domingo, 14 de novembro de 2010

Ela olhou pra ele e disse que, embora não compreendesse a razão, queria ficar ali. Envolta nos braços dele enquanto a lua iluminava fracamente um sorriso sem nexo, sem motivo, sem perdão. Por alguns instantes pensou em ir embora, tomada pela sensação impertinente de auto-engano e ilusão; mas ficou. Permaneceu sentada naquele frescor de início de verão, sentindo-se completa em meio à imensidão de dúvidas e lacunas em branco. E mesmo sabendo que fechar os olhos seria jogar-se de um abismo desconhecido, preferiu arriscar. Puxou o ar com força e ignorou a possibilidade da dor, tão real. Colou os lábios nos dele e disse a si mesma que estar ali lhe bastava.

Se ela em seguida chorou ou sorriu com graça, lamento não saber - é preciso que a história de fato termine pra que se saiba dela o final.

sábado, 16 de outubro de 2010

sunday morning

O metrô chega em um minuto e eu embarco imersa em pensamentos, quase ignorando o "mind de gap" incessante que ficou gravado no meu cérebro desde a primeira semana nessa cidade. Não tem lugar vago e eu permaneço, dessa forma, em pé, ouvindo com atenção o ranger alto do metal do trem indo de encontro ao dos trilhos provavelmente muito velhos. Lembro que eu imaginava o tube como uma coisa silenciosa e dou risada de mim mesma, em meio ao barulho ensurdecedor.

Uma, duas, três estações. Paro de contar as paradas e no que me parecem mil anos depois, chego à Camden Road. Desço sem pressa e sigo o fluxo pelo way out sem sequer pensar. Escadas rolantes, stand on the right, uma curva aqui, outra ali, oyster card liberando catracas... e pronto. Ar puro, estou na rua. O sol insiste em abrir passagem por entre as nuvens e eu o admiro por isso - ir contra o cinza inquebrável do céu londrino é coragem pra poucos. Mas de certa forma eu andava aprendendo a imitar o sol.

Me perco em meio à multidão de Camden Town como se fizesse parte daquilo e até que me sinto como tal. Reconhecer um lugar estando tão longe de casa tem desses confortos, eu creio. Por mais que só tivesse estado lá por três vezes antes, caminhar sabendo pra onde ir e ignorar o mapa no bolso do casaco sabia ser confortante. Até dava pra sorrir pro tio brasileiro que vende pizza na rua principal e lembrar com graça de quando fiz o pedido em inglês, na semana anterior. Por mais que ele não fosse se lembrar de mim, vê-lo ali em mais um domingo era como me afastar um pouco das incertezas de se estar sozinha em um lugar tão grande.

Penso em seguir em direção à barraquinha onde fazem milkshake de Kinder Bueno mas, embora eu salivasse só de pensar, percebo que não tenho certeza a respeito do caminho até lá e fico com o lado seguro do meu dia até então equilibrado. Encaro, então, a primeira ruelinha à esquerda onde os bancos são metades de motos de um jeito alternativo e bonitinho. Passo pelo restaurantezinho de comida brazuca e resisto à tentação de parar pra comer um pão de queijo ou tomar um guaraná, mas não sem sorrir à menina que trabalha lá, a qual também não deve fazer ideia de quem eu sou. Grande coisa. Eu também me esqueço às vezes.

Eu gosto quando sorrir aqui é assim tão fácil.

original em http://isadoranaeuropa.blogspot.com

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Pão

Ela já nem sente mais os pés. Quase cinco da manhã, maquiagem foi passear e o jeitinho só dela de se sentar com aprumo acabara abandonado na metade da festa. Nos ouvidos o zumbido já comum dos finais de semana: muita música alta mas, acima de tudo, muita música ruim pra ecoar nos sonhos das próximas três ou quatro madrugadas.

Adentra às pressas o banheiro abarrotado e franze o nariz de dor. Adeus copo, adeus sapatos, boa noite ao chão - que a recebe melhor do que qualquer pessoa até então. Cabeça nos joelhos, pensa em chorar. Mas quer saber? Que chorar, que nada. Os cantos de seus lábios cobertos do batom rosa já desbotado se crispam, mas o esgar transforma-se inevitavelmente em um sorriso débil. Ela fecha os olhos, balança a cabeça e, sem saber nem ao certo o motivo, ri.

E o que começou num sorriso passa a ser uma gargalhada dessas meio silenciosas, misturinha cruel de vergonha e cansaço. O espelho à frente mostra uma imagem quase cômica: expectativas mais frustradas do que nunca, ela vê a si mesma engolindo sapos mais uma vez. Contentando-se com migalhas por acreditar que elas ao menos trazem de volta a lembrança do que um dia pareceu um pão. E se eu digo pareceu é porque não posso ir além: douradinho e bonito, sim - até a primeira dentada. Eis que a dureza e o sabor insoso vêm à tona, disfarçados.

