocadas pelas gotas d'água e eu consigo sorrir mesmo com o trânsito caótico. Não sei se é uma sensação passageira, mas eu sinto que viveria aqui por toda uma vida sem me cansar das ruas ou do balanço incessante do mar.




Deixa chover, que o aguaceiro leva com ele a dor e as inquietações do coração. A música aumentou dentro do carro e eu quero como nunca a euforia de me deixar levar pela vida e pelas novas energias ao meu redor. Um desejo inédito por leveza e paz faz do meu peito sua morada e eu suspiro - dessa vez sem cansaço ou amargura. O sinal abre. Ruas sem nome passam, uma a uma, infinitas. E eu percebo que, pela primeira vez, o desconhecido não precisa amedrontar, tampouco tirar-me o sono. Percebo um conforto jamais por mim experimentado na ausência dessa segurança boba na qual sempre me firmei. Era um mundo de coisas a ser conquistado e o sabor disso parecia doce como nunca.




O carro para e é chegada a hora de descer em frente ao que agora eu chamo minha casa. Abro a porta, subo as escadas, giro outra maçaneta e aqui estou. Da sacada do quarto vejo a ruazinha deserta onde os edifícios de paredes coladas amontoam-se, apertados e charmosos, com a lua à iluminar suas paredes rosadas. Ergo o olhar e encontro o símbolo da Cidade Maravilhosa, tão mais próximo que o esperado. A luz em volta dele é tanta que o céu chega a clarear ao redor.



É, Rio. Eu sempre disse que um dia viria pra ficar.







"Da janela vejo o Corcovado, o Redentor, que lindo..."

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Receita pra esquecer



Te esquecer seria não beber mais. Seria não ir a uma única festa sequer pra não correr o risco de ver ou ouvir qualquer coisa que me remetesse a você. Seria não comer mais minha comida favorita, não assistir ao melhor filme do mundo e jogar fora o meu iPod. Te esquecer significaria não voltar jamais a qualquer uma das cidades pra onde já fui com você, que não foram poucas. Não dormir na minha cama, no meu travesseiro, nos meus lençóis. Não usar meu moletom favorito, mudar de perfume e acho que até de desodorante. Pra te esquecer eu teria de rasgar dois anos de diários e apagar mil postagens de blog. Não cantar nunca mais as músicas que eu fiz pra você ou mesmo as anteriores, que eu fiz pra outros mas que, no fim das contas, só me lembravam o que a gente viveu. Não poderia ouvir ou cantar música alguma, se quer saber. Seria preciso fechar os olhos pra um mundo de coisas e arrancar do coração quase que seu conteúdo inteiro.

Pra te tirar da minha memória minhas roupas teriam de ser queimadas. E junto com elas a calça de pijama e a camiseta velha do meu pai, que você usava quando não conseguia ir embora pra dormir em casa. Eu não poderia mais visitar qualquer fast food existente, qualquer restaurante... Italiano, mexicano, japonês. Não poderia ligar o rádio ou falar inglês. Teria que limpar o HD do meu computador por completo, esvazias minhas gavetas, doar meus livros todos.



A cada passo que eu dou eu vejo um pouco de você, entende? Quando não é uma imagem ou situação, vem à tona um cheiro qualquer que me remete a um momento qualquer. E nesse momento, lá está você. Na água do meu miojo que ferve, na buzina perto de casa, no carro igual ao seu que eu vejo passar. Eu sou capaz de ver seu rosto no do cara que veste um suéter igual ao que você sempre usava. Posso ouvir sua voz ao telefone, ignorando a razão que leu outro nome antes de atender à chamada. Eu não brinquei - parei de comprar o meu desodorante porque era o mesmo que você usava. E porque com ele vinha aquele cheiro dolorido de nós dois. Cheiro de cama desarrumada, de chuveiro ligado há horas, de cara de sono e video-game. Um cheiro que me impede de continuar e eu preciso - mesmo nem sempre querendo - dar um passo adiante. Eu preciso me encontrar antes de te reencontrar... Mesmo sabendo, por te conhecer tão bem, que você acha tudo isso um exagero existencial. Mesmo sabendo que a vida pode não reservar um reencontro.



A verdade é que pra te esquecer eu teria que voltar no tempo e mudar o passado, ou ter algum tipo de amnésia eterna. E mesmo assim arrisco dizer que, durante algum instante qualquer, eu ouviria alguma música que me faria sentir isso que eu sinto sempre que lembro de você, da gente, da nossa história. Mesmo sem que eu entendesse o porquê, penso que sentiria esse mesmo aperto e essa mesma perplexidade diante da cama vazia e tão ineditamente enorme. E arderia nos dias de chuva, como hoje. Cutucaria também nos de sol. Porque não dá pra esquecer o que foi importante e fez bem - não se apagam dois anos de uma vida, muito menos os melhores dela. Eu preciso, é verdade, seguir em frente. Mas te deixar pra trás seria me deixar pra trás... E ser feliz, por Deus, não é isso.

