domingo, 29 de março de 2009

Escrever pra mim


É que quando se escreve pra alguém, as palavras soam forçadas. Mas quando algo sai de dentro, do silêncio mais profundo proveniente do meu íntimo mais desconhecido, não intenciona atingir quem quer que seja. E é por isso que eu, sentada diante dessa imensidão colorida e indecifrável, segurando com força o lápis carcomido pela intensidade do meu sistema nervoso inquieto, escrevo agora com a alma e não o faço pra você. Nem pra ninguém.

Nos momentos em que me sinto assim, inclinada a falar verdades duras pra uma humanidade que jamais há de me ouvir, as coisas fluem de um jeito meio assustador. Nos instantes em que o mundo me permite pensar a respeito das pessoas e dele próprio, enquanto escuto as vozes baixinhas sussurrando coisas indiscutíveis nos ouvidos do meu coração, sinto-me repleta de um orgulho sem fim.

Lembra quando eu disse que caráter não se compra? Quando eu falei, naquela tarde, que humildade é uma coisa difícil de construir, meio aleatória, meio inata? Consegue se lembrar daqueles segundos em que você olhou pra mim e eu disse que a cada retomada desse assunto eu lembrava, com amor, do meu pai?

Eu tenho o meu consolo. Descobrir que as pessoas podem ser, simultaneamente, belíssimas por fora e desprovidas de qualquer beleza por dentro, dói bastante quando a gente não espera. Perceber que a construção milimétrica de um íntimo mais doce, durante quase dezessete anos, pode não ter valor algum pra alguém, faz o peito murchar de cansaço e a dor física é só o começo dos reflexos negativos que isso traz. Mas em seguida, vem a luz. Vêm aquelas pessoas nas quais eu confio, as quais eu amo, as que me fazem sentir maior. As que sabem quem eu sou e não me deixam esquecer o valor que isso tem. É quando as tentativas constantes de ser íntegra e humilde deixam de parecer inúteis. É quando o mundo volta a brilhar e já não parece tão injusto.

Fugir de quem usa máscaras, de quem constrói castelos ao redor de si mesmo pra esconder a própria ruína; fugir da parcela hipócrita constituída por aqueles que pregam verdades as quais jamais seguiram; correr pra longe de tudo o que exala falsidade e desamor, enfim, nem sempre é possível na vida real. E é por isso que eu me apoio com força no grafite quebradiço desse lápis envelhecido: pra tentar, embora nem sempre com sucesso, rascunhar um mundo mais feliz pra mim.

quarta-feira, 18 de março de 2009

"Eu vivo à espera de inspiração com uma avidez que não dá descanso. Cheguei mesmo à conclusão de que escrever é a coisa que mais desejo no mundo, mesmo mais que amor."

Clarice L.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Contos de qualquer estação - Não dessa vez


Agora que atirei as garrafas vazias na parede branca, enquanto olho pros resquícios da porcelana cara que sua mãe nos deu no início de tudo, formando desenhos sobre o carpet surrado, sinto vontade de chorar. Não o choro pesado e árduo de quem clama por paz, em desespero; não aquela lágrima amarga que derramei quando você disse adeus. Meu pranto hoje é seco, não faz bico, não se gaba de um drama teatral perfeito. É o pranto de quem anda sempre em frente, mas deixa muito pra trás. De alguém que passa por cima do que sente, do que é e do que sabe, só pra livrar-se da imensidão descomunal e sórdida desse hoje banhado em caos.

E eu, enaltecendo minha própria essência, desse jeito falso como consigo fazer-me grande fora das paredes escuras do meu quarto, levanto desse mar de melancolias na tentativa de tornar tácita a aspereza óbvia em minha garganta engasgada. Tento digerir à força toda massa indigesta de inconformidades, cada pedaço facilmente defectível de você que restou no meu estômago fraco. Não vou vomitá-lo pra repetir a dose, amor. Não dessa vez. Meu sistema imunológico, a partir de agora, tratará de repelir uma por uma de suas mil justificativas evasivas pra ser o que é. Meu corpo agora o rejeita.

Esperava que você soubesse que, uma vez tendo ido embora, seu lugar na cama já pertence a outro. E antes que recomece, já peço que cale: gritar pornografias não fará de você novamente digno da pouca honra que derrubou na soleira da porta, ao partir. Ficou meio tarde pra crescer agora. E eu não vou dizer que sinto. Não dessa vez.

Não perca a hora, portanto. Já fechei as janelas e não ouço mais seus gritos da calçada; sua voz soa perdida por entre o barulho incessante da rua. Não pense ser capaz de compensar os anos de silêncio com meia dúzia de encômios distribuídos porcamente. Sua pseudo-ingenuidade me cansa, meu bem, e o pesar de outrora agora não passa de cansaço sereno.

Eu poderia ter caído sem você, como sempre fiz. Você diria que é de meu feitio perdoar por auto-piedade, deixar tudo pra trás na ilusão infrutífera de estar segura. Mas não vou fazê-lo, amor, pra morrer mais seis vezes e acabar em pó. Não cometerei o mesmo equívoco enfadonho de toda uma vida. Não dessa vez.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Contos de qualquer estação - Oitavo

Não é pela tua ausência que meu corpo padece no sofrimento constante. Não me doem as tuas poucas palavras, as lembranças antigas, o presente do aniversário passado esquecido no fundo do armário. O que gera cada suspiro rasgante e duro em mim são os teus silêncios. Teu olhar distante e tão fundo que diz tanto e tão pouco, dessa forma louca como podem surgir interrogações a partir dos olhos de alguém. Tu olhas pra mim e sinto vontade de gritar tanta coisa, tantos pensamentos insanos e puídos, carcomidos pelas vontades reprimidas e sentimentos guardados debaixo do travesseiro. Eu, no entanto, silencio do primeiro ao último segundo, sem conseguir entender como contrastes tão absurdos podem pertencer ao bater de um só coração.

Tento muito, mas não sei ser parte desse teu mistério existencial. Divido-me em mil tentando decifrar teus raros sorrisos, buscando uma forma de compreender teus passos e decifrar teu jeito de olhar pra mim. Não sei nem mesmo se já fostes capaz de enxergar através dos meus olhos nesses tantos anos, já que tuas reações ao que eu digo ou faço só sabem calar.


Nunca gostei de pessoas óbvias e talvez seja essa a razão do meu querer. Tua facilidade em esconder todo o teu interior me fascina, amor, e já não suporto evitar a vontade diária de dar vazão a tudo o que me fazes sentir. Ter de suportar o peso da tua presença é quase o oitavo pecado capital, mesmo pra mim que nunca dei atenção aos outros sete.


Não peço a verdade por trás dos teus segredos, não peço amor, não peço paz. Só toca meus lábios mais uma vez e me deixa provar o gosto delirante que é constituir parte de um pedaço indecifrável do mundo. Mesmo que tê-lo segurando minha mão seja mais uma das mentiras de que vivo. Mesmo que teus olhos mintam pra mim, sem dó, outra vez.