E ela até dava umas voltas por aí de vez em quando, pra sentir o cheiro de pão quentinho nas padarias vizinhas. Mas provar um novo? Ah, isso não. Se vem de graça ela até arrisca uma casquinha, mas os primeiros padeiros já deram conta de ensinar: pão é tudo igual, por mais diferente e irresistível que pareça a receita. E a gente não deve mais pagar pra ver.

domingo, 15 de agosto de 2010

ironia

É um desses tropeços que a gente dá no meio do caminho e que, se não paramos pra pensar, sequer percebemos que nosso rosto quase encontrou o chão. Habituados ao vai-e-vem constante de erros e acertos, tratamos a montanha-russa maluca em que a vida se transforma às vezes com uma normalidade meio insana.

Eu esperei a coisa errada das pessoas e das coisas por muito tempo. Minhas expectativas com relação a tudo na vida se resumiram por séculos em uma palavra que jamais vai me descrever: exatidão.

O homem exato, a realização exata do sonho, a casa exata, enfim. Tudo como planejado, como desejado, como delineado nos meus pensamentos mais sonhadores, por vezes utópicos.

E de repente me vejo aqui, encurralada pela minha própria inexatidão. E ainda assim com uma capacidade ímpar de sorrir e bater palminhas mesmo pros piores showzinhos que a vida me obriga a assistir - às vezes até a dar. Ironia, né?

sábado, 14 de agosto de 2010

"you never know how strong you are until being strong is the only choice you have"


~


ela era feliz em si mesma, enfim.

terça-feira, 27 de julho de 2010

escreve

de todos os conselhos possíveis nesse mundo de opiniões incansáveis, o meu se resume em um apelo: escreve.

se arde, se carcome os sentidos, se impede os olhos de se fecharem mesmo no mais cruel dos cansaços. se desespera, se pedes trégua e cai tempestade, se o aguaceiro esquece de levar o que não presta como deveria, então escreve. escreve com sono, com fome, com som. escreve em silêncio, gritando, sem chão - mas escreve. traduz em palavras todo o indizível do teu coração, tão maior e mais pulsante que os sermões e discursos proferidos todos os dias nesse nosso vício de explicar o intangível.

e quando travar - como agora - não apaga. deixa que o tempo traz o sentido oculto das palavras soltas. ele sempre o faz.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

and that's how you can make everything fall to pieces in 24 hours.


what are you doing?
I bet you'll never realize. you never do.

domingo, 27 de junho de 2010

das coisas que eu sou




e tudo bem que são cinco horas da manhã, que eu devia estar dormindo e que só to aqui porque bebi um pouco além da conta. mas é engraçado como festas, ao contrário do que seria comum, conseguem me fazer pensar na vida e me entender melhor.

acontece que a vida não é uma aventura. eu não to aqui pra curtir o tempo todo, ultrapassar limites e desobedecer o máximo de regras possíveis. eu vim pra ser alguém, pra fazer o mundo sorrir um pouco mais, pra tocar as pessoas de alguma forma... seja com as minhas palavras ou com um sorriso, uma mão estendida.

um final de semana, uma festa em especial, enfim. ninguém é de ferro e sair da linha não é pecado - não pra mim. só que as pessoas não devem ser só isso. acontece que eu não sou só isso e não importa o quanto eu me sinta estranha, deslocada, diferente e exagerada: não posso deixar de sentir orgulho de ser quem eu sou.

já errei muito, eu sei. não sou perfeita, faço minhas merdas, tropeço bastante. mas sabe o que é? eu tenho alguma decência, alguma dignidade, alguns arrependimentos e auto-punições. e se isso parecer auto-suficiência demais, não me importo. passei muito tempo diminuindo a mim mesma, me criticando e me sentindo errada. mas se sentir errada por estar certa não é legal. e num mundo onde a inversão de valores é uma constante, quem chora e fica "de fora" é quem tem a cabeça no lugar. mas isso não me faz sentir vontade de entrar em certas ondas, de encarar certos costumes e baixar a cabeça pro que me incomoda. isso só me faz ter um impulso maior ainda de manter os pés no chão e não sentir vergonha de não ser "igual".

hoje eu me assumo. não gosto de drogas, não gosto da ideia de ter uma lista de trocentos guris que eu já beijei (e não a tenho), não gosto de gente arrogante, não gosto de pisar e nem de ser pisada. eu sei o que eu quero, eu sei quem eu sou e do que eu preciso. tenho meus defeitos, tenho minhas qualidades e acima de tudo, por mais que por vezes me esqueça disso, eu tenho meus sonhos.

então chega de ceder ao rótulo de careta, sem graça, radical ou extremista. eu não sou nada disso, porque eu respeito. e respeitar é uma arte difícil de se levar adiante, podem crer - mas é também o exercício que mais compensa no mundo inteiro.

sabe o bem e o mal dos contos de fadas? não sou a princesa nem a bruxa (até porque, cá entre nós, não tem nenhum príncipe perambulando por aí). mas pode ter certeza de uma coisa: não precisa ser perfeita, mas dá pra ser do bem. e ser do bem é algo que nada no mundo pode pagar.

ingenuidade ou não, eu sei que vou mudar o mundo de algum jeito. mesmo que seja só o meu mundo. e bem-vindos aqueles que quiserem ajudar.

let's make it better!

