segunda-feira, 23 de novembro de 2009

feliz ano novo (?)

Mais um ano voou e eu mal me dei conta. A vida soa agora como uma surpresa agradável e simples, semelhante àquela brisa leve numa segunda-feira modorrenta qualquer. Observo da janela o dia cinza, quase sombrio, sem que se cale o riso discreto e sóbrio em meus lábios secos de ar-condicionado. A essência das coisas parece mais indecifrável quanto mais o tempo passa.

De vez em quando estremeço, pesada. Dias em que o sol queima por dentro no lugar de dourar a pele e fazer brilhar o olhar. Mas aí vem você. Segura minha mão com força sem sequer perceber. Vem e nem mesmo sabe do efeito entorpecente trazido por sua chegada. Dias onde a chuva, lenta e suave, deságua sobre meus cabelos e encharca o peito sem dó. E o aguaceiro leva embora a dor de chorar sozinha sob a ironia petulante do sol.

Ano novo começa lá dentro, numa data secreta que só a gente sabe. Como se a gente fosse, cada um, um Japão qualquer. O outro lado de algum mundo.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

calor e sorriso

Perdi a conta de quantas vezes sentei em frente a uma folha em branco nos últimos tempos, sem que escrevesse nada. Hoje eu entrei em uma livraria sozinha, costume outrora frequente, e a música nas caixas de som soava lenta como as que sempre me fizeram pulsar. John Mayer, eu creio. Alguma das da lista antiga no velho iPod encardido.

Pra escrever é preciso solidão? Necessário que se tenha apenas a companhia do grafite quebradiço e do papel ainda nu?
Quando a inconstância de uma vida vazia de afeto me era íntima, eu era capaz de rabiscar o mundo diante de qualquer sol a brilhar um pouquinho demais. E agora, desde que tenho em minha mão a de outrém, qualquer fim de música atrapalha a intensidade, essa que hoje só escorre com dificuldade de meus dedos com unhas ineditamente bem-feitas.

Quando o mundo me pede pra escolher entre a amargura de ter inspiração, mas ver a mim mesma como poeira diante da impossibilidade do amor, ou deixar que a poesia se vá pra sentir o abraço dele a espantar o frio do meu peito, o que fazer?

Enquanto houver sorriso, dou adeus ao mundo das palavras mágicas sem pestanejar. Mas um coração aquecido não seria suficiente pra me manter longe disso tudo quando imersa em tristeza e solidão a dois.

Me faz sorrir pra sempre e eu não cobro do mundo o dom arrancado. Não solta da minha mão e felicidade tatua a pele pra não ir embora jamais.

24 de outubro de 2009, às 18h51min de um relógio adiantado.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

merda nenhuma

Andei pensando e percebi que eu meio que não sou merda nenhuma.

É, merda nenhuma. Toda essa coisa de ter um blog, um lugar cheio de textos poéticos e nostálgicos os quais as pessoas lêem e nos quais comentam alguma coisa animadora, um elogio qualquer. Toda essa coisa de ouvir Beatles de vez em quando e ler Dostoievski pra não ser uma completa babaca como todos os outros pareceram ser por tanto tempo aos meus olhos. Isso de assistir a algum filme cult e fingir estar entorpecida quando os créditos começam a subir, mesmo quando não entendo coisa alguma do que acabei de acompanhar. Não falo francês, cara, e sotaque britânico me irrita bastante. O pouco que eu chamo de “meu inglês” é enlatado.


Caí na real e não sou merda nenhuma, mesmo. Não sou o tipo intelectual que tento, há tanto, parecer ser, e também não me encaixo exatamente no perfil pseudo-intelectual, fútil até o último fio de cabelo que tenta ser interessante. Não sou patricinha também, visto que shoppings só servem pra comer e ir ao cinema assistir algo bem Hollywood. Se possível sozinha, pra chorar e engolir um saco inteiro de pipoca gigante num desespero forçado. Sem ninguém pra me fazer sentir culpada.

Emo ou punk não me cabe também. Uso All Star porque, quando comecei a usar, ninguém gostava. Criança acha o máximo ser diferente de todo mundo. Ao menos eu achava. Era coisa de punk, coisa de emo, e eu queria ser só a Isadora - usando All Star. Quando virou modinha, não tirei do pé – adolescente sempre segue modinha, embora não admita nunca. Ao menos eu acho.

Eu sequer gosto muito de rock. Não posso dizer nem mesmo que sei ao certo o que o rock significa, o que ele foi pros anos 50, pros 60 e assim vai. Ouço rock porque meu pai ouvia e dependendo da banda me dói os ouvidos, me estressa. Não engulo música clássica, também. Quando fazia aula de piano era pensando em tocar Vanessa Carlton ou Mandy Moore assim que chegasse em casa, longe dos ouvidos sensíveis da minha professora. Bach e Chiquinha Gonzaga sempre foram interesses dos meus pais, eu creio.

Sabe quando eu disse que queria conhecer a Europa por adorar museus e programas considerados chatos pelas adolescentes normais? Não menti, não. Mas acho que a sensação gostosa que imaginei se devia na verdade ao fato de eu querer gostar de museus, de achar excitante – céus, o prefixo pseudo – ler um livro maluco sentada em frente a uma catedral histórica. Gosto mesmo da idéia de acordar sozinha num lugar bonito, cara, mas isso eu posso fazer no Rio de Janeiro ano que vem, imagino eu. A Europa pra mim era tipo virar a bruxinha Sabrina na Itália ou viver uma história maluca como a de Vicky Cristina Barcelona. Do Woody Allen eu gosto, disso ao menos eu sei. Do campo de centeio do Salinger também.

Mantendo o tom mais pragmático, nada habitual, acho que eu só queria mesmo era ser alguma coisa. Ser algo além dessa cabecinha ao mesmo tempo tão decidida e tão submissa e influenciável. Vulnerável, e muito. Talvez eu até seja alguma coisa, mas não creio ter achado o que isso significa. Não ainda. Sei lá, cansei também da falsidade bonitinha de encontrar frases de impacto toda vez que termino um texto de blog.

Escrito em 27 de janeiro de 2009.

depois de tanto tempo, dois textos num só dia.

tanto tempo

O medo de, outra vez, alcançar o intangível, consome cada parte do meu corpo como uma cobra em fome desesperada. Pois que há o medo construído, e há também aquele que eu não toco. O medo de mim, do mim, em mim. O medo de correr figuradamente pelas estradas eternas do ser pra sempre. O medo inato, puro, oco. Esse temor que consome cada linha das minhas mãos pouco lidas pelas ciganas da vida.

