sexta-feira, 7 de maio de 2010

mais um sem título

Eu que escrevia sem saber porquê, hoje não encontro o motivo pelo qual já não vomito palavra alguma.

Acho que a vontade de ser alguma coisa a mais tem travado meus sentidos. E o mais engraçado é essa inércia, essa sensação de imobilidade diante da vida que corre ao meu lado e eu já não acompanho. Se foi um simples tropeço ou se só perdi o ritmo eu já nem sei. Não consigo sequer identificar se essa superfície abaixo é o chão ou mais uma das minhas nuvens particulares, talvez mais endurecida. Não sou capaz de identificar coisa externa alguma já tem um tempo; como decifrar o que se passa em um peito mudado?

Se eu chorasse, se eu gritasse, se eu sentisse um pouquinho mais. A agonia surda-muda que se instala aqui é pior que aquela fonte antiga de medos e tragédias particulares. Pois que quando eu urrava por conta de uma dor dilacerante, de um sonho despedaçado, de uma incompreensão constante, a vida era mais palpável. As pessoas pareciam de papel e eu é que era real demais, tão estranhamente imensa e minúscula. E eu sigo não tocando ninguém, bem sei, mas e a mim? E agora que não sou capaz de delinear o que eu mesma tenho sido nesse tempo todo? E quando no lugar de um sonho despedaçado surge a perplexidade de não reconhecer os próprios sonhos?

Uma semana, um mês, um ano - eu nem sei quanto tempo faz que esse caos vestido de normalidade se instalou nesse quarto, nessa vida. Tenho hoje quase tudo o que julgava necessário pra me preencher e o buraco só parece crescer... Não, não é isso. O problema não é a cratera imensurável que sempre existiu. A questão agora é o que eu faço dela. O que ela causa em mim, o que eu causo em mim, o que o mundo causa - que é nada. O rio antes transbordante, depois de meus milhares de pedidos por uma trégua, parece ter secado. E palavras não são mais alívio, porque não há mais nada pra ser amenizado. Eu, sempre tão intensa, me pergunto agora se é possível conviver com tamanha frieza, sem sequer saber do que ela é composta.

É assim que as outras pessoas se sentem? É isso a "vida normal"? Esse vazio agudo diante de tudo, essa falta de tato, essa insensibilidade disfarçada de paz? Meu pedido só foi atendido e eu preciso acostumar, então?

Se é assim, destroca aí. Quero a lágrima e o íntimo abstrato de volta. E não ligo a mínima pros efeitos colaterais.

3 comentários:

Lorena Weasley* disse...

Como diria o grande mestre Guimarães Rosa "Felicidade se acha é em horinhas de descuido". E também que "esperar é reconhecer-se incompleto". Se você já não espera nada, é porque se completou.
Mas não se preocupe: já, já você acha alguma coisa que quer e ainda não tem e toda a agonia volta. E conforme as coisas vão dando errado, as lágrimas voltam a te acompanhar.


Obs: a palavra de verificação abaixo é "minar" http://www.dicio.com.br/minar/

J.B Ribeiro disse...

Não sei se é porque eu te conheço... mas tenho certeza que essa falta de agonia é a o repúdio da tranquilidade. Sabe quando não tem sobre o que reclamar? Sobre o que ter repulssao? A gente fica assim, esperando alguma coisinha dar errado pra poder fazer dela o grande buraco negro da vida.
Não te importas com os efeitos colateirais, pois são eles teu grande propulssor de palavras - lindas, à propósito - e de vida.

Calma isa, daqui a pouco uma pedrinha é arremessada no teu caminho,e não faças dela o Everest, mas dê a ela um tamanho significativo...

BEIJOS AMOR
escreves muito!

Bárbara disse...

é perigoso sempre utilizar o que nao temos como bengala emocional. querer viver apenas através daquilo que nos é ausente é escravizar-se. a conjugacao se faz no agora, porque "seria" é abstrato, é o futuro do que nao foi; e eu nunca vi alguém sentir (sofrer, disfrutar) a vida em um tempo que nao o presente do indicativo.

"o que importa afinal, viver ou saber que se está vivendo?"