Escrito na madrugada de domingo, 27 de junho de 2010, às 5h27min.

terça-feira, 22 de junho de 2010

o que eu queria + lembranças

e eu que só queria um colo e um afago. a construção diária de algumas lembranças bonitas, pra sorrir pro travesseiro na hora de dormir. flores em dia-de-nada, uma mão pra segurar a minha sob o sol escaldante de um verão onde as pessoas procuram por toque como quem procura por uma luz interior perdida. busca desesperada que confundem com festa, álcool, doze línguas por semana e sutiãs no chão.

eu que só queria a alegria de me sentir entorpecida sob o efeito de sorrisos, lugares bonitos e pessoas sinceras. sem drogas, sem gritos, sem máscaras. só o sorriso sóbrio dele a iluminar meus olhos e aquele abraço a aquecer meu corpo sem graça - mas que ele achava lindo.

eu que só queria ser dele até o sol acordar e adormecer assim, inteira e nua, longe desse frio que rasga minha pele agora. fechar os olhos e saber que alguém me observa com aquele olhar de quem ama e sente que só esse amor basta.

queria sentar ao lado dele no carro e, ao som de uma música qualquer, procurar um pôr-do-sol bonito pra deitar na areia e sentir o peso de simplesmente respirar. como aquele dia em que a gente passou horas, talvez séculos sentados debaixo do chuveiro, meu rosto no ombro dele e o chão gelado que só. só pra sentir como é boa a sensação da barba dele bagunçando meu cabelo enquanto a água caindo era a única coisa que quebrava o silêncio.

eu que só queria sentar mais uma vez num lugarzinho qualquer pra comer um pastel gorduroso e rir das coisas mais estúpidas possíveis. discutir por culpa da minha cabeça-de-vento e de uma carteirinha de estudante esquecida, no meio do shopping, e gritar com ele no caminho pra casa... sem saber que acabaria na frente de um restaurante gostoso, de surpresa, me sentindo ridícula. e ver outra vez aquele sorriso satisfeito que me deixava completamente sem reação diante dos meus dramas desnecessários.

queria um filme e o nosso macarrão ao molho branco que só era bom porque a gente tava sempre morrendo de fome. e de sobremesa as besteiras de que ele nem gostava, mas às quais acabou se rendendo por conta do meu vício incontrolável. com uma coca-cola bem gelada pra acompanhar.

eu que só queria ficar bêbada lá de vez em quando pra ver o olhar dele se dividindo entre desaprovação e risada. naquelas noites em que a gente era capaz de se divertir mesmo sendo a formatura de um primo mais velho, festa cheia de tios e avós ao redor. e a gente dançando no meio da pista como se ninguém pudesse nos ver, rezando pra que a mãe dele não quisesse ir embora logo. ou depois de uma balada que tinha tudo pra ser chata e não foi, com a noite terminando num drive pra comprar hambúrguer e batata frita... e foda-se se o mês tá só começando e o dinheiro vai acabar.

o vento forte atrapalhando as fotos no farol. o beijo apaixonado na beira da praia, em Laguna, num dia meio fresquinho de sol. e ele ignorando o meu discurso chato sobre protetor solar e câncer de pele. eu que só queria de volta o jeito como só ele sabia ignorar tudo de chato que eu fazia e dizia - e ainda conseguia achar graça.

só queria o tempo onde dividir o combo gigante do cinema e faltar ao churrasco da turma era sinônimo de diversão em pleno sábado. e se o filme fosse horrível, tudo bem - ele dormia no meu colo e eu ficava analisando a atuação da Cameron Diaz e sonhando acordada com o dia em que estaria naquela tela gigante.

eu que só queria acordar com um pratinho de sucrilhos e um "bom dia" sonolento, nas férias. e depois passar a manhã inteira naquele estágio gostoso entre o dormindo e o acordada, com a mão dele fazendo carinho na minha cabeça (e parando no meio do movimento quando ele cochilava. acorda!). e a hora do almoço era sinônimo de sair de casa - miojo não é legal todos os dias e o shopping parece uma opção melhor.

eu que só queria o pulinho que o coração dava quando o celular tocava e era ele - meia hora depois de ter me deixado em casa, já uma ligação de quase duas horas antes de dormir. pra falar de nada, é claro... e lembrar o quanto a gente se gostava, entre um assunto e outro.

