domingo, 24 de maio de 2009

Contos de Verão - Deveria, mas não dói

Pensar em você já não é tarefa de poucas horas. Sua voz sussurrando meu nome surge em meu ouvido a cada amanhecer, em cada devaneio de madrugada fria, por cada tarde infrutífera em que me permito acordar do torpor no qual me encontro desde a sua ausência. Ouvir você dizendo todas aquelas coisas duras foi a única coisa, amor, que me impediu de verbalizar a imensidão de palavras emboladas na minha garganta até agora. A única coisa que me fez engolir as lágrimas e sorrir do jeito irônico que você sempre odiou, andando sem pressa pelo lugar escuro, sem olhar nos seus olhos uma última vez.


Quando na luz das velas você disse jamais me ter amado, meu bem, senti todo aquele clichê antigo dos filmes em preto e branco acontecer de uma só vez. O chão sumindo sob meus pés, o ar mais denso repentinamente, a frieza quase palpável dos seus olhos insensíveis, congelando meu corpo sem dó. Tudo o que eu jamais imaginei possível antes fez-se concreto com rapidez desigual. Porque eu nunca soube ser realista o suficiente pra enxergar o que você realmente era.



Mas agora que eu acendi as luzes de verdade, agora que enxerguei seu rosto pela primeira vez desde aquela noite estúpida, percebi que eu preciso de toda essa sua indiferença. Por maior que seja a dor percorrendo minha pele machucada enquanto você está aqui, ter seus braços envolvendo minha cintura é quase tudo de que eu preciso pra gargalhar com graça. Mesmo quando você arranha o silêncio com suas incontáveis covardias, minhas palavras de conta-gotas em resposta formam o contraste de que eu necessito pra sobreviver. Toda a minha segurança se esvai, enquanto surge, inexplicável, a vulnerabilidade que eu evitei por tantos anos, a submissão calada da mulher que eu nunca fui. Deveria, mas não dói.


