segunda-feira, 20 de abril de 2009

Crise de escritora de gaveta





Abri a porta do prédio sem realmente reparar na ausência de um porteiro noturno. Girei a chave ao entrar, repassando anotações inúteis na cabeça, em silêncio. O sensor da iluminação no corredor me pegou de guarda baixa, obrigando-me a encarar meu próprio rosto no espelho ao lado do elevador. Entrei com pressa e apertei o primeiro andar.




As luzes da sala estavam acesas. Um monstrinho cansado digitava alguma coisa no computador do meu pai: minha mãe, de nariz operado, parecendo o Fofão. Ótimo.




- Bom o cinema?


- Aham.


- Que filme assistiram?




Bati a porta do quarto sem pestanejar, impaciente. Conversas pós-filminho-romântico-no-cinema-com-um-casal-feliz-sentado-logo-ao-lado não eram minhas preferidas. E ela não viria até meu quarto depois disso - me conhecia há quase dezessete anos e sabia a hora de me deixar sozinha. Ou talvez ela só tivesse adquirido algum medo da minha reação no caso de uma segunda tentativa. Eu já dera motivos pra isso.




Encontrei, no fundo da gaveta, a calça de pijama velha e breguinha que sempre foi minha preferida. Amarrando os cabelos limpos num rabo desajeitado, daquele jeito que sempre me fez sentir personagem de algum filme piegas e bem-editado, cheguei à cozinha.




Inflamação na garganta, vento frio lá fora, um filme deprimente e o Fofão na sala. Guaraná? Ice Tea? Suco de melancia? Nada gelado. Um chá quentinho era a imagem de mocinha que eu sempre pintara, desde criança. Baunilha, capim cidreira, hortelã... Erva-doce. O clássico docinho nas noites mal dormidas da vida. Vacilei por um segundo, mãos no botão preto do microondas, girando o corpo pra visualizar o fogão: chaleira, luva de forno, rabo-de-cavalo surrado. Esquentar a água teria outra emoção quando a fumacinha transparente acompanhasse o chiado épico da coisa fervendo. E assim o fiz, calculando o tempo disponível pra trocar os lençóis e chamar o sono pra deitar.




Os cookies comprados na saída do cinema tinham o gosto errado: eram definitivamente castanhas no meio da massa integral, mas eu queria de caju, não do pará. Primeira cena estragada do filme que eu pretendia patentear. Ou seria um clímax original, seguido da reflexão forçada da mocinha acerca de ter escolhido os sabores errados em tudo na vida e, mesmo assim, acabar comendo o saco inteirinho, conformada?




Então o Fofão adentrou o quarto, expressão acesa. Até que fazia parte do script a surpresa nem tão surpreendente assim. Nas mãos o laptop empoeirado em cima do qual quase cochilava quando cheguei, disse ter lembrado de mim ao assistir algo recebido por e-mail. Ela ignorou o chá, os biscoitos e o fato de eu já estar digitando freneticamente no meu próprio computador. Pra completar, deitada. E usando a calça velha de guerra dos dias em que meu mundo alternativo me sugava, carente de mim. Sequer sorri amarelo.




- É comprido?


- Não, mas é lindo.




A música de fundo, como suspeitei pela introdução, era alguma coisa patética que eu cantara no primeiro colegial, naquela maldita peça escrita por mim. Naquela maldita peça que não ganhou prêmio algum, da qual eu me orgulhava até que o microfone falhou na frase final da canção. Anotei mentalmente: mães costumam se orgulhar das nossas piores falhas.




O primeiro slide reluziu: um fundo preto coberto por uma espécie de fita verde-limão espalhando-se e enrolando-se pela tela. Frases prontas de alguém cuja única tarefa na vida era tirar lições bonitinhas de toda merda que lhe acometesse: "não há vida decente sem amor". Essa grudou na cabeça. Mesmo sem um personagem infantil fantasiado de mãe por perto, fui capaz de sorrir amarelo prá minha própria imbecilidade infeliz. Era a típica noite cujo caminho se bifurcava em dois:




1) Eu desistiria em seguida. Fecharia o laptop engordurado e puxaria o travesseiro pra baixo, levantando pra escovar os dentes, apagar a luz e ouvir 15 minutos de Mandy Moore no meu Ipod quinta geração com fone quase estourado. E pegaria no sono, com uma manhã magnífica a me esperar, sem surtos psicóticos que me lembravam sempre do quanto eu sentia falta da minha psicóloga. Porque eu posso ser normal, sabe? Era só escovar os dentes e apagar a luz.




2) A opção mais frequente no passado e da qual eu vinha fugindo com fervor nos últimos tempos: eu cederia à melancolia forçada e clichê dos meus dias vazios. Acomodaria o computador superaquecido nas pernas cansadas, bebericando meu chá pouco saudável com mil colheres inconsequentes de açúcar e abrindo a caixa de texto branca do meu blog abandonado.


E escreveria. Escreveria até que os dedos endurecessem, até que a lua fraquejasse e a poesia inata dos meus dezesseis anos e alguns meses se tornasse insuficiente pra expelir do meu corpo pouco desenvolvido todo o sentir louco que era minha vida. Até que os pronomes possessivos me irritassem o suficiente pra eu conseguir mais alguns milímetros de arte literária. Arte essa na qual eu confiaria com a mesma convicção com que me olhava no espelho - convicção zero.




Menos dramática do que o esperado, aqui estou eu. O ronco distante e nada feminino da minha mãe operada soa forte por detrás das paredes limpinhas e meus olhos já se enchem daquele aviso incansável de você-precisa-dormir-oito-horas-no-mínimo. Eu sentei e escrevi e me vejo repetindo o ato por anos à fio. Quem sabe eu venha a me tornar, um dia, uma daquelas velhinhas solitárias e tristes em apartamentos luxuosos de algum lugar da Europa. Aquelas que acariciam um gato persa com as mãos lotadas de pedras preciosas, lamentando a vida que não tiverem e tentando livrar-se de seu fracasso íntimo gradativamente, através do cigarro mentolado na outra mão. Não é bem um fim à altura dos filmes americanos que tanto entorpecem, mas é um fim.




Crise de escritora de gaveta é assim: a gente assiste a uma comédia romântica, transforma o dia em humor negro, remonta os medos em uma crônica mal estruturada e escreve sobre um monte de coisas ridículas que não parecem permear a mente de mais ninguém. E vai dormir se sentindo sábia, imponente. Quase uma Audrey Hepburn com capacidade literária de Clarice Lispector. É um sarro.