eu que só queria a paciência dele pra me ensinar a segurar os palitinhos do sushi. ele que me fazia experimentar coisas que eu nunca engoliria por conta própria e que não conseguia entender como eu não gostava de camarão.

queria a irritação inevitável quando ele preferia jogar poker e beber cerveja com o meu pai a ficar comigo. ou os dias em que a gente saía do quarto dele no meio da madrugada só pra buscar água gelada e um pedaço de chocolate branco... mas acabava sentando no computador e perdendo a hora com vídeos idiotas do youtube. o que acabaria rendendo uma noite única no teatro pra assistir aos Improváveis, mais tarde, mas a gente ainda não sabia disso.

eu que só queria o caminho até o Santa Hora - que era curto, mas suficiente pra discutir se ouviríamos as músicas dele ou as minhas. discussão que eu sempre acabava ganhando, porque não era minha culpa, afinal, se ele havia incluído Colbie Caillat na seleção do Ipod pra me deixar feliz. e se fosse Emicida, que fosse a "minha" música. na volta pra casa, parada obrigatória: Space Food com duas salsichas, pra levar.

tudo o que eu queria era bater mais uma vez o recorde dele na cobrinha do celular. e depois ficar enchendo o saco pra ele não acabar batendo o meu, com a desculpa de que querer atenção.

queria ir em mais uma festa onde uma garota atirada estivesse presente... só pra ver a cara dela quando ele a ignorasse e viesse ao meu encontro. e queria ouvir de novo um "tu tá linda demais" toda vez que eu me arrumasse o mínimo que fosse. daquele jeito que me fazia sorrir sem pensar.

eu só queria ligar pra ele de manhã pra ouvir o monte de frases desconexas que eram o máximo dele logo ao acordar. e o mau-humor antes de ir pra praia cedinho, que ia embora na primeira latinha de cerveja e no primeiro mergulho juntos.

queria deitar outra vez na grama da redenção, em Porto Alegre, enquanto uma priminha pequena não deixava a gente chegar muito perto um do outro. depois "jogar" futebol com ela até cansar ou sentir fome demais. e a noite fazer esforço pra não acordar ninguém enquanto o sono não vinha - porque ele não vinha nunca, de fato.

e eu que só queria voltar ao momento em que eu abri aquela caixinha vermelha, no meu aniversário de dezessete anos. e sentir de novo um amor novo, nunca antes sentido, ao observar o cordãozinho com pingente de coração que tinha lá dentro. depois jantar ao lado dele com aquela vergonha ainda existente depois de uma única semana de namoro, a qual foi se quebrando mais rápido que o esperado, até não sobrar nada. e queria também a cesta cheia de coisas gostosas que veio junto do presente de Natal, porque dar só o vestido "não era a cara dele". e depois beber com ele o champagne, no gargalo mesmo, debaixo de uma tenda à meia-noite do último dia do ano. com um beijo e o primeiro "eu te amo" de 2010. e chegar em casa só às oito da manhã... pra dormir ao lado dele até a noite.

queria entrar no apartamento dele pela primeira vez e ser apresentada à mãe dele de novo. e com o passar do tempo cantar e tocar violão com ela na sala, numa vingancinha engraçada pelas tardes de poker lá em casa. engraçada e frustrada - o sono dele era grande o suficiente pra nos deixar em paz e nem sentir.

fazer de novo planos de viajar pelo mundo com ele. lamentar com ele a necessidade de estudar, ignorar o relógio, as horas passando, o próprio tempo. queria de volta os dias em que ele me bastava e eu bastava pra ele, simples assim. quando estarmos longe um do outro era a exceção - e só acontecia quando inevitável.

e eu que só queria que as coisas não tivessem mudado jamais, hoje não peço nada além da paz que ele não quis ou não pôde me dar. e mora em mim a vontade eterna de encontrar de novo a felicidade que por certo tempo eu encontrei ao lado dele. mas que eu já não encontrava mais, enfim... enfim.

mesmo o maior amor do mundo tem que ter um fim. a esperança de sentir tudo de novo um dia, porém, não tem. e se eu ainda acredito no amor, vai ver acredito que ele tá por aí, dançando com o vento a espera de duas pessoas com o peito aberto pra sentir.

e é por isso que eu não vou deixar a saudade me consumir. é por isso que eu não posso fechar o meu peito. é por isso que eu não vou.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

esquece

então me explica essa coisa que engole e engole sem parar o tempo todo, que não sacia jamais, que não cala, que não adormece, que me impede de respirar e sequer encosta em mim pra isso. me explica do que eu sinto falta quando tudo deveria ser suficiente de alguma forma. explica o motivo de há tanto tempo as palavras estarem parecendo fracas, miúdas, manchadas de uma tinta preta que não se chama sinceridade. me explica qualquer coisa, vai. é tudo tão incompreensível aqui que mesmo a tradução daquela música já vale.

