terça-feira, 7 de setembro de 2010

Pão

Ela já nem sente mais os pés. Quase cinco da manhã, maquiagem foi passear e o jeitinho só dela de se sentar com aprumo acabara abandonado na metade da festa. Nos ouvidos o zumbido já comum dos finais de semana: muita música alta mas, acima de tudo, muita música ruim pra ecoar nos sonhos das próximas três ou quatro madrugadas.

Adentra às pressas o banheiro abarrotado e franze o nariz de dor. Adeus copo, adeus sapatos, boa noite ao chão - que a recebe melhor do que qualquer pessoa até então. Cabeça nos joelhos, pensa em chorar. Mas quer saber? Que chorar, que nada. Os cantos de seus lábios cobertos do batom rosa já desbotado se crispam, mas o esgar transforma-se inevitavelmente em um sorriso débil. Ela fecha os olhos, balança a cabeça e, sem saber nem ao certo o motivo, ri.

E o que começou num sorriso passa a ser uma gargalhada dessas meio silenciosas, misturinha cruel de vergonha e cansaço. O espelho à frente mostra uma imagem quase cômica: expectativas mais frustradas do que nunca, ela vê a si mesma engolindo sapos mais uma vez. Contentando-se com migalhas por acreditar que elas ao menos trazem de volta a lembrança do que um dia pareceu um pão. E se eu digo pareceu é porque não posso ir além: douradinho e bonito, sim - até a primeira dentada. Eis que a dureza e o sabor insoso vêm à tona, disfarçados.

E ela até dava umas voltas por aí de vez em quando, pra sentir o cheiro de pão quentinho nas padarias vizinhas. Mas provar um novo? Ah, isso não. Se vem de graça ela até arrisca uma casquinha, mas os primeiros padeiros já deram conta de ensinar: pão é tudo igual, por mais diferente e irresistível que pareça a receita. E a gente não deve mais pagar pra ver.