Diria que escrever é meio louco, meio doentio mesmo, se a escrita não fosse tudo aquilo de que sou composta. Dizer tudo isso de si mesmo é como engolir sapos em meio a sorrisos de satisfação e eu não engulo, não degluto. Sou como aquele pássaro livre que só come do melhor alpiste, mal acostumado pelos estranhos generosos de suas ruas mutantes. E eu diria também que parar dói, mas não sei como é esse outro lado, esse lado vazio indizível de não transpor-se em palavras. Conheço bem o vazio, pois sim, mas só esse que sentem alguns, coitados, segundos antes de cair nas cascatas douradas da vida. O vazio intenso e ocre me dói em pensamento e imaginação; esse, por maior que tenha sido a dor, jamais toquei.

É só que escrever tem sido meio louco, meio doentio, mesmo. Tem sido quase a humanidade tácita pela qual peço perdão ao meu próprio olhar, diante do espelho. Essa humanidade que eu renego por vergonha, pudor amargo de viver na roda comum, implorada antes, agora rejeitada por todos os meus poros e suspiros cansados. Eu quis ser parcela do que vocês, homens comuns, sempre constituíram parte. Eu quis ser mais um na rotina embalada em doçura dos dias de paz. Mas o caos é tão mais doce, meu Deus. Minha fuga inconstante do caos fez de mim, cegamente, moça de peito dilacerado e sorriso de alta-costura - falso, mas bem feito. Eu cresci tanto nos meus quase dezessete anos de literatura, caos, doçura forjada e agonia insípida. Eu cresci tanto pra dentro que vomitar é natural. Escrever é natural.



Escrito em 18 de março de 2009.

certas coisas nunca mudam.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Pra ele

Todos os anos, em todas as datas importantes pelas quais a gente passa, eu tenho essa mania de tentar transpor em palavras a infinidade absurda de coisas a serem ditas pra quem eu amo, pra quem me ama. Depois de tantos aniversários, dias dos pais e viradas de ano tentando fazer milagre com as palavras, já não sei por onde começar. Tudo o que eu teria pra te dizer já foi dito e, ao mesmo tempo, vive sempre em mim a sensação de que poderia ter expressado mais, quando a meia noite traz o dia seguinte.


Não preciso te dizer o tamanho do amor e da gratidão que eu tenho por ti. É quase óbvio o fato de termos uma ligação infinitamente maior que a de pai e filha, como se tivéssemos, em outras vidas, feito parte da existência um do outro, como agora ou até de outra maneira – e a gente sabe o quanto isso é possível e provável. Porque além de todas as coisas que tu me ensinaste, quando penso naquelas inatas que sempre compuseram minha essência, sinto a sensação clara de que elas, de alguma forma, também têm a ver contigo e com o fato de seres meu pai.


Quando pequena, papai, eu tinha dos adultos os quais me cercavam a imagem clara de que eram criaturas perfeitas. Enxergava cada tio e cada padrinho e madrinha, bem como a ti e à mamãe, como espécies de super-heróis indefectíveis, todos presentes pra me proteger e impedir que eu passasse por um monte de coisinhas hoje vistas por mim como inevitáveis. A parte da perfeição, obviamente, era um engano infantil. Nem tu nem a mamãe, da mesma forma como a dinda Ângela ou quem quer que tenham sido sempre os meus maiores exemplos, são desprovidos de falhas e erros de percurso, quaisquer que sejam eles. Ser adulto é ser humano também – sei disso como nunca, até por estar crescendo e, cada vez mais, me tornando uma de vocês. Mas o que importa, eu percebi, é a parte da proteção. Nessa eu nunca estive errada.


Sabe aquela coisa toda do papel de pai? Trocar fraldas (com mais nojo que a mamãe, eu sei), fazer aviãozinho com a comida, colocar na garupa pra correr por aí e ensinar a andar de bicicleta? Não sei se sou eu, se é essa minha nostalgia natural que me faz ver as coisas assim, mas a verdade é que cada coisinha passada contigo teve um gostinho diferente das outras. Cada abraço, cada conversa e cada ataque de choro, fossem quais fossem os motivos, fizeram de mim alguém cada vez mais grata por te ter ao meu lado e poder contar contigo de todas as maneiras possíveis. Quando eu digo que tu és meu herói, papai, não falo mais dos poderes infalíveis imaginados na minha infância. Falo da forma como me proteges sem sufocar, do jeitinho único com que me ensinas a encarar a vida de frente sem fazer disso uma aula assustadora sobre violência e um mundo doente. Até porque eu aprendi contigo que esse “mundo doente” está, na verdade, rumando pra uma realidade melhor – e que essa passagem depende de mim também.


Só queria agradecer mais uma vez por tudo o que já fizeste por mim. Agradecer por teres estado por perto nos momentos mais importantes da minha vida, incluindo aí os difíceis e os maravilhosos. Pela história que me contaste quando te falei do meu primeiro beijo, essa que eu pretendo passar aos teus netos um dia. Pelo abraço apertado em cada aniversário, seguido do monte de coisas lindas as quais sempre ouvi de ti e da mamãe nessa data. Pelas palmas fortes quando meu nome apareceu em um livro, pela primeira vez. Pelo assovio orgulhoso ao final de cada apresentação do colégio, das do primário aos teatros do ensino médio. Obrigada por me provar com facilidade que eu não preciso de drogas pra fugir do meu mundo, às vezes – os livros me dão essa chance com muito mais intensidade e saúde. Pela forma engraçada como seguras meu pescoço quando eu ando, essa com a qual já acostumei e sinto falta quando estás longe. Obrigada por teres me dito um dia que eu deveria sempre respeitar quem quer que fosse, o que quer que fosse, onde quer que fosse. Pela noção que hoje eu carrego da importância inigualável que tem a humildade e a compaixão.


Obrigada por teres me provado o que é música boa – eu não tenho funk no meu iPod e isso é mérito teu. Não só por teres me ensinado a escrever “pato”, mas principalmente porque eu sei que, ao fazer isso, acreditavas de alguma maneira que eu escreveria outras coisas um dia, talvez um mundo mais colorido. Por teres lido todas as minhas redações do colégio, fazendo comentários nem sempre só positivos, mas impecavelmente sinceros. Por teres sentado comigo numa tarde qualquer e lido todo o meu blog em busca dos melhores textos, um favor bem chatinho. Por cada favor bem chatinho que eu já te pedi e tu me concedeste sem pestanejar.