Vamos combinar assim: a gente para de tentar se esquecer. E começa a se esforçar pra lembrar que não dependemos um do outro pra viver. É, eu sei. Era mesmo melhor quando tínhamos um ao outro pra culpar, pra amar, pra dividir essa intensidade toda que bate às vezes. Ou mesmo pra compartilhar o tédio dos dias tranquilos e de paz. Mas sabe o que é? Eu não conseguia mais sozinha. E como é que se vive quando respirar só existe tendo a sua mão na minha?

Minhas asas se abriram e o sol não me deixou negar.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

deixa eu ser fútil em paz




Sei que as postagens por aqui costumam ser, em geral, carregadas de certo tom poético e melancólico, raras vezes diretas ou mesmo argumentativas. Mas essa semana eu observei algumas coisas que me intrigaram um pouco e resolvi falar a respeito, contradizendo minha sensação de que não sirvo muito pra dissertar nesse tom mais prático.

Primeiro o príncipe e a princesa oficializaram a relação. Uma cerimônia bonita que despertou o interesse de todos os tipos de mídia: sites de moda, jornais diários, revistas de fofoca e tablóides conceituados publicaram de pequenas notas à reportagens gigantescas a respeito do casamento real. Acompanhei uma coisa ou outra e sei de amigos que assistiram ao negócio todo, postando comentários ou até piadinhas em suas respectivas redes sociais. Eis que surge um grupo bem grandinho de pseudo-intelectuais pra criticar a atenção dada ao evento com o argumento de que é uma coisa fútil, pouco digna dessa atenção. Coisa de gente bobinha, cabecinha fraca, "que assiste Big Brother" (?).

Daí um primo x e um amigo y descobrem que eu acompanho a série Gossip Girl e consideram uma contradição. Outro me vê lendo "livro de mulherzinha" (julgamento precipitado do título "A mulher que não prestava", da brilhante Tati Bernardi) e despeja meia dúzia de críticas sem sentido. E eu descubro o inaceitável: por todos os lados, em todos os lugares, incluindo todas as faixas etárias, as pessoas rotulam e esquecem que o nome disso também é preconceito.

Sempre me prolongo e não gostaria de fazê-lo dessa vez, mas é preciso alertar: um gosto ou hábito não diz quem você é! O casamento do príncipe William, como disse uma amiga, foi uma notícia agradável no meio de outras tantas horríveis que ouvimos e lemos todos os dias. Toda mulher - ou quase toda - sonha sim com uma cerimônia de contos de fadas e deu uma babadinha inevitável ao assistir o da vida real na semana que passou. Qual o problema em respirar um pouquinho enquanto não chega o outro turbilhão de tragédias e desastres diários? O que há de tão condenável nisso pra que uma multidão se revolte e praticamente te arranque da frente da TV, atribuindo a você palavras fortes como "fútil", "alienado" e "sem senso-crítico"?

A série Gossip Girl não me leva a pensar nas dores do mundo, não me ensina geografia ou matemática e me faz esquecer que eu tenho quase 19 anos e uma vida de responsabilidades pela frente. Me tira do meu mundinho e me transporta pra um que não existe - ao menos não pra mim. Mas adivinha? Eu adoro isso. Adoro sentar na frente da TV ou do computador e me sentir uma adolescente como qualquer outra por quantas tardes eu quiser. Babo nas roupas da Jenny, dou risada com as infantilidades da Blair, acho o Nate um gato e quero o cabelo da Serena. Isso faz de mim uma pessoa fútil, cabeça-de-vento, alienada? Isso diz alguma coisa sobre quem eu sou na maior parte do tempo? Me impede de ler bons livros (e o da Tati Bernardi é um, sim), ir atrás do que eu quero e ser alguém na vida? Se eu assistisse ao Big Brother isso me tornaria burra ou menor que alguém?

Antes de se preocupar com a imagem que você passa pras pessoas, seria mais interessante ocupar a cabeça com a essência que você constrói todos os dias, quem você se torna a cada toque do seu despertador. Uma pessoa pode ouvir Restart, Luan Santana, Taylor Swift e Avril Lavigne, se ela quiser. E você pode achar tudo isso um lixo da mesma maneira. Vai ver é o que ela pensa quando você coloca Beatles e Coldplay no último volume do seu iPod.

E quem dos dois está certo? O que poupar críticas e respeitar.

