quinta-feira, 10 de setembro de 2009

tanto tempo

O medo de, outra vez, alcançar o intangível, consome cada parte do meu corpo como uma cobra em fome desesperada. Pois que há o medo construído, e há também aquele que eu não toco. O medo de mim, do mim, em mim. O medo de correr figuradamente pelas estradas eternas do ser pra sempre. O medo inato, puro, oco. Esse temor que consome cada linha das minhas mãos pouco lidas pelas ciganas da vida.

Diria que escrever é meio louco, meio doentio mesmo, se a escrita não fosse tudo aquilo de que sou composta. Dizer tudo isso de si mesmo é como engolir sapos em meio a sorrisos de satisfação e eu não engulo, não degluto. Sou como aquele pássaro livre que só come do melhor alpiste, mal acostumado pelos estranhos generosos de suas ruas mutantes. E eu diria também que parar dói, mas não sei como é esse outro lado, esse lado vazio indizível de não transpor-se em palavras. Conheço bem o vazio, pois sim, mas só esse que sentem alguns, coitados, segundos antes de cair nas cascatas douradas da vida. O vazio intenso e ocre me dói em pensamento e imaginação; esse, por maior que tenha sido a dor, jamais toquei.

É só que escrever tem sido meio louco, meio doentio, mesmo. Tem sido quase a humanidade tácita pela qual peço perdão ao meu próprio olhar, diante do espelho. Essa humanidade que eu renego por vergonha, pudor amargo de viver na roda comum, implorada antes, agora rejeitada por todos os meus poros e suspiros cansados. Eu quis ser parcela do que vocês, homens comuns, sempre constituíram parte. Eu quis ser mais um na rotina embalada em doçura dos dias de paz. Mas o caos é tão mais doce, meu Deus. Minha fuga inconstante do caos fez de mim, cegamente, moça de peito dilacerado e sorriso de alta-costura - falso, mas bem feito. Eu cresci tanto nos meus quase dezessete anos de literatura, caos, doçura forjada e agonia insípida. Eu cresci tanto pra dentro que vomitar é natural. Escrever é natural.



Escrito em 18 de março de 2009.

certas coisas nunca mudam.

2 comentários:

Boo disse...

Eu sei como é isso... Talvez não vomite de um jeito tão poético - na verdade, costumo vomitar de um jeito bem nojento - mas entendo. De verdade.

.teka disse...

Demais. Nem tenho que falar.