e se a neve for mais melancólica do que bonita? e se essa falta que ele me faz não for temporária? pior ainda, e se ela for? e se eu acordar numa manhã de inverno e o amor tiver ido embora? e se essa minha intensidade incontrolável voltar a dizer respeito apenas ao meu íntimo cheio de fraquezas e auto-insuficiências? quando não houver mais um "ele" pra que eu me sinta segura dentro de mim, pra onde vou correr?

dói saber que isso tudo vem de tanto tempo. saber que não é ele, que não é a vida, que não são as decepções e as mudanças loucas que estão por vir. dói saber que sou eu, sem mais. eu e a minha inconstância que não cessa por nada.

sinto falta do abstrato que é decifrar o coração em palavras, mas sinto nojo também. queria saber expôr o que eu sinto sem essa poesia imperfeita que se faz presente mesmo quando nada sai direito.

quem diabos eu sou e quem diabos eu quero ser?
não quero aquela menina estúpida e melancólica de volta. mas também não quero essa mulher que aparenta frieza enquanto desmorona por dentro. só queria um colo e uma xícara de chá. com bastante açúcar e o beijo dele pra me consolar. por mais errada e insuficiente que a união dos nossos lábios possa ser. e não é nada disso também... esquece.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Louca

"Uma vez, no recreio, comendo um Bis derretido, pensei isso, pela primeira vez: e se eu ficasse louca?
Vi minhas amigas trocando papéis de cartas, vi uns meninos correndo de testa suada, vi uma professora caminhar como alguém que pensava em alguém que ela encontraria no final do dia, vi tudo isso como se não pudesse ter, ver, ser. E se eu ficasse louca. Que triste para meus pais, que triste para a carteira vazia da escola, que triste para os livros plastificados com a etiqueta que dizia que era eu. Uma estudante, uma garotinha, com família, amigos, presilhas de cabelo, camisas brancas PP com um brasão que trazia um livro e um fogo. Se eu ficasse louca tudo isso seria o quê? Pra onde iriam os materiais e as pessoas e o amor? E se eu ficasse louca? Quem iria me ver babar num canto de um hospital? Existe louco em casa? Mãe ama os loucos? Louco tem amigo? Louco tem livro plastificado? Louco começa e não para mais até acabar? Louco uma vez, louca pra sempre? Converse. Respire. Pense em garotos. Pense em xampus. Vamos. Não fique louca. Mude de assunto. Pense na menina mais bonita do mundo e odeie. Dê nome pra loucura que ela deixa de ser. Sinta dor com nome que assusta menos. Caia na aula de educação física, rale o joelho, sangre, dói menos. Desembarace os cabelos e sinta que problemas se alisam. Faça o papel do Bis virar um barquinho. Isso. Conte uma piada. Se os outros rirem bastante. Se a sua estranheza puder ser amada. Qualquer coisa menos loucura. Pense naquela música da rádio. Não, você não está triste. Uma fofoca e pessoas em volta. Vá até o banheiro retocar o batom da moranguinho. O professor mais ou menos bonito, por ele. Os outros. Olhe. Os outros. Vamos. Que data mesmo? Da guerra. Que data? Qualquer coisa. Menos louca. O hino. Sujou um pouquinho da meia. Limpinha. Dê nome aos problemas. Problemas com nomes são problemas e não loucuras. Sempre evitando que ela saia. Sempre segurando. Não caia dura no meio do mundo. Não se chacoalhe no meio do pátio. Não vomite só porque sei lá o que é isso impossível de digerir e nem quero saber. Não abrace sem fim porque é preciso sentir o vento com o peito sozinho. Terrível mas tem banho quente pra distrair. Não espanque, não soque, não chore sangue, não arranque a língua, não grite, não acabe. Siga. Sorria. Mais uma prova. Mais uma festa. Mais um garoto. Sempre um pavor escondido mas nem era nada disso. Sempre uma tristeza abafada mas nem era nada disso. Sempre uma alegria exagerada que ninguém acolhe e o silêncio depois, fazendo curativos na pureza criando cascas. Um dia você será. O quê? Normal. Um dia você será. Normal. Um dia. Enquanto isso, se distraia como a professora que ama, as crianças que trocam papéis de cartas, os garotos que correm. Eles estão se distraindo também e pensando “olha, uma menina comendo Bis”."


Tati Bernardi.

