sábado, 28 de fevereiro de 2009

Rascunhos antigos

Um pensamento insistente permeava a mente dela: como era difícil, por Deus, ser quem era. Como era difícil ser mulher, inteira e nua, em frente ao espelho ou esparramada pela cama fria. Que dificuldade angustiante a de ver o próprio rosto endurecer, sentir o corpo mudar e ver a sensibilidade outrora pura tornar-se sutil a cada passo.

Roupas, cheiros, cores e formas. O tempo arrastava a menina pra longe e empurrava-lhe garganta à baixo o que devia florescer sem ser notado. Como sempre em sua vida fora, transitar no próprio ser fazia-se tortura inevitável: arranhava ossos, lábios, sentidos. Cortava-lhe a pele macia sem dó.

E o que chamavam paixão era o melhor remédio - sentir-se, ser, enxergar-se amada. Não o amor dos livros e filmes, sonho antigo. Esse carnal que a vida mostra duro, mas bonito e digno pra quem sabe aceitar. Prazer é também religião, pensava. E era.

Já não queria, porém, dopar-se de amor. Depender de outrém perigava doer. Sob efeito da droga sorrir era fácil - adormecido o corpo, flutuante a alma. Entorpecente finito, no entanto, paixão externa era efêmera que só. E com a lucidez repentina retornava o escuro medo: como era difícil, por Deus, suportar-se. Criança e amor, mulher e vazio - sequer sabia quem queria ser, como seria fácil ser quem era?

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Contos de verão - You should come back


Penso, na verdade, que você deveria voltar. Quando bateu a porta do apartamento sem olhar pra mim, baby, deixou muitas coisas mal resolvidas pra trás. Um gosto amargo ficou no seu lugar e, se quer mesmo saber, ninguém é importante o suficiente pra deixar esse tipo de coisa em vez de si próprio. Ninguém tem o direito de arruinar a vida de quem quer que seja. Não se substitui um sorriso pela tortura da ausência.


Percebi que era hora de trocar os lençóis, mas não fui capaz de fazê-lo. Seu cheiro impregnado no tecido ainda me entorpece, e você não faz idéia do quanto isso mata aos poucos. Eu disse que jamais choraria por homem algum, se é que você lembra, e não sou de quebrar promessas; mas a lágrima que escorre pra dentro quase me torna uma grande mentira.


Eu joguei fora todos os livros que você me deu. Abri a janela num dia de chuva, a que dá direto no terreno abandonado aqui atrás, onde você queria construir já nem lembro o que, e joguei todos sem sequer observar onde cairiam. Quase todos - guardei um. Aquele do Natal passado, quando você concordou em silêncio ao me ouvir falar do quanto a neve torna as coisas mais nostálgicas. Você sempre foi do tipo que silencia, aliás. Nunca gostei de falar sozinha sobre o que sinto, mas seus olhos falavam tanto que... Não sei. Olhos que recitam poesias são clichês e enojantes, e você sabe que eu sempre odiei ser piegas, sempre temi, mas desde que me deixou você tem sido mudança constante na minha rotina. Sua falta, na verdade.


Eu só penso que você deveria mesmo voltar. Nem que seja pra cobrar os livros antigos e arrancar nossos lençóis da cama, você deveria vir até aqui e bater a porta do lado contrário, ao menos por um segundo. Preciso olhar pro seu rosto e enchergar pela primeira vez o cara insensível que suas costas esconderam naquele bater cruel da porta, há tanto. Quero apagar pra sempre a imagem boa de você que os anos gravaram em mim.


Você precisa voltar. Não traga suas malas, não deixe nada ao partir de novo.
Nada de que eu possa me lembrar mais tarde durante uma embriaguez inevitável. Mas volte, querido, pra que eu o veja mais uma vez emoldurado pelas paredes da sala de estar. E volte sozinho: não quero aqui dentro as mulheres sujas a quem você paga jantares agora. Aproveite pra levar daqui os quadros que você comprou e dos quais eu nunca, nunca gostei, e você no fundo sabe disso. Sorri pra eles por todos aqueles anos porque me lembravam você, brega e com tão poucas cores.


Surpreendo a mim mesma, agora, percebendo o quanto eu já amei esse seu jeito preto e branco tão superficial.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Contos de Verão - Black and white


Olhando pra você eu falo de coisas banais com alguém, algum desses amigos que habitam os cantos seguros do mundo, sem quedas de fé, sem vazios inesperados, e eu digo a ele que você sequer é tão bonito assim, que já não me sinto fraca ao encarar seus olhos, que seu feitiço antigo não funciona mais, e faço isso pra manter-me próxima e ouvir seu silêncio oco ecoando pela sala escura, misturando-se à música lenta e insana que invade meus ouvidos como uma canção de morte, porque eu não tenho seu corpo no meu, porque suas mãos seguram as de outra pessoa e eu choro, choro, choro tanto nesse meu sorriso forçado, talvez ninguém jamais vá chorar como eu faço enquanto sorrio desesperada e atipicamente, pois que você não é mais meu, por estar sozinha aqui agora com esse amigo o qual habita os cantos seguros do mundo, céus, cantos esses que eu não visitei por um dia sequer dessa minha existência conturbada, e você parece estar lá com ele, nos cantos sem queda de fé nem vazios inesperados, e minha fé cai ainda mais fundo e o vazio crava com força descomunal no meu peito, cara, você não era o que eu queria e esperava, mas era meu, só meu, daquele jeito como as pessoas podem ser umas das outras quando fingimos esquecer que somos todos livres, mas você era sim meu, e eu era sua, porque ser de alguém sempre foi a imagem de felicidade que pintaram pra mim, que eu pintei, que a vida pintou, mas você agora silenciava ao lado de outro corpo e a beijava e tocava como me tocou um dia, como se fosse fácil assim apegar e desapegar de alguém, como se um simples beijo não fosse nada mais que o roçar agradável dos lábios de duas pessoas, como se eu não te adorasse, como se você jamais me tivesse adorado mesmo naqueles momentos em preto e branco no meu quarto, quando eu tinha seu corpo no meu, quando você estava aqui segurando minha mão, quando eu não precisava olhar pra você e falar de coisas banais com alguém que ironicamente vive num canto seguro do mundo, cara, porque eu estava vagando pelos cantos mais inseguros e eles pareciam tão inofensivos enquanto eu sentia o calor dos seus dedos frios nos meus.
Inspiração: Caio Fernando Abreu