- dos rascunhos de 23 de fevereiro de 2009

domingo, 10 de maio de 2009

A gente

Ela diz (23:08):
a minha vontade de ir embora ta sendo cada vez maior
Ela diz (23:09):
não quero saber se as coisas vão ou não comigo, eu só quero mudar de casa por um dia que seja.
Isa diz (23:10):
sei lá, eu to querendo mudar de casa no sentido de minha casa, minha carcaça, meu corpo, minha casa eu, meu eu casa, saca?
Isa diz (23:11):
sei lá, sei lá mesmo, cansei de sonhar com o improvável e sorrir pro impossível
Isa diz (23:11):
cansei de olhar pra ele e querer tanto, tanto, tanto correr até lá
Isa diz (23:11):
de olhar pras pessoas e me sentir um robozinho automatizado cheio de trejeitos escondidos e manias secretas
Isa diz (23:12):
sei lá, o meu lado plastificado tomou conta de tanta coisa, que eu to nadando em plástico, pacotes de presente, lacinhos de fita, e não sei onde ta o recheio disso tudo
Isa diz (23:12):
e to pensando de verdade em tentar ser um pouco mais feliz me agarrando nas coisinhas minúsculas que me fazem um pouco mais feliz.
Isa diz (23:12):
sei lá, não pode ser tão difícil, pode?
Isa diz (23:13):
sorrir pra vida e agüentar firme de um jeito que não mate
Isa diz (23:13):
não pode ser tão impossível pra mim, pode?
Isa diz (23:13):
só esperar e ter paciência e aguentar as ligações de amigas contando sobre a noite espetacular com o namorado
Isa diz (23:13):
não pode ser tão difícil ler um livro, estudar bastante, dançar um pouco e sorrir pra demora. não pode.
Isa diz (23:14):
não é impossível, eu sei que não é. não é impossível transformar o cansaço num impulso quase morto, mas real, de ser a gente por mais um tempo e engolir o fato de ninguém sequer olhar, passar o olho. não pode ser.
Ela diz (23:14):
ah, o que pode cansar mais do que ser mais forçado ainda?
Isa diz (23:15):
eu já disse e repito: não me entrego, não me entrego, NÃO ME ENTREGO.
Isa diz (23:15):
não me entrego pra esse poço negro que se disfarça de vida e me faz querer morrer
Isa diz (23:15):
não me entrego porque eu ainda me tenho, sabe? ainda me tenho e tenho minha cama, meus livros, meu sorriso que sabe ser bonito quando eu deixo ser
Isa diz (23:15):
eu não me entrego, cara. eu aprendi que não posso, que não vou, que não.
Isa diz (23:16):
eu vou aprender a andar sozinha até que alguém apareça
Isa diz (23:16):
e se não aparecer nunca, eu vou correr sozinha, vou voar sozinha
Isa diz (23:16):
sei lá, não pode ser impossível. em algum lugar eu chego, só não posso parar.
Ela diz (23:17):
guarda isso pra ti então
Ela diz (23:17):
guarda essa coisinha, esse impulso de vida.
Ela diz (23:17):
guarda em lugar inatingível por favor.
Isa diz (23:17):
eu não quero guardar, eu quero dividir! quero partir ao meio e estender um pedaço!
Isa diz (23:17):
pega... sente?
Isa diz (23:17):
dá pra pegar
Isa diz (23:17):
não é palpável mas dá pra pegar
Isa diz (23:17):
tem prazo de validade, mas dá pra arranjar outros
Isa diz (23:17):
é natural, não precisa comprar
Isa diz (23:18):
qualquer jardim fornece, eu juro!
Isa diz (23:18):
tem o bonito ainda, sabe? tem, em algum lugar tem! mas a gente tem que se esforçar pra ver
Isa diz (23:18):
a gente acostumou a ser míope pra essas coisas, mas a lente é o esforço, não tem óculos pra isso
Ela diz (23:18):
acho que me taparam os buracos
Ela diz (23:19):
alguns
Ela diz (23:19):
sobraram outros
Ela diz (23:19):
eu prometo que eu pego.
Isa diz (23:19):
dá pra ser a gente sem ser a gente e mais um. dá pra ser só a gente, sabe? não pra sempre, mas dá
Isa diz (23:19):
a gente agüenta
Isa diz (23:20):
a gente é grande sozinha, a gente agüenta. a gente agüenta por Deus, a gente agüenta. por Ele, sabe? porque Ele existe e quer que a gente agüente, então a gente agüenta.
Ela diz (23:21):
e se ngm gosta desse eu?
Ela diz (23:21):
eu tenho tanto pavor disso tudo
Ela diz (23:21):
de me entregar como eu sou
Isa diz (23:21):
é que esse eu precisa ser gostado pela gente, precisa ser acariciado pela gente, muito, muito
Ela diz (23:21):
e ficar cada vez mais distante do mundo real
Isa diz (23:21):
é que o mundo real não é o mundo real
Isa diz (23:22):
o mundo real dos outros é o que eles inventam, a sociedade, a tv, as plaquinhas na rua
Isa diz (23:22):
o mundo real é a graminha, a formiga, o bêbado amanhecido na calçada
Isa diz (23:22):
e ele é tão feio e tão bonito, que a gente pode escolher tipo catálogo o que quer ver no dia que amanhece
Isa diz (23:23):
e a gente é tanta coisa, já viu? já notou?
Isa diz (23:23):
a gente sabe ser tanta coisa que até pode se escolher num catálogo também
Isa diz (23:23):
dá pra ser o sorriso quando o dia amanhece azulado e de sol, pra ouvir música boa depois da aula e beber um suco com copo de plástico, no canudinho mordido
Isa diz (23:24):
e dá pra ser a cara fechada, misteriosa, que desperta curiosidade mesmo que seja em ninguém, naquele dia de chuva, de ler um livro maluco na escada do colégio entre uma apostila e outra
Isa diz (23:25):
inventar roteiros é tipo um saquinho de oxigênio, sabe? a gente tem pouco, eu sei. o nosso é pequeno, eu sei. tamanho médio é milagre. grande? inexistente. eu sei, sabe? eu sei que tu sabes também. mas é que ainda tem oxigênio ali, só que a gente tem um pouquinho de azar
Isa diz (23:25):
a gente só pode respirar um pouquinho por vez
Isa diz (23:25):
aí vem aquela parte de escolher entre ficar sem ar ou aprender a segurar um pouco mais o pouquinho que tem
Isa diz (23:26):
é que a gente solta tudo de uma vez, sabe? a gente não tem cautela e acaba murchando rapidinho... mas dá pra inchar bastante e comer pipoca vendo um filme
Isa diz (23:26):
dá pra agüentar firme de nariz tampado e morder uma maçã de quarta-feira
Ela diz (23:27):
e eu n quero terminar dizendo que minha mãe acabou de vir aqui dizendo pra eu sair.
Ela diz (23:27):
mas como o todo que a gnt sabe...
Ela diz (23:28):
ah foi bom e muito bom ouvir isso.
Ela diz (23:28):
seja pra dormir menos pesada ou um mais leve.
Ela diz (23:28):
no fundo tem diferença.
Isa diz (23:28):
no fundo tudo tem diferença. azul não é o mesmo que azul.
Isa diz (23:29):
eu vou pra cama agora também. pega isso aí, ok? pega com força e coloca debaixo do travesseiro. a nossa poesia é bonita. que seja só pra gente, mas ela é bonita. mórbida às vezes, mas bonita quase sempre. quase sempre e às vezes tem diferença também. e eu quase sempre sei que a gente às vezes sobrevive. ou o contrário.
Isa diz (23:29):
beijo na orelha!
Ela diz (23:30):
me fazes rir por dentro.
Ela diz (23:30):
ou ao contrário.
Ela diz (23:30):
te amo te amo com o tamanho da nossa intensidade junta!
Ela diz (23:31):
beijo no coração!
Isa diz (23:31):
te amo com o tamanho dos eu te amos não ditos no mundo inteiro, que a gente sabe ser imenso! beijo,


"eu protegi teu nome por amor... em um codinome beija-flor!"