Enquanto o grito aqui dentro faz de conta que é mudo e não me deixa vomitar palavras, uso as dos gênios que me inspiram e impedem que me sinta sozinha. Obrigada por mais essa, Tati.

sábado, 29 de maio de 2010

O texto




Eu guardei um texto da Tati Bernardi pra mandar só pra você. Um que sempre me fez suspirar por dizer coisas que eu nunca quis dizer pra alguém - que eu nunca pude dizer, porque não faria sentido. E a cada novo mês contigo eu escrevia o texto com caneta colorida no final de uma cartinha, pensando que era chegada a hora. Ou imprimia em papel vegetal pra colar numa folha enfeitada e arrancar de ti aquele sorriso gostoso, talvez até uma lágrima. Ou colava num e-mail melancólico desses que eu sempre curti escrever. Por algum motivo, no entanto, desistia. Parecia mais certo esperar um momento em que a certeza fosse maior. Um instante no qual eu dissesse "caramba, é ele". E as palavras não saíssem manchadas de uma insegurança bonita mas, ainda assim, insegura.

E o texto tá aqui, agora, na minha mão. Nas mil versões diferentes que poderiam ter sido suas no dia em que eu sentisse ser o certo. E embora com uma dor amarga no peito, me toma agora o alívio de tê-lo guardado pra alguém. Alguém que não é você - e eu fiz de tudo pra que fosse.

Eu guardo esse maldito texto pra um desconhecido que já teve seu rosto. Eu quase acreditei. Quase apostei tudo em um nós quebradiço - e por um momento até achei que tivesse apostado, que o aperto de não tê-lo aqui comigo me traria a queda de um abismo eterno. Pensei não ter guardado nada mais de mim; tudo já tinha sido seu um dia.

Mas eu guardei esse texto. Tão simples, tão puro, tão meu. E mesmo com todas as cartas que escrevi pra você, mesmo que tenha visto seus olhos se encherem diante de palavras absurdamente íntimas, de uma importância incalculável pro que eu sou e pro que eu quero, eu posso respirar aliviada. Porque o texto da Tati eu guardei. E é preciso muito pra merecê-lo.

Você chegou perto. Por algum motivo, porém, deu um passo pra trás. Doeu. Ainda dói, eu sei. E vai doer por sabe-se lá quantos milhares de anos aqui dentro. Mas se quer mesmo saber, eu já escapei da dor muitas vezes. Vezes o suficiente pra entender que amor não é isso. Que amor não deve ser isso. E que eu tenho de ser forte pra aceitar.

Outra vez, um peito vazio - quase. Reside nele ainda a esperança quase afogada de quem fantasia um futuro sem solidão. Por enquanto, eu a alimento. Aproveito o tempo a sós comigo mesma como quem reconstrói a si mesma, pouco a pouco, sem pressa. Juntando ao velho corpo as experiências adquiridas em uma história que não durou pra sempre, como todas as outras.

Eu te amei. Eu te amo. Mas nesse mundo nada é pra sempre, certo?
Que esse amor se vá, então, junto do frio que insiste em chegar. Mas que vai embora. E leva com ele tudo o que atrofia o coração e faz chorar. Deixando só as lembranças, melancolia de um passado que eu prefiro pensar ter sido bonito e suficiente. Por mais louco que pareça - passado.

Mais uma vez, a Tati Bernardi me salvou. As palavras de alguém ou as minhas próprias - escrever sempre me salva.

cadê?

"(...) Então o quê? Nem eu sei. Mas sei da minha enxaqueca que já dura uma semana. Latejando sem parar. O coração que subiu nos meus ouvidos. Gritando que sente falta e pronto.
Eu sinto falta de ligar o celular, depois do avião aterrissar, e ter uma mensagem sua dizendo que vai dar tudo certo. E sorrir mesmo estando numa fila gigantesca para o táxi, embaixo daqueles 78 graus do Rio de Janeiro. Não tem poesia nem palavra difícil e nem construção sofisticada. O amor é simples como sorrir numa droga de fila. E não se sentir mais sozinho e nem esperando e nem desesperado e nem morrendo e nem com tanto medo.
Eu sinto falta de querer fazer amigos em qualquer festa, só pra conhecer gente estranha e te contar depois. Agora, eu fico pelos cantos das festas. Voltei a achar todo mundo feio e bobo e sem nada a dizer. Porque eu acho que estava gostando mais das pessoas só porque te via em tudo. Agora as pessoas voltaram a me irritar. E eu voltei a ter que fazer muita força pra sair de casa. (...)

E naquele momento eu pensei que poderíamos ser infinitos se fossemos música. E isso explica tudo, mas ninguém entende. Você entende. Mas cadê você?
Quando vai dando assim, tipo umas onze da noite, o horário que a gente se procurava só pra saber que dá pra terminar o dia sentindo algum conforto. Quando vai chegando esse horário, eu nem sei. É tão estranho ter algo pra fugir de tudo e, de repente, precisar principalmente fugir desse algo.
E daí se vai pra onde?"

- Tati Bernardi.

terça-feira, 25 de maio de 2010

A gente tenta arrancar todas as lembranças e todos os sentimentos que restaram no coração. Mas quando isso é tudo o que somos, sobra o que lá dentro?



