sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Pisar no real


"No meu demente exercício para pisar no real, finjo que não fantasio. E fantasio, fantasio. Até o último momento esperei que você me chamasse pelo telefone. Que você fosse ao aeroporto. Casablanca, última cena."

Ela fechou o livro e sorriu, irônica, para o próprio peito. Outrora pulsante, seu coração parecia fraco o suficiente ao ponto de tornar possível uma morte forjada. Por alguns segundos, perguntou a si mesma o que aconteceria se estendesse o próprio corpo ao chão, fechasse os olhos e segurasse a respiração pelo maior tempo possível. Talvez fosse tão convincente que ela própria sentiria medo do que veria ao despertar.

Observou a capa do livro em silêncio. O nome "Caio Fernando Abreu" naquelas letras garrafais trouxe à tona alguma coisa pouco doce. Uma cópia perfeita do amargo antigo que sentira naqueles tempos de cólera, dor e suspiros cansados. E suspirou, cansada. Queria lembrar-se de tudo com exatidão incontestável.

Não era culpa dele. Se estava agora aos pedaços, sentindo a vida esvair-se como um líquido rejeitado por seu corpo com rapidez, devia isso ao próprio coração errante. Se seus olhos enchiam-se de secura extrema no lugar das lágrimas sensíveis que antes os banhavam, se havia em seus passos incertos um tom mecânico e repetitivo, ao contrário da doçura com que andava ao lado dele, a culpa cabia apenas à ela própria, sabia bem. Ele era só mais um homem mostrando-se pouco disposto a satisfazer suas expectativas de ser ela mesma o tempo todo sem hesitar. Só mais um que não foi capaz de amá-la. Duro, cruel e insensível, sim. Mas inocente.

Levantou-se sem pensar, de súbito, quase como se um despertador interno houvesse tocado naquele instante. Observando a tarde vazia pela varanda do segundo andar, enquanto fitava a grama banhada pelo sol fraquejante, resolveu fechar os olhos e testar a si mesma.

O rosto dele. Seu cabelo, seu nariz, os lábios de uma amargura tão doce. As mãos enormes e delicadas, a altura inconcebível e os braços fortes que tão facilmente a faziam relaxar. Os olhos dele. Aquele olhar penetrante e profundo - descrição clichê, insuficiente. Os olhos que ela evitara no próprio pensamento pelas últimas semanas. E foi então que o medo a invadiu.

Com facilidade, como se recebesse permissão repentina, a sensação de perda percorreu primeiro seus músculos, sem dó, fazendo com que desabasse pesadamente na cadeira frágil atrás de si. E passou aos ossos. Corroendo, carcomendo, perfurando e adentrando um por um, crueldade explícita, a dor de não tê-lo por perto era como veneno de ação retardada. Bebido com fé por sua doçura, transformava-se no mal do qual ignorava sofrer há tanto.

O rosto enterrado nas mãos, ela percebeu: quentes, rolantes e esperadas, as lágrimas as quais sufocavam sua garganta e seu peito agora percorriam um caminho longo pelo seu rosto, seu pescoço e seus cabelos negros. Aqueles cabelos antes esvoaçantes, mas que não eram capazes de se mover um milímetro sequer sem que sua mão estivesse na dele. Perdê-lo era perder-se. Piegas, mas real.

Não sabia definir. Era alívio o que sentia? Poderia a dor cortante ser mais bem-vinda que o torpor imediato no qual entrara quando ele se foi? A vida mecanizada que vivia até aquele momento, apesar de cômoda, seria capaz de trazer mais danos que o poço fundo no qual mergulhava a cada novo segundo?

Decidiu que sim, sim e sim. Embora tomada pelo medo do que viria a seguir, por mais que sentisse cada pedaço de seu corpo sofrer os efeitos da porta trancada há tanto sendo aberta por completo, resolveu aceitar que assim era melhor. Quando se leva uma vida de comodidade forjada se é também capaz de viver na superfície, sim, pelo tempo que for. Mas no momento em que se permite emergir no poço mais profundo, não há pavor ou dor que sobreponha a verdade feita de esperança a qual se estabelece: há paredes? Há escalada.
E o fim do poço ficava acima da superfície. Acima o suficiente pra que ela abrisse suas asas, por mais quebradas que estivessem, e tomasse o impulso necessário pra deixar tudo pra trás. Acima o suficiente pra que seus cabelos pudessem novamente esvoaçar com graça. Suficiente pra que pudesse voar.

4 comentários:

Lorena Weasley* disse...

O conto me pareceu familiar em alguns trechos... como se eu já tivesse lido isso há tempos atrás. Talvez mais precisamente há 6 anos, na pior época da minha vida. Tenho alguns textos escritos particularmente semelhantes a esses.

Não sabes quanto a invejo por poder postar isso em seu blog... tudo o que eu escrevo que considero pessoal demais está guardado em meu armário, dentro de um envelope pardo, grande, rasgando e transbordando. Outra parte (talvez mais da metade) no computador, protegido por um documento com senha. Não consigo publicar essas coisas. Não me sinto à vontade mostrando ao mundo quem eu sou por dentro. Na verdade, não consigo mostrar a quem me conheço. Tenho um amigo de São Paulo que em um dia pôde me conhecer mais do que minha mãe. Por fora sou a pessoa mais segura e forte que conheço. Por dentro sou frágil. Talvez até demais. Não choro na frente das pessoas. Mas meu travesseiro enxuga minhas lágrimas talvez 360 dias por ano.

Lorena Weasley* disse...

Esqueci de dizer que esses dias andei lendo seu blog antigo. Duas coisas a dizer:
1)Você era mais madura que eu aos quinze anos, porém com as mesmas crises que começaram em mim aos dez e persistem até hoje.
2)Os comentários são um espetáculo a parte.


E uma pergunta:
Já leu a série Crepúsculo?
Sua escrita se parece um pouco com a de Meyer

Bacio

beatriz disse...

Acho que vou continuar mantendo meu esquecimento-agora proposital em vir aqui.Eu nunca sei se me deparar com isso faz me senti mais leve ou ainda mais eu.

Felipe De Leon disse...

Hmm.. me li em certas partes, em outras, lembrei de algumas converssas no MSN.