Obrigada por seres a minha força. Por toda essa confiança que me passas em cada palavra, cada abraço e cada sermão cuidadoso. Por me ouvires sempre, por considerar os pensamentos de uma adolescente – ou mesmo de uma criança, quando mais nova – na tomada das tuas decisões acerca de um assunto qualquer. Obrigada pela capacidade de escutar até o meu silêncio, coisa que fazes como ninguém. Obrigada por me conhecer de verdade e não me permitir sentir vergonha ou medo do que eu sou, do que eu me tornei. Um muito obrigada por deixar espaço pra que eu falhasse tantas vezes e, mesmo assim, sempre guardar um abraço e um “tudo bem” pra quando o arrependimento e a auto-decepção se manifestassem. Por fazer de mim alguém que, mesmo quando sem coragem ou desprovida de motivação, é capaz de sonhar e acreditar um pouquinho em si.


Eu me orgulho muito de ti, papai. Observei cada passo teu nesses dezessete anos, seja quando eu te via lá do chão, aprendendo a andar, seja agora que eu já posso apoiar o queixo no teu ombro e competir contigo nas cócegas. E sabe o que mais me faz encher o peito pra dizer que tu és meu pai? A forma simples e inexplicável com que olhas a vida nos olhos e dizes pra ela, mesmo tremendo, que não pretendes desistir em nenhum dos pontos críticos do caminho. Eu já te vi chorar, já te vi gargalhar uma tarde inteira, já te observei cantando e tomando chimarrão com os olhos estanhados numa manhã de domingo, ao som de Zé Ramalho. Já pude ver meu pai sofrendo e tomando rasteira da vida e das peças que ela nos prega. Te conheço inteirinho, papai, mesmo nas coisas que tentaste ocultar pra não me preocupar ou encher a cabeça. E continuo dizendo que tua força, mesmo quando te permites cair, é de um tamanho que o mundo nunca viu igual.


Que a vida passe, que a velhice te alcance, que eu vá pra longe ou fique bem pertinho. Que a gente morra de saudades ou sofra as conseqüências de uma convivência cansativa, que falte paciência, que sobre amor. Que eu te magoe e que me magoes também, inevitável. Mas que dentro de mim e de ti, independente de tempestades ou tempos de sol, sobreviva sempre a certeza desse amor atemporal e da nossa cumplicidade quase assustadora.


Não duvida nunca, papai, que o mundo gosta e precisa de ti. Que tudo aquilo que a gente ouve no centro espírita ou mesmo dentro do próprio coração são verdades reais, mesmo quando a dor e as surpresas ruins insistem em tentar nos convencer do contrário. Não duvida do que tu és, do que tu construíste, do que tu ainda és capaz de construir. Jamais ignora a tua herança espiritual, essa que eu pretendo não deixar morrer nunca. E não esquece que o meu “eu te amo” pra ti é sem tamanho e sem fim, sempre. Tu és o melhor pai do mundo e, arrisco dizer, sou uma das poucas pessoas no universo inteiro que podem dizer isso sem ser da boca pra fora.

De quem te ama,

Isa.

Carta do Dia dos Pais - 9 de agosto de 2009.

domingo, 2 de agosto de 2009

changes


Num tempo onde sentir-se só era uma constante, mesmo quando repleta de companhias nem sempre dispensáveis ou insignificantes, ele apareceu. Entrou aos poucos na vida dela, chegando pelas beiradas, lentamente tomando espaço. Cresceu em seu peito como alguma planta pouco efêmera, sem pressa ou necessidade de fazer-se notar.

E de repente ele era uma árvore enorme. Ultrapassara impiedosamente as pequenas plantinhas, há tanto predominantes no jardim quase floresta que era o coração dela. Crescera sobre o solo infértil de outrora, firmando-se em raízes imponentes sem, no entanto, sufocar gramado algum. Afugentou a imensidão vazia de seus medos e traumas, tornando-se a sombra pincelada por raios de sol de que ela sempre precisou. Não cobriu seu céu. Tampouco seus horizontes de sonhos, como alguns fizeram. Crescera apenas o suficiente pra ser bonito e necessário. O bastante pra ser sentido sem que isso pudesse machucar.

No peito dela cabia qualquer semente. Sempre andara com o coração aberto, um coração não raro de fácil acesso. Era grande também. Mesmo quando apertado e dolorido, jamais via-se sem espaço pra mais alguma coisa semear - isso não era problema. A dor vinha depois.

Quando se invade a vida de alguém é preciso calma. Cautela pra adentrar espaços que não são seus, bem como respeito pra fixar-se em algum lugar e fazer dele sua segunda morada. Pois que os jardins de dentro são frágeis e facilmente destrutíveis. É preciso que aquele que dele cuida, o dono do jardim, saiba quais sementes regar e, indispensável, é preciso que as sementes saibam responder com graça. Quando os dois se acertam, a planta cresce. Na medida, forte, delicada. E faz o respirar muito mais fácil.

Quando ambos, planta e jardim, entram em perfeita sintonia, sem atropelos ou ofensas silenciosas, é que a gente chama a enorme árvore de amor.

sábado, 25 de julho de 2009

into the wild

;filosofias baratas são legais pelo pouco preço que se paga nelas, eu acho, e ser mão fechada é mais uma das heranças familiares que me restaram em 17 anos de fugir e voltar. e eu meio que fui cansando dessa coisa estúpida que é calcular momentos. uma lágrima inesperada, ou sei lá, quem sabe até aquele choro que a gente sabia que viria mas pensava nele com outras razões, é surpreendente pela inviabilidade repentina dos motivos listados durante toda uma vida, mesmo curta.

por mais que nostálgica, a realidade de não mais sentir desespero impertinente ao terminar um filme com lição de vida forte - clichê também, why not? - pode ser reconfortante quando temos outros motivos pra levantar do sofá e transformar o choque num sorrisinho tosco de canto de boca, meio teatral. se olhar no espelho, então? inevitável. sem mais, no entanto, ver os olhos incharem e a boca se retorcer na tentativa frustrada de não mais admitir pra si o tamanho do medo que um dia se foi capaz de sentir da vida. lavar o rosto e dormir, mesmo filosofando barato, pode ser até mais bonito. e muito, mas muito menos sofrido.

porque todo mundo já foi um pouco chris, de into the wild.

mentira. eu é que já fui um pouco de tudo, sendo outra vez teatral. a novidade é conseguir se livrar desse todo pra ser, vez em quando, um pouquinho outra coisa. pra ser, vai ver vez em sempre, um pouquinho eu. e não mais fazê-lo apenas sozinha.







happyness is only real when shared

domingo, 28 de junho de 2009

.