Vazio.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

mais um sem título

Eu que escrevia sem saber porquê, hoje não encontro o motivo pelo qual já não vomito palavra alguma.

Acho que a vontade de ser alguma coisa a mais tem travado meus sentidos. E o mais engraçado é essa inércia, essa sensação de imobilidade diante da vida que corre ao meu lado e eu já não acompanho. Se foi um simples tropeço ou se só perdi o ritmo eu já nem sei. Não consigo sequer identificar se essa superfície abaixo é o chão ou mais uma das minhas nuvens particulares, talvez mais endurecida. Não sou capaz de identificar coisa externa alguma já tem um tempo; como decifrar o que se passa em um peito mudado?

Se eu chorasse, se eu gritasse, se eu sentisse um pouquinho mais. A agonia surda-muda que se instala aqui é pior que aquela fonte antiga de medos e tragédias particulares. Pois que quando eu urrava por conta de uma dor dilacerante, de um sonho despedaçado, de uma incompreensão constante, a vida era mais palpável. As pessoas pareciam de papel e eu é que era real demais, tão estranhamente imensa e minúscula. E eu sigo não tocando ninguém, bem sei, mas e a mim? E agora que não sou capaz de delinear o que eu mesma tenho sido nesse tempo todo? E quando no lugar de um sonho despedaçado surge a perplexidade de não reconhecer os próprios sonhos?

Uma semana, um mês, um ano - eu nem sei quanto tempo faz que esse caos vestido de normalidade se instalou nesse quarto, nessa vida. Tenho hoje quase tudo o que julgava necessário pra me preencher e o buraco só parece crescer... Não, não é isso. O problema não é a cratera imensurável que sempre existiu. A questão agora é o que eu faço dela. O que ela causa em mim, o que eu causo em mim, o que o mundo causa - que é nada. O rio antes transbordante, depois de meus milhares de pedidos por uma trégua, parece ter secado. E palavras não são mais alívio, porque não há mais nada pra ser amenizado. Eu, sempre tão intensa, me pergunto agora se é possível conviver com tamanha frieza, sem sequer saber do que ela é composta.

É assim que as outras pessoas se sentem? É isso a "vida normal"? Esse vazio agudo diante de tudo, essa falta de tato, essa insensibilidade disfarçada de paz? Meu pedido só foi atendido e eu preciso acostumar, então?

Se é assim, destroca aí. Quero a lágrima e o íntimo abstrato de volta. E não ligo a mínima pros efeitos colaterais.

sexta-feira, 19 de março de 2010

x







Tá, chega. Escreve alguma coisa e pára de uma vez por todas com essa mania estúpida de "perdi meu dom". Nunca é preciso mais que uma dorzinha qualquer no peito pra que escarrares palavras duras aqui, de qualquer forma. E se sentias antes a sensação inédita de encarar o papel vazio, talvez seja pelo fato de teres feito visita longa aos cantos cômodos do mundo. Pensei em dizer felizes - mas não. Felicidade é muito mais que essa inércia diante da vida e das coisas que, há muito, não te tocam mais.




Morreram teus medos, bem sei. Ao menos a maioria dos temores antigos passou dessa pra melhor, não é? E isso pareceu facilitar muito as coisas por um tempo, não foi? Que ilusão bonitinha. Fofura de auto-suficiência essa que nem sabes se inventaste ou se nasceu aí dentro mesmo. Sempre achando que sentir-se dentro de si mesma pela primeira vez te salvaria a sanidade... Coitada. Porque as pessoas continuam parecendo pequenas, quer tu mudes ou não.




Então agora escapa. Finge que és menos do que aquilo que tanto custou pra que te tornastes, ignora teu coração aberto, fecha os olhos e respira o ar impuro o qual te satisfazia só na antiga vida. Olha pra todos que te acompanham e diz pra ti mesma que eles são o bastante. Que com todas as falhas, as ausências e as faltas de afeto, és feliz todos os dias. Não reclama teu lugar, teu direito, tua carência ou mesmo tua saudade. Faz de conta que nada disso existe, porque assim é mesmo mais fácil. É pra ser. Mas é?




Ser grande demais, pro teu azar, é ter de se encolher pra caber na vida e não sufocar as pessoas. E nem orgulho do que tu és tu consegues sentir mais. Congrats.




De mim pra mim mesma - 19 de março de 2010, às 19h36min.




terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

de outro planeta


"ei et
a pureza continua existindo mesmo quando a verdade é suja demais
acredita em mim?"

pra quem um dia já se perguntou de onde eu tiro força pra sobreviver nesse mundo louco, ta aí. tem como ser fraca com gente enorme, assim, por perto?

eu sempre acredito em ti, et. obrigada por me lembrar de não me esquecer disso.

créditos pra http://soprandoventos.blogspot.com, uma etzinha inexplicável.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

what goes around, comes around.

