quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Contos de Verão - Black and white


Olhando pra você eu falo de coisas banais com alguém, algum desses amigos que habitam os cantos seguros do mundo, sem quedas de fé, sem vazios inesperados, e eu digo a ele que você sequer é tão bonito assim, que já não me sinto fraca ao encarar seus olhos, que seu feitiço antigo não funciona mais, e faço isso pra manter-me próxima e ouvir seu silêncio oco ecoando pela sala escura, misturando-se à música lenta e insana que invade meus ouvidos como uma canção de morte, porque eu não tenho seu corpo no meu, porque suas mãos seguram as de outra pessoa e eu choro, choro, choro tanto nesse meu sorriso forçado, talvez ninguém jamais vá chorar como eu faço enquanto sorrio desesperada e atipicamente, pois que você não é mais meu, por estar sozinha aqui agora com esse amigo o qual habita os cantos seguros do mundo, céus, cantos esses que eu não visitei por um dia sequer dessa minha existência conturbada, e você parece estar lá com ele, nos cantos sem queda de fé nem vazios inesperados, e minha fé cai ainda mais fundo e o vazio crava com força descomunal no meu peito, cara, você não era o que eu queria e esperava, mas era meu, só meu, daquele jeito como as pessoas podem ser umas das outras quando fingimos esquecer que somos todos livres, mas você era sim meu, e eu era sua, porque ser de alguém sempre foi a imagem de felicidade que pintaram pra mim, que eu pintei, que a vida pintou, mas você agora silenciava ao lado de outro corpo e a beijava e tocava como me tocou um dia, como se fosse fácil assim apegar e desapegar de alguém, como se um simples beijo não fosse nada mais que o roçar agradável dos lábios de duas pessoas, como se eu não te adorasse, como se você jamais me tivesse adorado mesmo naqueles momentos em preto e branco no meu quarto, quando eu tinha seu corpo no meu, quando você estava aqui segurando minha mão, quando eu não precisava olhar pra você e falar de coisas banais com alguém que ironicamente vive num canto seguro do mundo, cara, porque eu estava vagando pelos cantos mais inseguros e eles pareciam tão inofensivos enquanto eu sentia o calor dos seus dedos frios nos meus.
Inspiração: Caio Fernando Abreu

6 comentários:

Carolina Pires disse...

perfeito como sempre. delicadíssimo, intocável.
Isa, emocionas-me.
;*

Lilian Dalledone disse...

E nada, nada, nada nos faz sentir menos mortas, né...
Dói em mim também. às vezes passa. Às vezes parece que não.

F. De Leon disse...

do caralho!
MESMO!

Mari disse...

linda!
você é das melhores descobertas dessa vida.
coisa bonita essa de daquele jeito que as pessoas são umas das outras... e é né? mesmo quem se é suficiente, precisa de alguém pra "completar".


ainda quero responder com calma aquele seu email... ainda to meio tristinha. depois vai lá no blog, tem texto novo.

beijobeijo
(L)

Carina disse...

Oi, Isadora! Tudo bem? Meu nome é Carina Henzel, sou filha de um casal de amigos dos teus pais. Sou atriz em Porto Alegre e estive com teus pais na Praia do Forte semana passada e disse a eles que entraria em contato contigo através do teu blog, já que não tenho orkut. Fiquei curiosa sobre teus trabalhos e planos! Se tu quiser, me passa teu e-mail. O meu é cacahenzel@hotmail.com Beijos!

Natália disse...

Ja haviam me falado,mas como muitos dizem, "só vendo para crêr".
Isa querida, tens um dom, uma dádiva, tomara que possas levar as tuas palavras aos olhos do mundo, o que só o engrandecerá, torço muito por ti, e pelos teus sonhos, um grande beijo de uma admiradoura e amiga, Natália.