domingo, 28 de junho de 2009

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não vou mais te deixar explodir em mim assim. quando você me cobre inteira com essa urgência em ser dois em um, a amargura forjada escorrendo dos seus olhos escuros pra desaguar no mar da minha fraqueza ignorada, arde em mim o medo impertinente de jamais conseguir expulsar sua lembrança de vez. e eu quero, sabe? antes fingia querer, envolta na seda macia da esperança, bonita que só. mas puxou fio, rasgou. só espero hoje de você a feiúra de alma a qual tentei moldar, sonhadora. e nem sentada eu fico pra isso. meu sedentarismo inato inexiste quando a vida e você tentam me segurar sem razão. passo a ser capaz de correr. quem sabe até voar.


contos de junho - número 11

quarta-feira, 17 de junho de 2009

A roda

E se é pra falar de pessoas horríves, então falemos. Se é pra citar a insensibilidade e a habilidade pra machucar, dissimular e manipular, então citemos. Façamos comparações. Vamos colocar todo mundo na roda, todos os erros, todas as dores, todas as traições e intrigas. Vamos reunir o grupo imenso de pessoas que já entrelaçaram suas vidas e misturar tudo. Mexer na mistura como se fosse um caldeirão interminável de coisas iguais, as quais tornam-se homogêneas assim que jogadas num recipiente qualquer.

A diferença não reside nos fatos. O que torna alguém digno de raiva eterna ou absolvição imediada não são as atitudes, as merdas que todos fazemos, as demonstrações diárias de inconseqüência e descaso. O que muda tudo vem mais do fundo.

Errar é ponto indiscutível, quase obrigatório. Cometer deslizes, fazer besteira e agir como um bicho repugnante são coisas que não escapam à existência de ninguém. Só que, se você não sabe, as pessoas têm índoles diferentes. Condutas, corações, consciências. Essências.

Todo mundo mente, todo mundo trai, todo mundo ri da cara de alguém que não merecia. Todo mundo cospe no mundo um dia e pisoteia a cabeça de alguém. Sem querer, por querer, com álcool no sangue, com um escapulário católico no pescoço ou uma tatuagem anti-cristã. O mundo tá cheio de lama, eu bem sei. E as pessoas são pessoas justamente por toda essa sujeira que é a condição humana. Somos gente, a cada dia mais.

Mas existe o depois. O pós-erro, o pós-merda, o pós-momento de pensar quesefodaomundoeusóqueromedarbemaomenosumavezinha. Existe o arrependimento, o sentir-se imundo, o chorar de raiva de si mesmo. Existe essa coisa chamada consciência e aquela outra coisinha chamada coração, que despertam aquilo que somos de verdade e nos fazem perceber o quanto fomos estúpidos.

Se é pra falar de pessoas horríveis, então falemos. Podem comparar toda a minha lista de erros irreparáveis, faltas sem remédio e traições amargas. Peguem todos os fatos e estampem em bandeiras, jornais, outdoors. Transmitam via satélite pra que todos possam ver. Mas não se esqueçam do depois. Não deixem pra trás a outra lista - essa que eu carrego sempre, meio amassada, meio molhada por lágrimas, de tristeza ou felicidade, esmagadinha no fundo do bolso batido. Não passem reto pela multidão de linhas que a compõem, preenchidas por uma alma cansada, imperfeita e covarde.

De vocês, juízes incorruptíveis - se é que o são -, só peço isso. E aí vocês podem dizer, pelos quatro cantos do mundo e onde mais quiserem, que eu já fui uma vaca, que eu já fui uma bêbada, que eu já fui uma péssima amiga, que eu já menti pros meus pais ou até matei alguém de tristeza. Podem falar a vontade dos meus erros e homicídios existenciais. Mas vão saber que, no fundo, sendo um exemplo terrível de garota de quasedezesseteanos ou não, sendo a filha perfeita ou não, constituindo parte do grupo de adolescentes prodígio ou ingressando pouco a pouco no dos que ninguém quer pro futuro do país e do mundo; vão saber que humanidade eu ainda tenho. Corroída, carcomida, rota e frágil, eu sei - mas ainda assim é uma alma e uma alma, sim, humana. A dor rasgante no peito diante do erro e a busca incansável pela fé no mundo e no amor, mesmo quando tudo parece não passar de injustiça e mentiras, são a diferença que realmente importa.

Roteiros, cenários, personagens e preços - é tudo igual ao seu mundo na minha vida, não nego. Mas posso jurar que meus bastidores se salvam. Enquanto você quer ser campeã de bilheteria a qualquer custo, eu só almejo tocar o universo inteiro de alguma forma. Peco no clichê, infeliz escolha. E entro na roda.