A gente pode aprender tudo, sabe? Muita coisa mesmo.

Aprendemos a endurecer o olhar, a firmar o passo, a sorrir querendo chorar. Aprendemos a mentir, a omitir, a manter os olhos abertos. Descobrimos que fechar os olhos é uma boa ideia quando aquela lágrima insiste em habitar o canto do olho, pronta pra cair. Achamos rapidinho um jeito de, discretamente, enfiar os dedos - jamais trêmulos - ali e limpar com mestria o ingrato sinal de que ainda somos, de alguma forma, fracos por dentro.

A gente pode aprender quase tudo, na verdade.

Não é difícil pisar em alguém. Não é difícil dar rasteira, cutucar, humilhar. Diria até que é fácil ser alguém odiável e seguir sorrindo, sem sinal externo de culpa ou pudor. Se quisermos, a gente pode até gargalhar da desgraça alheia. Da desgraça que nós mesmos, tão frios, tão grandes, ajudamos a causar. E isso não necessariamente nos faz dar um passo pra trás.

É só que, uma vez seres humanos, somos também sensíveis. Burlar sentidos pra não deixar transparecer o que o coração carrega é tarefa digna de qualquer babaca por aí, sei bem. Mas tem uma coisa que a gente nunca, nunca mesmo, vai aprender a evitar: a dor.

Consciência não é a capacidade de arrependimento de cada um. É aquilo que pesa na cabeça e no coração mesmo que você seja uma pessoa horrível, de um jeito ou de outro: se você não se importa, se você não sente remorso, você vai sentir só dor. Pura, concentrada, inevitável. Sem que você perceba, ela vai tomando conta e não pára. Porque você é gente, como aqueles que você ignorou. Você é tão humano quanto a pessoa enganada ontem, pela qual não há pena ou mesmo compaixão da sua parte. A matéria que o compõe não é diferente da que compõe todos nós.

Então tenta dormir, sabe? Vai lá, encosta a cabeça no travesseiro, faz da tua falta de caráter o casulo perfeito pra encobrir os teus defeitos, as tuas falhas, a tua deslealdade incontrolável. Sorri à vontade das tuas mentiras, omissões e distorções. Engana a todos com essa carcaça de força indestrutível e felicidade plena. Um dia, meu amigo, a vida traz pra perto, bem pertinho, uma dor tão grande que você não vai sequer ser capaz de compreender.

Não é vingança de Deus, do destino ou seja lá o que acreditas ser a verdade por trás do andamento do mundo. Não é praga minha nem desejo íntimo. É você. É o ciclo, é o universo, é a energia inevitável que envolve todos ao seu redor. É a justiça divina, universal, do amor, do planeta, sei lá. É justiça, mesmo que tardia. Ela alcança todo mundo, cedo ou tarde.


Plantar amor e verdade é sempre mais inteligente que correr e atropelar a tudo e a todos. Demora pra crescer, é difícil regar, mas é um fruto muito menos efêmero que o que você vai colher um dia. E eu vou estar lá pra assitir.


what goes around, comes around.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Contos de Verão - Saudade

Você liga o chuveiro e eu me sinto tonta só de respirar. Enrolo meus cabelos num coque desajeitado, sem conseguir organizar ideia, pensamento ou frase qualquer. Minha pressão cai. Sento-me no chão, rindo um pouco, sentindo-me uma criancinha boba. E você ali, fazendo tudo aquilo parecer um sonho estranho.

Eu queria dizer que te amava e que era bom te ter de volta, assim, mas isso não faria sentido - no fundo, hoje sei, nunca deixei de tê-lo. Você sempre foi meu, ao menos lá dentro do seu peito confuso e mole. Ao menos no canto molhado dos teus olhos castanhos, tão intensos, nunca deixou de me pertencer. Te ver chorar me fez inchar de um alívio inevitável, sabia? Porque eu precisava, há muito, chorar também.

E o teu abraço ali, nós dois molhados pelas gotas frias vindas do alto, foi como sentir a imperfeição da vida com todo peso que ela tem diante da perfeição - quebrável, eu sei - dos nossos corpos, quando próximos. Porque não haveria coisa outra no mundo todo, amor, que eu desejasse mais do que aquele abraço encharcado. Desconheço a existência de um lugar tão ansiado por mim como o que ocupei debaixo do teu queixo frio.

Perdi a noção do tempo, do medo, da solidão. A impressão de abandono, antes tão óbvia, adquiria até forma de injustiça agora que eu podia beijar teu ombro e apertar tua mão daquele jeito tão puro e simples. E se nós somos momento ou eternidade, amor, nem eu mesma sei. Mas não importa. Não mais.

Entre mentira ou verdade sei que éramos, ali, um amor nunca antes tão real.