não vou mais te deixar explodir em mim assim. quando você me cobre inteira com essa urgência em ser dois em um, a amargura forjada escorrendo dos seus olhos escuros pra desaguar no mar da minha fraqueza ignorada, arde em mim o medo impertinente de jamais conseguir expulsar sua lembrança de vez. e eu quero, sabe? antes fingia querer, envolta na seda macia da esperança, bonita que só. mas puxou fio, rasgou. só espero hoje de você a feiúra de alma a qual tentei moldar, sonhadora. e nem sentada eu fico pra isso. meu sedentarismo inato inexiste quando a vida e você tentam me segurar sem razão. passo a ser capaz de correr. quem sabe até voar.


contos de junho - número 11

quarta-feira, 17 de junho de 2009

A roda

E se é pra falar de pessoas horríves, então falemos. Se é pra citar a insensibilidade e a habilidade pra machucar, dissimular e manipular, então citemos. Façamos comparações. Vamos colocar todo mundo na roda, todos os erros, todas as dores, todas as traições e intrigas. Vamos reunir o grupo imenso de pessoas que já entrelaçaram suas vidas e misturar tudo. Mexer na mistura como se fosse um caldeirão interminável de coisas iguais, as quais tornam-se homogêneas assim que jogadas num recipiente qualquer.

A diferença não reside nos fatos. O que torna alguém digno de raiva eterna ou absolvição imediada não são as atitudes, as merdas que todos fazemos, as demonstrações diárias de inconseqüência e descaso. O que muda tudo vem mais do fundo.

Errar é ponto indiscutível, quase obrigatório. Cometer deslizes, fazer besteira e agir como um bicho repugnante são coisas que não escapam à existência de ninguém. Só que, se você não sabe, as pessoas têm índoles diferentes. Condutas, corações, consciências. Essências.

Todo mundo mente, todo mundo trai, todo mundo ri da cara de alguém que não merecia. Todo mundo cospe no mundo um dia e pisoteia a cabeça de alguém. Sem querer, por querer, com álcool no sangue, com um escapulário católico no pescoço ou uma tatuagem anti-cristã. O mundo tá cheio de lama, eu bem sei. E as pessoas são pessoas justamente por toda essa sujeira que é a condição humana. Somos gente, a cada dia mais.

Mas existe o depois. O pós-erro, o pós-merda, o pós-momento de pensar quesefodaomundoeusóqueromedarbemaomenosumavezinha. Existe o arrependimento, o sentir-se imundo, o chorar de raiva de si mesmo. Existe essa coisa chamada consciência e aquela outra coisinha chamada coração, que despertam aquilo que somos de verdade e nos fazem perceber o quanto fomos estúpidos.

Se é pra falar de pessoas horríveis, então falemos. Podem comparar toda a minha lista de erros irreparáveis, faltas sem remédio e traições amargas. Peguem todos os fatos e estampem em bandeiras, jornais, outdoors. Transmitam via satélite pra que todos possam ver. Mas não se esqueçam do depois. Não deixem pra trás a outra lista - essa que eu carrego sempre, meio amassada, meio molhada por lágrimas, de tristeza ou felicidade, esmagadinha no fundo do bolso batido. Não passem reto pela multidão de linhas que a compõem, preenchidas por uma alma cansada, imperfeita e covarde.

De vocês, juízes incorruptíveis - se é que o são -, só peço isso. E aí vocês podem dizer, pelos quatro cantos do mundo e onde mais quiserem, que eu já fui uma vaca, que eu já fui uma bêbada, que eu já fui uma péssima amiga, que eu já menti pros meus pais ou até matei alguém de tristeza. Podem falar a vontade dos meus erros e homicídios existenciais. Mas vão saber que, no fundo, sendo um exemplo terrível de garota de quasedezesseteanos ou não, sendo a filha perfeita ou não, constituindo parte do grupo de adolescentes prodígio ou ingressando pouco a pouco no dos que ninguém quer pro futuro do país e do mundo; vão saber que humanidade eu ainda tenho. Corroída, carcomida, rota e frágil, eu sei - mas ainda assim é uma alma e uma alma, sim, humana. A dor rasgante no peito diante do erro e a busca incansável pela fé no mundo e no amor, mesmo quando tudo parece não passar de injustiça e mentiras, são a diferença que realmente importa.

Roteiros, cenários, personagens e preços - é tudo igual ao seu mundo na minha vida, não nego. Mas posso jurar que meus bastidores se salvam. Enquanto você quer ser campeã de bilheteria a qualquer custo, eu só almejo tocar o universo inteiro de alguma forma. Peco no clichê, infeliz escolha. E entro na roda.

domingo, 24 de maio de 2009

Contos de Verão - Deveria, mas não dói

Pensar em você já não é tarefa de poucas horas. Sua voz sussurrando meu nome surge em meu ouvido a cada amanhecer, em cada devaneio de madrugada fria, por cada tarde infrutífera em que me permito acordar do torpor no qual me encontro desde a sua ausência. Ouvir você dizendo todas aquelas coisas duras foi a única coisa, amor, que me impediu de verbalizar a imensidão de palavras emboladas na minha garganta até agora. A única coisa que me fez engolir as lágrimas e sorrir do jeito irônico que você sempre odiou, andando sem pressa pelo lugar escuro, sem olhar nos seus olhos uma última vez.


Quando na luz das velas você disse jamais me ter amado, meu bem, senti todo aquele clichê antigo dos filmes em preto e branco acontecer de uma só vez. O chão sumindo sob meus pés, o ar mais denso repentinamente, a frieza quase palpável dos seus olhos insensíveis, congelando meu corpo sem dó. Tudo o que eu jamais imaginei possível antes fez-se concreto com rapidez desigual. Porque eu nunca soube ser realista o suficiente pra enxergar o que você realmente era.



Mas agora que eu acendi as luzes de verdade, agora que enxerguei seu rosto pela primeira vez desde aquela noite estúpida, percebi que eu preciso de toda essa sua indiferença. Por maior que seja a dor percorrendo minha pele machucada enquanto você está aqui, ter seus braços envolvendo minha cintura é quase tudo de que eu preciso pra gargalhar com graça. Mesmo quando você arranha o silêncio com suas incontáveis covardias, minhas palavras de conta-gotas em resposta formam o contraste de que eu necessito pra sobreviver. Toda a minha segurança se esvai, enquanto surge, inexplicável, a vulnerabilidade que eu evitei por tantos anos, a submissão calada da mulher que eu nunca fui. Deveria, mas não dói.


