quinta-feira, 10 de setembro de 2009

merda nenhuma

Andei pensando e percebi que eu meio que não sou merda nenhuma.

É, merda nenhuma. Toda essa coisa de ter um blog, um lugar cheio de textos poéticos e nostálgicos os quais as pessoas lêem e nos quais comentam alguma coisa animadora, um elogio qualquer. Toda essa coisa de ouvir Beatles de vez em quando e ler Dostoievski pra não ser uma completa babaca como todos os outros pareceram ser por tanto tempo aos meus olhos. Isso de assistir a algum filme cult e fingir estar entorpecida quando os créditos começam a subir, mesmo quando não entendo coisa alguma do que acabei de acompanhar. Não falo francês, cara, e sotaque britânico me irrita bastante. O pouco que eu chamo de “meu inglês” é enlatado.


Caí na real e não sou merda nenhuma, mesmo. Não sou o tipo intelectual que tento, há tanto, parecer ser, e também não me encaixo exatamente no perfil pseudo-intelectual, fútil até o último fio de cabelo que tenta ser interessante. Não sou patricinha também, visto que shoppings só servem pra comer e ir ao cinema assistir algo bem Hollywood. Se possível sozinha, pra chorar e engolir um saco inteiro de pipoca gigante num desespero forçado. Sem ninguém pra me fazer sentir culpada.

Emo ou punk não me cabe também. Uso All Star porque, quando comecei a usar, ninguém gostava. Criança acha o máximo ser diferente de todo mundo. Ao menos eu achava. Era coisa de punk, coisa de emo, e eu queria ser só a Isadora - usando All Star. Quando virou modinha, não tirei do pé – adolescente sempre segue modinha, embora não admita nunca. Ao menos eu acho.

Eu sequer gosto muito de rock. Não posso dizer nem mesmo que sei ao certo o que o rock significa, o que ele foi pros anos 50, pros 60 e assim vai. Ouço rock porque meu pai ouvia e dependendo da banda me dói os ouvidos, me estressa. Não engulo música clássica, também. Quando fazia aula de piano era pensando em tocar Vanessa Carlton ou Mandy Moore assim que chegasse em casa, longe dos ouvidos sensíveis da minha professora. Bach e Chiquinha Gonzaga sempre foram interesses dos meus pais, eu creio.

Sabe quando eu disse que queria conhecer a Europa por adorar museus e programas considerados chatos pelas adolescentes normais? Não menti, não. Mas acho que a sensação gostosa que imaginei se devia na verdade ao fato de eu querer gostar de museus, de achar excitante – céus, o prefixo pseudo – ler um livro maluco sentada em frente a uma catedral histórica. Gosto mesmo da idéia de acordar sozinha num lugar bonito, cara, mas isso eu posso fazer no Rio de Janeiro ano que vem, imagino eu. A Europa pra mim era tipo virar a bruxinha Sabrina na Itália ou viver uma história maluca como a de Vicky Cristina Barcelona. Do Woody Allen eu gosto, disso ao menos eu sei. Do campo de centeio do Salinger também.

Mantendo o tom mais pragmático, nada habitual, acho que eu só queria mesmo era ser alguma coisa. Ser algo além dessa cabecinha ao mesmo tempo tão decidida e tão submissa e influenciável. Vulnerável, e muito. Talvez eu até seja alguma coisa, mas não creio ter achado o que isso significa. Não ainda. Sei lá, cansei também da falsidade bonitinha de encontrar frases de impacto toda vez que termino um texto de blog.

Escrito em 27 de janeiro de 2009.

depois de tanto tempo, dois textos num só dia.

14 comentários:

Lorena Weasley* disse...

Não há nada mais clichê que eu pudesse dizer, e também nada mais verdadeiro: Quando descobrir uma forma de saber quem você realmente é, uma forma genérica pra se rotular, por favor, me avise. Sempre queremos ser algo para alguém e fingi que somos algo para nós mesmos... mas a verdade é que não somos "merda nenhuma". Somos um pouco da "merda toda". Em cada momento nos encaixamos em uma classificação diferente, dependendo das circunstâncias. Eu no momento sou a menina chata e mimada que não quer cumprir com suas obrigações... mas isso é culpa dos analgésicos. A partir de semana que vem, com a proximidade das provas serei a Hermione Granger obcecada em ser melhor que os outros em cada matéria, e sentindo seu orgulho ser ferido a cada vez que o colega do lado demonstrar saber mais...


Mas que saco, eu venho aqui falar de você e sempre acabo falando de mim! Acho que é inevitável quando você produz um texto tão íntimo, que a gente acabe se identificando e se colocando no lugar...

Igor Silva disse...

