segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Contos de verão - You should come back


Penso, na verdade, que você deveria voltar. Quando bateu a porta do apartamento sem olhar pra mim, baby, deixou muitas coisas mal resolvidas pra trás. Um gosto amargo ficou no seu lugar e, se quer mesmo saber, ninguém é importante o suficiente pra deixar esse tipo de coisa em vez de si próprio. Ninguém tem o direito de arruinar a vida de quem quer que seja. Não se substitui um sorriso pela tortura da ausência.


Percebi que era hora de trocar os lençóis, mas não fui capaz de fazê-lo. Seu cheiro impregnado no tecido ainda me entorpece, e você não faz idéia do quanto isso mata aos poucos. Eu disse que jamais choraria por homem algum, se é que você lembra, e não sou de quebrar promessas; mas a lágrima que escorre pra dentro quase me torna uma grande mentira.


Eu joguei fora todos os livros que você me deu. Abri a janela num dia de chuva, a que dá direto no terreno abandonado aqui atrás, onde você queria construir já nem lembro o que, e joguei todos sem sequer observar onde cairiam. Quase todos - guardei um. Aquele do Natal passado, quando você concordou em silêncio ao me ouvir falar do quanto a neve torna as coisas mais nostálgicas. Você sempre foi do tipo que silencia, aliás. Nunca gostei de falar sozinha sobre o que sinto, mas seus olhos falavam tanto que... Não sei. Olhos que recitam poesias são clichês e enojantes, e você sabe que eu sempre odiei ser piegas, sempre temi, mas desde que me deixou você tem sido mudança constante na minha rotina. Sua falta, na verdade.


Eu só penso que você deveria mesmo voltar. Nem que seja pra cobrar os livros antigos e arrancar nossos lençóis da cama, você deveria vir até aqui e bater a porta do lado contrário, ao menos por um segundo. Preciso olhar pro seu rosto e enchergar pela primeira vez o cara insensível que suas costas esconderam naquele bater cruel da porta, há tanto. Quero apagar pra sempre a imagem boa de você que os anos gravaram em mim.


Você precisa voltar. Não traga suas malas, não deixe nada ao partir de novo.
Nada de que eu possa me lembrar mais tarde durante uma embriaguez inevitável. Mas volte, querido, pra que eu o veja mais uma vez emoldurado pelas paredes da sala de estar. E volte sozinho: não quero aqui dentro as mulheres sujas a quem você paga jantares agora. Aproveite pra levar daqui os quadros que você comprou e dos quais eu nunca, nunca gostei, e você no fundo sabe disso. Sorri pra eles por todos aqueles anos porque me lembravam você, brega e com tão poucas cores.


Surpreendo a mim mesma, agora, percebendo o quanto eu já amei esse seu jeito preto e branco tão superficial.

Um comentário:

Lorena Weasley* disse...

"Não se substitui um sorriso pela tortura da ausência."