Vamos abrir a cabeça? É engraçado ver como as mesmas pessoas que criticam esses hábitos falam em liberdade de expressão, fim do preconceito e legalização consciente das drogas. Acordem! O mundo não precisa de uma juventude metida a "cabeça" que só leia Bukovski, Clarice Lispector e Aldous Huxley. É necessária uma geração que acompanhe isso e tudo o mais que tiver vontade, porque se limitar é deixar de conhecer, parar no tempo, estagnar. Vamos assistir novela, ler Meg Cabot e fazer bolão do Big Brother! Quem vive só de realidade perde muito momento bom por besteira. Conselho de amiga: essa seriedade toda pode e vai te enlouquecer. Todo mundo precisa de um ar.

Tá na hora de se preocupar mais em ser feliz do que em parecer foda. Não gosta de modinhas? Modinha é nadar contra a corrente só porque disseram que é legal ser diferente.

E legal, convenhamos, é ser você mesmo! E se ser eu mesma é ser fútil, deixa eu ser fútil - e feliz - em paz.

frio

deixa arder, pois que a arte repousa sobre a dor e nela desenha a flor mais bonita. grita com força que a música se faz doce no teu berro amargo. chora e deixa o pranto teu lavar as impurezas e desaguar com elas em mares distantes do teu oceano revolto - que então se acalma.

há algum tipo de beleza, por mais que rota e puída, em todo sofrimento. sofrer não é o preço que se paga pela arte. a arte é o remédio o qual preenche o vazio que a dor arrasta pra dentro do peito; é recompensa. e que grande injustiça haveria se os grandes artistas desse mundo fossem, além de artistas, felizes e completos.




(e que a melancolia desse frio que faz lá fora só se reflita aqui dentro se for gerar poesia, amém.)

quarta-feira, 6 de abril de 2011

mais um sobre escrever

Escrevo pra tirar das costas sem jogar no mundo. Escrevo porque aqui, em meio a verbos e frases soltas, o ápice do medo é pecar pelo clichê e a agonia não passa de tristeza diante da possível incompreensão. Na folha branca a qual encaro não há mentiras, não há segundas verdades. Inexiste o vazio da traição, a dor da ofensa silenciosa ou o amor insuficiente. Quando escrevo, o universo é meu. Alivio as dores de verdade enfeitando tudo com floreios bobos - tão bobos, tão meus. Essa pureza rara de escrever sincero me consome inteira e a lágrima sai mais calma, como se alguém ou algo lá dentro do peito sussurrasse baixinho: eu sei. Entende o tamanho? Eu sei. Junto daquele sorriso triste e culpado de quem chora cansaço.

Escrevo pra que a falta que ele me faz seja apenas mais uma falta. Mais um vazio, mais uma ausência - uma pecinha extra no quebra-cabeças desmontado que eu sou vez em sempre. Rabisco aqui pra fingir que tudo vai passar.

E se passar, o que é que sobra?
Tudo passa e fico eu.

quinta-feira, 17 de março de 2011

viver pra dentro amar pra fora

hoje eu senti coisas intensas e tentei, a todo custo, escrever sobre elas. mas sabe quando a gente cansa de enrolar pra dizer o óbvio?

e foi assim, bem simples: quem vive pra dentro ama pra fora. e esse é o jeito mais bonito de se amar: pra fora. exteriorizando toda a vida que se passa no fundo do peito.

eu vivo pra dentro. e amo pra fora. mas e você?

quando você vive pra fora e ama pra dentro, me machuca. e é em dias como hoje, nos quais você ama pra fora, que eu sinto essa borboletinha gostosa no estômago e ela me dá vontade de chorar. sabe choro inevitável, de gente boba que chora por tudo? quando a gente se sente ridícula por ter passado um dia tão ruim depois de dar de cara com o amor de alguém? e aí aquela cordinha presa na garganta desamarra de repente e um soluço engraçado mistura risada e um choro solto... pois é.

agora eu dei de cara com o seu amor - o que você colocou pra fora. e me perguntei se hoje, ineditamente, você viveu pra dentro.

me conta?

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

nuvem

É só apagar a luz do quarto e a que mora aqui dentro se apaga também. Dou de cara com todas as realidades maciças que vêm me consumindo todas as noites há um tempo que eu já nem sei mais contar. Abraço o travesseiro com força pra ver se mando embora a sensação imponente de um vazio jamais antes sentido - não é fome, não é crise, não sou eu comigo mesma nem eu com o mundo. Nem eu com ele, nem eu com ela. Não sou nem eu, porque não tem mais o que ser.