Oi Isa
Vou ser sincero com você: achei seu texto bem deprimente. E por incrível que pareça, me identifiquei profundamente com ele.
Creio que quando os filósofos gregos formularam as perguntas que são os pilares de uma mente questionadora e filosófica (quem somos? para onde vamos? de onde viemos? -- não necessariamente nessa ordem :) ) criaram também um dilema moral que é vivenciado por muitos de nós jovens.
Com essa indústria do capitalismo, com essa globalização desenfreada, muitas vezes o TER é mais importante que o SER. Assim, grande parte dos jovens se vê no espelho e não consegue se identificar: é um produto de uma sociedade que quer padronizar o que não é padronizável.
Eu posso me tomar como exemplo: tentar ser quem eu não sou só pra agradar ao escritor de uma notinha de tablóide daqui ou ali é um SACO!
Mas você é especial: você tem um DOM! O DOM de tranformar sentimentos em palavras, o dom de fazer da mais insignificante sílabas, um texto inspirado pelos deuses.
é por isso que você não deve procurar o significado da vida: você deve vivê-la (acredite, pra quem esteve a beira da morte, esse é um ensinamento valioso). Eu sei que falar é fácil, mas é a minha opinião né...
Acho que jamais falei com você isso, mas considero você como uma amiga, uma das que me deu forças quando u mais precisei. Por isso, me preocupo com vc...
Talvez o "quem somos" da frase que citei jamais seja compreendido por nós, mas uma vida plena vale mais que conhecer nossa própria essência.
Um beijo
Igor

Boo disse...

Tenho essa sensação, às vezes.
Não me reconheço no que eu faço, esqueço quem eu sou. Na verdade, não sei direito quem sou.
Mas, com certeza, não me canso de descobrir e me impressionar com a grandeza e simplicidade de cada dia.
Acho que é isso que me impulsiona e me consola.

Henrique Salvaro disse...

Vazio existencial.. I've been there.

F. De Leon disse...

meu deus, melhor texto teu que eu já lí aqui.
CARA. MELHOR MELHOR!

.teka disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
.teka disse...

Nossa, Isa, eu te juro que você tem a habilidade de escrever tudo que eu gostaria de dizer e não consigo. o.o
Acho que todo mundo tem essa vontade de ser alguma coisa por achar que não é coisa nenhuma. Mas acho que o "nada" que somos é o que nos torna tudo.
Ótimo texto! Adorei!

Gabyh Banki disse...

garota, certamente você é alguma coisa. e que coisa. saiba bem disso. e todo esse jeito de admitir o que segue, pensa, diz e faz, já te faz diferente de muitos. não tente mudar ou se entender. não precisa.
beijos ;*

F. Reoli disse...

Porra, se não deu com Beatles vamos de Fred McDowell, nem nossos sentidos conseguem ser tão pra baixo que um velho som do Mississipi. E querendo ou não, somos sempre alguma coisa mais do que merda, aliás somos os criadores dela o que nos eleva um nivel acima. De toda forma gostei da maneira que escreve. Beijo.

beatriz althoff disse...

A falta de palavras nada mais é do que o excesso de palavras.
Só não esquece da reciprocidade coco,por favor.

Carolina Pires. disse...

mudei de blog, mudei de blog, mudei de blog!

beijo beijo

Fe disse...

te amo e sou tua fa. pelo tudo q tu es e principalmente pelo teu sorriso numa segunda de manha...

beatriz jorge disse...

chorei lendo o teu blog hoje...... logo eu que sempre tive um pseudo-orgulho ridiculo de ser sempre super fria e nunca derramar lagrimas por nada, mas acho que ultimamente eu to cansada de ser durona. ou então voce é muito boa mesmo ahhaaha. acho que no nosso caso são as duas coisas.,.... É isinha, só quero que tu saiba que pra mim é uma puta enorme duma responsabilidade dividir o palco contigo e que eu te admiro muito mesmo,,, é mais que uma alegria, é uma honra saber que estaremos juntas la em cima, compartilhando um sonho ou sei la.. sao 3 da manhã de um sabado, isso nao era exatamente o que eu deveria estar fazendo mas senti muita necessidade de fazer com que tu saiba o quanto isso ta sendo importante pra mim.. e nao me preocupei em usar um linguajar muito refinado afinal... se vc nao é merda nenhuma quem sou eu pra ser alguma coisa? um beijinho e um abraço apertado que eu farei questao de dar na terça feira, e desculpa pela rasgação de seda excessiva blalbablabal é a gente se adora eu sei... aahahahahaha fofa! kisses

barbara lopp disse...

nao ha sentido, nao ha. aceite e conviva com o fato de que voce nao passa de um animal de duas pernas. e que a vida é uma enchecao de linguica.