- dos rascunhos de 23 de fevereiro de 2009

domingo, 10 de maio de 2009

A gente

Ela diz (23:08):
a minha vontade de ir embora ta sendo cada vez maior
Ela diz (23:09):
não quero saber se as coisas vão ou não comigo, eu só quero mudar de casa por um dia que seja.
Isa diz (23:10):
sei lá, eu to querendo mudar de casa no sentido de minha casa, minha carcaça, meu corpo, minha casa eu, meu eu casa, saca?
Isa diz (23:11):
sei lá, sei lá mesmo, cansei de sonhar com o improvável e sorrir pro impossível
Isa diz (23:11):
cansei de olhar pra ele e querer tanto, tanto, tanto correr até lá
Isa diz (23:11):
de olhar pras pessoas e me sentir um robozinho automatizado cheio de trejeitos escondidos e manias secretas
Isa diz (23:12):
sei lá, o meu lado plastificado tomou conta de tanta coisa, que eu to nadando em plástico, pacotes de presente, lacinhos de fita, e não sei onde ta o recheio disso tudo
Isa diz (23:12):
e to pensando de verdade em tentar ser um pouco mais feliz me agarrando nas coisinhas minúsculas que me fazem um pouco mais feliz.
Isa diz (23:12):
sei lá, não pode ser tão difícil, pode?
Isa diz (23:13):
sorrir pra vida e agüentar firme de um jeito que não mate
Isa diz (23:13):
não pode ser tão impossível pra mim, pode?
Isa diz (23:13):
só esperar e ter paciência e aguentar as ligações de amigas contando sobre a noite espetacular com o namorado
Isa diz (23:13):
não pode ser tão difícil ler um livro, estudar bastante, dançar um pouco e sorrir pra demora. não pode.
Isa diz (23:14):
não é impossível, eu sei que não é. não é impossível transformar o cansaço num impulso quase morto, mas real, de ser a gente por mais um tempo e engolir o fato de ninguém sequer olhar, passar o olho. não pode ser.
Ela diz (23:14):
ah, o que pode cansar mais do que ser mais forçado ainda?
Isa diz (23:15):
eu já disse e repito: não me entrego, não me entrego, NÃO ME ENTREGO.
Isa diz (23:15):
não me entrego pra esse poço negro que se disfarça de vida e me faz querer morrer
Isa diz (23:15):
não me entrego porque eu ainda me tenho, sabe? ainda me tenho e tenho minha cama, meus livros, meu sorriso que sabe ser bonito quando eu deixo ser
Isa diz (23:15):
eu não me entrego, cara. eu aprendi que não posso, que não vou, que não.
Isa diz (23:16):
eu vou aprender a andar sozinha até que alguém apareça
Isa diz (23:16):
e se não aparecer nunca, eu vou correr sozinha, vou voar sozinha
Isa diz (23:16):
sei lá, não pode ser impossível. em algum lugar eu chego, só não posso parar.
Ela diz (23:17):
guarda isso pra ti então
Ela diz (23:17):
guarda essa coisinha, esse impulso de vida.
Ela diz (23:17):
guarda em lugar inatingível por favor.
Isa diz (23:17):
eu não quero guardar, eu quero dividir! quero partir ao meio e estender um pedaço!
Isa diz (23:17):
pega... sente?
Isa diz (23:17):
dá pra pegar
Isa diz (23:17):
não é palpável mas dá pra pegar
Isa diz (23:17):
tem prazo de validade, mas dá pra arranjar outros
Isa diz (23:17):
é natural, não precisa comprar
Isa diz (23:18):
qualquer jardim fornece, eu juro!
Isa diz (23:18):
tem o bonito ainda, sabe? tem, em algum lugar tem! mas a gente tem que se esforçar pra ver
Isa diz (23:18):
a gente acostumou a ser míope pra essas coisas, mas a lente é o esforço, não tem óculos pra isso
Ela diz (23:18):
acho que me taparam os buracos
Ela diz (23:19):
alguns
Ela diz (23:19):
sobraram outros
Ela diz (23:19):
eu prometo que eu pego.
Isa diz (23:19):
dá pra ser a gente sem ser a gente e mais um. dá pra ser só a gente, sabe? não pra sempre, mas dá
Isa diz (23:19):
a gente agüenta
Isa diz (23:20):
a gente é grande sozinha, a gente agüenta. a gente agüenta por Deus, a gente agüenta. por Ele, sabe? porque Ele existe e quer que a gente agüente, então a gente agüenta.
Ela diz (23:21):
e se ngm gosta desse eu?
Ela diz (23:21):
eu tenho tanto pavor disso tudo
Ela diz (23:21):
de me entregar como eu sou
Isa diz (23:21):
é que esse eu precisa ser gostado pela gente, precisa ser acariciado pela gente, muito, muito
Ela diz (23:21):
e ficar cada vez mais distante do mundo real
Isa diz (23:21):
é que o mundo real não é o mundo real
Isa diz (23:22):
o mundo real dos outros é o que eles inventam, a sociedade, a tv, as plaquinhas na rua
Isa diz (23:22):
o mundo real é a graminha, a formiga, o bêbado amanhecido na calçada
Isa diz (23:22):
e ele é tão feio e tão bonito, que a gente pode escolher tipo catálogo o que quer ver no dia que amanhece
Isa diz (23:23):
e a gente é tanta coisa, já viu? já notou?
Isa diz (23:23):
a gente sabe ser tanta coisa que até pode se escolher num catálogo também
Isa diz (23:23):
dá pra ser o sorriso quando o dia amanhece azulado e de sol, pra ouvir música boa depois da aula e beber um suco com copo de plástico, no canudinho mordido
Isa diz (23:24):
e dá pra ser a cara fechada, misteriosa, que desperta curiosidade mesmo que seja em ninguém, naquele dia de chuva, de ler um livro maluco na escada do colégio entre uma apostila e outra
Isa diz (23:25):
inventar roteiros é tipo um saquinho de oxigênio, sabe? a gente tem pouco, eu sei. o nosso é pequeno, eu sei. tamanho médio é milagre. grande? inexistente. eu sei, sabe? eu sei que tu sabes também. mas é que ainda tem oxigênio ali, só que a gente tem um pouquinho de azar
Isa diz (23:25):
a gente só pode respirar um pouquinho por vez
Isa diz (23:25):
aí vem aquela parte de escolher entre ficar sem ar ou aprender a segurar um pouco mais o pouquinho que tem
Isa diz (23:26):
é que a gente solta tudo de uma vez, sabe? a gente não tem cautela e acaba murchando rapidinho... mas dá pra inchar bastante e comer pipoca vendo um filme
Isa diz (23:26):
dá pra agüentar firme de nariz tampado e morder uma maçã de quarta-feira
Ela diz (23:27):
e eu n quero terminar dizendo que minha mãe acabou de vir aqui dizendo pra eu sair.
Ela diz (23:27):
mas como o todo que a gnt sabe...
Ela diz (23:28):
ah foi bom e muito bom ouvir isso.
Ela diz (23:28):
seja pra dormir menos pesada ou um mais leve.
Ela diz (23:28):
no fundo tem diferença.
Isa diz (23:28):
no fundo tudo tem diferença. azul não é o mesmo que azul.
Isa diz (23:29):
eu vou pra cama agora também. pega isso aí, ok? pega com força e coloca debaixo do travesseiro. a nossa poesia é bonita. que seja só pra gente, mas ela é bonita. mórbida às vezes, mas bonita quase sempre. quase sempre e às vezes tem diferença também. e eu quase sempre sei que a gente às vezes sobrevive. ou o contrário.
Isa diz (23:29):
beijo na orelha!
Ela diz (23:30):
me fazes rir por dentro.
Ela diz (23:30):
ou ao contrário.
Ela diz (23:30):
te amo te amo com o tamanho da nossa intensidade junta!
Ela diz (23:31):
beijo no coração!
Isa diz (23:31):
te amo com o tamanho dos eu te amos não ditos no mundo inteiro, que a gente sabe ser imenso! beijo,