Meia dúzia de sonhos, uma pitada de idealismo e os muitos litros de paixão que sempre me compuseram - it's all gone. Não me encaixo mais na forma antiga, não cabe o meu corpo no que sempre foi comum. Desenformei a mim mesma e quebraram pedaços no meio do processo. Sobrou, agora, essa coisa disforme e feia de se olhar. E mesmo que o gosto ainda esteja a salvo (é só tirar as casquinhas queimadas que melhora), ninguém se atreve a apostar que a aparência não passa disso - de aparência.

Faz assim: segura a minha mão com força. Isso, mas aperta bem. Pressiona até doer os ossos - os teus e os meus. E diz pra mim que eu vou esbarrar comigo mesma assim que dobrar aquela esquina. Tá vendo aquela esquina cheia de gente logo a frente? Eu to morrendo de vontade de correr até lá. De andar de braços dados com eles e falar do céu que não pára de mudar. Perguntar se eles querem ver um filme ou comer alguma coisa no final do dia. E não sair dali. Daquela esquina comum, da retidão dessa rua morna. Porque eu não sei o que existe do outro lado e não sei se quero saber. Então aperta minha mão com força e diz pra eu passar reto por todos eles. Pra eu passar reto pela imagem de mim mesma que eu construí pra estar ao lado deles. E correr em busca do que eu sou de verdade. Do que eu deixei cair lá atrás - lá dentro.

Mas então por que é que alguma coisa dentro de mim me puxa pra esse desconhecido escuro? De onde vem esse impulso incontrolável de me jogar da ponte da vida sem pára-quedas pra ver no que dá?

E se for eu, mais uma vez, fugindo de mim? E se for eu querendo os holofotes do mundo inteiro ao meu redor, pra suprir a ausência da minha própria luz ou o fato de que eu nunca consegui enxergar essa luz de verdade? E se for eu querendo fugir do que eu sou, por saber que o caminho pra assumir isso pode ser difícil e sem glamour algum? E se eu tiver passado a minha vida inteira construindo um mundo de fantasias pra hoje perceber que ele é feito de açúcar e a tempestade vem aí?

E que ironia... O barco é de papel.
Cansei de novo,

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

mudar (?)

Dou dois passos em direção ao nada e respiro fundo. Quase duas da manhã e a sensação de estar em lugar algum ainda não me abandonara. Procuro um jeito de acender a luz sem precisar encarar a realidade do tempo indo embora - mais um fracasso. Fitar a mim mesma no espelho é como chacoalhar o próprio corpo sem dó.

Mesmo depois de tantas idas e vindas, de tantos recomeços rasgados, meu peito burro ainda não aprendera a partir. O peso de um abandono difícil me toma por completo enquanto eu penso na vida que se foi e na que está por vir. Sempre antes, sempre depois - passado e futuro ocupando o lugar o qual deveria pertencer ao agora na minha cabeça cheia de nós. De onde veio esse dom incontrolável de intensificar e emaranhar tudo e todos dentro de mim mesma? Que tipo de herança dos infernos era aquela?

A vida parecia estar cobrando um preço caro demais por um débito do qual eu sequer conseguia me recordar. Todos os lados, por todos os caminhos, em todas as opções: sempre perda, seguida de uma dor cujas feridas não cicatrizariam jamais.

Alguém me ensina a ser menos eu de vez em quando?
Mudar, em todos os sentidos da palavra, dói demais. E em se tratando de mim, quase mata. Sempre extremos.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

100

e você vai me engolindo assim, sem pressa. me vejo submissa aos teus passos, mesmo quando eles sequer fazem barulho de tão distantes - e vergonha alguma disso eu consigo sentir. assumo a tua influência sobre o que eu sou, o que eu sinto e o que eu penso. assumo o que você me causa sem pestanejar ou odiar minha condição.

é que eu me acostumei a ser tua. mesmo quando nos braços de outro alguém no meio do nosso caminho, a verdade jamais deixou de ser a mesma: o caminho era nosso; ele ainda é. não é?

e como voltar a ser só minha agora que meu peito já não obedece aos meus comandos? como colocar os pés no chão diante da imensidão azul a qual, mesmo quando escurece e assusta, me faz pulsar muito mais que o jardim imenso lá embaixo, tão vazio?

eu preciso da tua mão na minha. preciso do clichê patético e ultrapassado de dizer que te amo aos prantos num aeroporto lotado. e ir embora com o peito transbordando um amor que vai ter que esperar.

e eu espero. espero com a paciência de quem acredita nas certezas mais incertas de todo o mundo. e se você tá por aí bagunçando a vida de outras garotas que esperam, eu finjo que não vi, que não soube, faço de conta que não liguei. qualquer coisa pra manter a ideia de que você volta e de que, nessa volta, vai ser de novo só meu.

uma bagunça completa, bem sei. mas é a minha bagunça. e só eu sou capaz de não me afogar nela. de não me afogar em você.




(porque a postagem número 100 tinha que ser pra ele)