segunda-feira, 9 de março de 2009

Contos de qualquer estação - Não dessa vez


Agora que atirei as garrafas vazias na parede branca, enquanto olho pros resquícios da porcelana cara que sua mãe nos deu no início de tudo, formando desenhos sobre o carpet surrado, sinto vontade de chorar. Não o choro pesado e árduo de quem clama por paz, em desespero; não aquela lágrima amarga que derramei quando você disse adeus. Meu pranto hoje é seco, não faz bico, não se gaba de um drama teatral perfeito. É o pranto de quem anda sempre em frente, mas deixa muito pra trás. De alguém que passa por cima do que sente, do que é e do que sabe, só pra livrar-se da imensidão descomunal e sórdida desse hoje banhado em caos.

E eu, enaltecendo minha própria essência, desse jeito falso como consigo fazer-me grande fora das paredes escuras do meu quarto, levanto desse mar de melancolias na tentativa de tornar tácita a aspereza óbvia em minha garganta engasgada. Tento digerir à força toda massa indigesta de inconformidades, cada pedaço facilmente defectível de você que restou no meu estômago fraco. Não vou vomitá-lo pra repetir a dose, amor. Não dessa vez. Meu sistema imunológico, a partir de agora, tratará de repelir uma por uma de suas mil justificativas evasivas pra ser o que é. Meu corpo agora o rejeita.

Esperava que você soubesse que, uma vez tendo ido embora, seu lugar na cama já pertence a outro. E antes que recomece, já peço que cale: gritar pornografias não fará de você novamente digno da pouca honra que derrubou na soleira da porta, ao partir. Ficou meio tarde pra crescer agora. E eu não vou dizer que sinto. Não dessa vez.

Não perca a hora, portanto. Já fechei as janelas e não ouço mais seus gritos da calçada; sua voz soa perdida por entre o barulho incessante da rua. Não pense ser capaz de compensar os anos de silêncio com meia dúzia de encômios distribuídos porcamente. Sua pseudo-ingenuidade me cansa, meu bem, e o pesar de outrora agora não passa de cansaço sereno.

Eu poderia ter caído sem você, como sempre fiz. Você diria que é de meu feitio perdoar por auto-piedade, deixar tudo pra trás na ilusão infrutífera de estar segura. Mas não vou fazê-lo, amor, pra morrer mais seis vezes e acabar em pó. Não cometerei o mesmo equívoco enfadonho de toda uma vida. Não dessa vez.

2 comentários:

beatriz disse...

Derramou e no instânte tem um vazio gigante de pesos e lembranças.Que aquelae pouco(ironicamente pouco) que fica ali,é o suficiente pra derramar tudo de novo,todos os dias.Eu sei.Não teria expressão melhor,além do sorriso esgaçado com forças de hoje,(...)fora das paredes escuras do meu quarto.Aconchego não existe,não dessa vez.

F. De Leon disse...

"Em cada poça dessa rua, voce vai me ver, em cada gota dessa chuva, voce vai sentir minhas lagrimas...
Em cada dia da sua vida voce vai chorar, lagrimas sofridas que não vao somar 1 décimo do que eu sofri... do quanto eu sofri!"