"eu protegi teu nome por amor... em um codinome beija-flor!"

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Crise de escritora de gaveta





Abri a porta do prédio sem realmente reparar na ausência de um porteiro noturno. Girei a chave ao entrar, repassando anotações inúteis na cabeça, em silêncio. O sensor da iluminação no corredor me pegou de guarda baixa, obrigando-me a encarar meu próprio rosto no espelho ao lado do elevador. Entrei com pressa e apertei o primeiro andar.




As luzes da sala estavam acesas. Um monstrinho cansado digitava alguma coisa no computador do meu pai: minha mãe, de nariz operado, parecendo o Fofão. Ótimo.




- Bom o cinema?


- Aham.


- Que filme assistiram?




Bati a porta do quarto sem pestanejar, impaciente. Conversas pós-filminho-romântico-no-cinema-com-um-casal-feliz-sentado-logo-ao-lado não eram minhas preferidas. E ela não viria até meu quarto depois disso - me conhecia há quase dezessete anos e sabia a hora de me deixar sozinha. Ou talvez ela só tivesse adquirido algum medo da minha reação no caso de uma segunda tentativa. Eu já dera motivos pra isso.




Encontrei, no fundo da gaveta, a calça de pijama velha e breguinha que sempre foi minha preferida. Amarrando os cabelos limpos num rabo desajeitado, daquele jeito que sempre me fez sentir personagem de algum filme piegas e bem-editado, cheguei à cozinha.




Inflamação na garganta, vento frio lá fora, um filme deprimente e o Fofão na sala. Guaraná? Ice Tea? Suco de melancia? Nada gelado. Um chá quentinho era a imagem de mocinha que eu sempre pintara, desde criança. Baunilha, capim cidreira, hortelã... Erva-doce. O clássico docinho nas noites mal dormidas da vida. Vacilei por um segundo, mãos no botão preto do microondas, girando o corpo pra visualizar o fogão: chaleira, luva de forno, rabo-de-cavalo surrado. Esquentar a água teria outra emoção quando a fumacinha transparente acompanhasse o chiado épico da coisa fervendo. E assim o fiz, calculando o tempo disponível pra trocar os lençóis e chamar o sono pra deitar.




Os cookies comprados na saída do cinema tinham o gosto errado: eram definitivamente castanhas no meio da massa integral, mas eu queria de caju, não do pará. Primeira cena estragada do filme que eu pretendia patentear. Ou seria um clímax original, seguido da reflexão forçada da mocinha acerca de ter escolhido os sabores errados em tudo na vida e, mesmo assim, acabar comendo o saco inteirinho, conformada?




Então o Fofão adentrou o quarto, expressão acesa. Até que fazia parte do script a surpresa nem tão surpreendente assim. Nas mãos o laptop empoeirado em cima do qual quase cochilava quando cheguei, disse ter lembrado de mim ao assistir algo recebido por e-mail. Ela ignorou o chá, os biscoitos e o fato de eu já estar digitando freneticamente no meu próprio computador. Pra completar, deitada. E usando a calça velha de guerra dos dias em que meu mundo alternativo me sugava, carente de mim. Sequer sorri amarelo.




- É comprido?


- Não, mas é lindo.




A música de fundo, como suspeitei pela introdução, era alguma coisa patética que eu cantara no primeiro colegial, naquela maldita peça escrita por mim. Naquela maldita peça que não ganhou prêmio algum, da qual eu me orgulhava até que o microfone falhou na frase final da canção. Anotei mentalmente: mães costumam se orgulhar das nossas piores falhas.




O primeiro slide reluziu: um fundo preto coberto por uma espécie de fita verde-limão espalhando-se e enrolando-se pela tela. Frases prontas de alguém cuja única tarefa na vida era tirar lições bonitinhas de toda merda que lhe acometesse: "não há vida decente sem amor". Essa grudou na cabeça. Mesmo sem um personagem infantil fantasiado de mãe por perto, fui capaz de sorrir amarelo prá minha própria imbecilidade infeliz. Era a típica noite cujo caminho se bifurcava em dois:




1) Eu desistiria em seguida. Fecharia o laptop engordurado e puxaria o travesseiro pra baixo, levantando pra escovar os dentes, apagar a luz e ouvir 15 minutos de Mandy Moore no meu Ipod quinta geração com fone quase estourado. E pegaria no sono, com uma manhã magnífica a me esperar, sem surtos psicóticos que me lembravam sempre do quanto eu sentia falta da minha psicóloga. Porque eu posso ser normal, sabe? Era só escovar os dentes e apagar a luz.




2) A opção mais frequente no passado e da qual eu vinha fugindo com fervor nos últimos tempos: eu cederia à melancolia forçada e clichê dos meus dias vazios. Acomodaria o computador superaquecido nas pernas cansadas, bebericando meu chá pouco saudável com mil colheres inconsequentes de açúcar e abrindo a caixa de texto branca do meu blog abandonado.


E escreveria. Escreveria até que os dedos endurecessem, até que a lua fraquejasse e a poesia inata dos meus dezesseis anos e alguns meses se tornasse insuficiente pra expelir do meu corpo pouco desenvolvido todo o sentir louco que era minha vida. Até que os pronomes possessivos me irritassem o suficiente pra eu conseguir mais alguns milímetros de arte literária. Arte essa na qual eu confiaria com a mesma convicção com que me olhava no espelho - convicção zero.




Menos dramática do que o esperado, aqui estou eu. O ronco distante e nada feminino da minha mãe operada soa forte por detrás das paredes limpinhas e meus olhos já se enchem daquele aviso incansável de você-precisa-dormir-oito-horas-no-mínimo. Eu sentei e escrevi e me vejo repetindo o ato por anos à fio. Quem sabe eu venha a me tornar, um dia, uma daquelas velhinhas solitárias e tristes em apartamentos luxuosos de algum lugar da Europa. Aquelas que acariciam um gato persa com as mãos lotadas de pedras preciosas, lamentando a vida que não tiverem e tentando livrar-se de seu fracasso íntimo gradativamente, através do cigarro mentolado na outra mão. Não é bem um fim à altura dos filmes americanos que tanto entorpecem, mas é um fim.




Crise de escritora de gaveta é assim: a gente assiste a uma comédia romântica, transforma o dia em humor negro, remonta os medos em uma crônica mal estruturada e escreve sobre um monte de coisas ridículas que não parecem permear a mente de mais ninguém. E vai dormir se sentindo sábia, imponente. Quase uma Audrey Hepburn com capacidade literária de Clarice Lispector. É um sarro.

domingo, 29 de março de 2009

Escrever pra mim


É que quando se escreve pra alguém, as palavras soam forçadas. Mas quando algo sai de dentro, do silêncio mais profundo proveniente do meu íntimo mais desconhecido, não intenciona atingir quem quer que seja. E é por isso que eu, sentada diante dessa imensidão colorida e indecifrável, segurando com força o lápis carcomido pela intensidade do meu sistema nervoso inquieto, escrevo agora com a alma e não o faço pra você. Nem pra ninguém.

Nos momentos em que me sinto assim, inclinada a falar verdades duras pra uma humanidade que jamais há de me ouvir, as coisas fluem de um jeito meio assustador. Nos instantes em que o mundo me permite pensar a respeito das pessoas e dele próprio, enquanto escuto as vozes baixinhas sussurrando coisas indiscutíveis nos ouvidos do meu coração, sinto-me repleta de um orgulho sem fim.

Lembra quando eu disse que caráter não se compra? Quando eu falei, naquela tarde, que humildade é uma coisa difícil de construir, meio aleatória, meio inata? Consegue se lembrar daqueles segundos em que você olhou pra mim e eu disse que a cada retomada desse assunto eu lembrava, com amor, do meu pai?

Eu tenho o meu consolo. Descobrir que as pessoas podem ser, simultaneamente, belíssimas por fora e desprovidas de qualquer beleza por dentro, dói bastante quando a gente não espera. Perceber que a construção milimétrica de um íntimo mais doce, durante quase dezessete anos, pode não ter valor algum pra alguém, faz o peito murchar de cansaço e a dor física é só o começo dos reflexos negativos que isso traz. Mas em seguida, vem a luz. Vêm aquelas pessoas nas quais eu confio, as quais eu amo, as que me fazem sentir maior. As que sabem quem eu sou e não me deixam esquecer o valor que isso tem. É quando as tentativas constantes de ser íntegra e humilde deixam de parecer inúteis. É quando o mundo volta a brilhar e já não parece tão injusto.

Fugir de quem usa máscaras, de quem constrói castelos ao redor de si mesmo pra esconder a própria ruína; fugir da parcela hipócrita constituída por aqueles que pregam verdades as quais jamais seguiram; correr pra longe de tudo o que exala falsidade e desamor, enfim, nem sempre é possível na vida real. E é por isso que eu me apoio com força no grafite quebradiço desse lápis envelhecido: pra tentar, embora nem sempre com sucesso, rascunhar um mundo mais feliz pra mim.

quarta-feira, 18 de março de 2009

"Eu vivo à espera de inspiração com uma avidez que não dá descanso. Cheguei mesmo à conclusão de que escrever é a coisa que mais desejo no mundo, mesmo mais que amor."

Clarice L.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Contos de qualquer estação - Não dessa vez


Agora que atirei as garrafas vazias na parede branca, enquanto olho pros resquícios da porcelana cara que sua mãe nos deu no início de tudo, formando desenhos sobre o carpet surrado, sinto vontade de chorar. Não o choro pesado e árduo de quem clama por paz, em desespero; não aquela lágrima amarga que derramei quando você disse adeus. Meu pranto hoje é seco, não faz bico, não se gaba de um drama teatral perfeito. É o pranto de quem anda sempre em frente, mas deixa muito pra trás. De alguém que passa por cima do que sente, do que é e do que sabe, só pra livrar-se da imensidão descomunal e sórdida desse hoje banhado em caos.

E eu, enaltecendo minha própria essência, desse jeito falso como consigo fazer-me grande fora das paredes escuras do meu quarto, levanto desse mar de melancolias na tentativa de tornar tácita a aspereza óbvia em minha garganta engasgada. Tento digerir à força toda massa indigesta de inconformidades, cada pedaço facilmente defectível de você que restou no meu estômago fraco. Não vou vomitá-lo pra repetir a dose, amor. Não dessa vez. Meu sistema imunológico, a partir de agora, tratará de repelir uma por uma de suas mil justificativas evasivas pra ser o que é. Meu corpo agora o rejeita.

Esperava que você soubesse que, uma vez tendo ido embora, seu lugar na cama já pertence a outro. E antes que recomece, já peço que cale: gritar pornografias não fará de você novamente digno da pouca honra que derrubou na soleira da porta, ao partir. Ficou meio tarde pra crescer agora. E eu não vou dizer que sinto. Não dessa vez.

Não perca a hora, portanto. Já fechei as janelas e não ouço mais seus gritos da calçada; sua voz soa perdida por entre o barulho incessante da rua. Não pense ser capaz de compensar os anos de silêncio com meia dúzia de encômios distribuídos porcamente. Sua pseudo-ingenuidade me cansa, meu bem, e o pesar de outrora agora não passa de cansaço sereno.

Eu poderia ter caído sem você, como sempre fiz. Você diria que é de meu feitio perdoar por auto-piedade, deixar tudo pra trás na ilusão infrutífera de estar segura. Mas não vou fazê-lo, amor, pra morrer mais seis vezes e acabar em pó. Não cometerei o mesmo equívoco enfadonho de toda uma vida. Não dessa vez.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Contos de qualquer estação - Oitavo

Não é pela tua ausência que meu corpo padece no sofrimento constante. Não me doem as tuas poucas palavras, as lembranças antigas, o presente do aniversário passado esquecido no fundo do armário. O que gera cada suspiro rasgante e duro em mim são os teus silêncios. Teu olhar distante e tão fundo que diz tanto e tão pouco, dessa forma louca como podem surgir interrogações a partir dos olhos de alguém. Tu olhas pra mim e sinto vontade de gritar tanta coisa, tantos pensamentos insanos e puídos, carcomidos pelas vontades reprimidas e sentimentos guardados debaixo do travesseiro. Eu, no entanto, silencio do primeiro ao último segundo, sem conseguir entender como contrastes tão absurdos podem pertencer ao bater de um só coração.

Tento muito, mas não sei ser parte desse teu mistério existencial. Divido-me em mil tentando decifrar teus raros sorrisos, buscando uma forma de compreender teus passos e decifrar teu jeito de olhar pra mim. Não sei nem mesmo se já fostes capaz de enxergar através dos meus olhos nesses tantos anos, já que tuas reações ao que eu digo ou faço só sabem calar.


Nunca gostei de pessoas óbvias e talvez seja essa a razão do meu querer. Tua facilidade em esconder todo o teu interior me fascina, amor, e já não suporto evitar a vontade diária de dar vazão a tudo o que me fazes sentir. Ter de suportar o peso da tua presença é quase o oitavo pecado capital, mesmo pra mim que nunca dei atenção aos outros sete.


Não peço a verdade por trás dos teus segredos, não peço amor, não peço paz. Só toca meus lábios mais uma vez e me deixa provar o gosto delirante que é constituir parte de um pedaço indecifrável do mundo. Mesmo que tê-lo segurando minha mão seja mais uma das mentiras de que vivo. Mesmo que teus olhos mintam pra mim, sem dó, outra vez.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Rascunhos antigos

Um pensamento insistente permeava a mente dela: como era difícil, por Deus, ser quem era. Como era difícil ser mulher, inteira e nua, em frente ao espelho ou esparramada pela cama fria. Que dificuldade angustiante a de ver o próprio rosto endurecer, sentir o corpo mudar e ver a sensibilidade outrora pura tornar-se sutil a cada passo.

Roupas, cheiros, cores e formas. O tempo arrastava a menina pra longe e empurrava-lhe garganta à baixo o que devia florescer sem ser notado. Como sempre em sua vida fora, transitar no próprio ser fazia-se tortura inevitável: arranhava ossos, lábios, sentidos. Cortava-lhe a pele macia sem dó.

E o que chamavam paixão era o melhor remédio - sentir-se, ser, enxergar-se amada. Não o amor dos livros e filmes, sonho antigo. Esse carnal que a vida mostra duro, mas bonito e digno pra quem sabe aceitar. Prazer é também religião, pensava. E era.

Já não queria, porém, dopar-se de amor. Depender de outrém perigava doer. Sob efeito da droga sorrir era fácil - adormecido o corpo, flutuante a alma. Entorpecente finito, no entanto, paixão externa era efêmera que só. E com a lucidez repentina retornava o escuro medo: como era difícil, por Deus, suportar-se. Criança e amor, mulher e vazio - sequer sabia quem queria ser, como seria fácil ser quem era?

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Contos de verão - You should come back


Penso, na verdade, que você deveria voltar. Quando bateu a porta do apartamento sem olhar pra mim, baby, deixou muitas coisas mal resolvidas pra trás. Um gosto amargo ficou no seu lugar e, se quer mesmo saber, ninguém é importante o suficiente pra deixar esse tipo de coisa em vez de si próprio. Ninguém tem o direito de arruinar a vida de quem quer que seja. Não se substitui um sorriso pela tortura da ausência.


Percebi que era hora de trocar os lençóis, mas não fui capaz de fazê-lo. Seu cheiro impregnado no tecido ainda me entorpece, e você não faz idéia do quanto isso mata aos poucos. Eu disse que jamais choraria por homem algum, se é que você lembra, e não sou de quebrar promessas; mas a lágrima que escorre pra dentro quase me torna uma grande mentira.


Eu joguei fora todos os livros que você me deu. Abri a janela num dia de chuva, a que dá direto no terreno abandonado aqui atrás, onde você queria construir já nem lembro o que, e joguei todos sem sequer observar onde cairiam. Quase todos - guardei um. Aquele do Natal passado, quando você concordou em silêncio ao me ouvir falar do quanto a neve torna as coisas mais nostálgicas. Você sempre foi do tipo que silencia, aliás. Nunca gostei de falar sozinha sobre o que sinto, mas seus olhos falavam tanto que... Não sei. Olhos que recitam poesias são clichês e enojantes, e você sabe que eu sempre odiei ser piegas, sempre temi, mas desde que me deixou você tem sido mudança constante na minha rotina. Sua falta, na verdade.


Eu só penso que você deveria mesmo voltar. Nem que seja pra cobrar os livros antigos e arrancar nossos lençóis da cama, você deveria vir até aqui e bater a porta do lado contrário, ao menos por um segundo. Preciso olhar pro seu rosto e enchergar pela primeira vez o cara insensível que suas costas esconderam naquele bater cruel da porta, há tanto. Quero apagar pra sempre a imagem boa de você que os anos gravaram em mim.


Você precisa voltar. Não traga suas malas, não deixe nada ao partir de novo.
Nada de que eu possa me lembrar mais tarde durante uma embriaguez inevitável. Mas volte, querido, pra que eu o veja mais uma vez emoldurado pelas paredes da sala de estar. E volte sozinho: não quero aqui dentro as mulheres sujas a quem você paga jantares agora. Aproveite pra levar daqui os quadros que você comprou e dos quais eu nunca, nunca gostei, e você no fundo sabe disso. Sorri pra eles por todos aqueles anos porque me lembravam você, brega e com tão poucas cores.


Surpreendo a mim mesma, agora, percebendo o quanto eu já amei esse seu jeito preto e branco tão superficial.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Contos de Verão - Black and white


Olhando pra você eu falo de coisas banais com alguém, algum desses amigos que habitam os cantos seguros do mundo, sem quedas de fé, sem vazios inesperados, e eu digo a ele que você sequer é tão bonito assim, que já não me sinto fraca ao encarar seus olhos, que seu feitiço antigo não funciona mais, e faço isso pra manter-me próxima e ouvir seu silêncio oco ecoando pela sala escura, misturando-se à música lenta e insana que invade meus ouvidos como uma canção de morte, porque eu não tenho seu corpo no meu, porque suas mãos seguram as de outra pessoa e eu choro, choro, choro tanto nesse meu sorriso forçado, talvez ninguém jamais vá chorar como eu faço enquanto sorrio desesperada e atipicamente, pois que você não é mais meu, por estar sozinha aqui agora com esse amigo o qual habita os cantos seguros do mundo, céus, cantos esses que eu não visitei por um dia sequer dessa minha existência conturbada, e você parece estar lá com ele, nos cantos sem queda de fé nem vazios inesperados, e minha fé cai ainda mais fundo e o vazio crava com força descomunal no meu peito, cara, você não era o que eu queria e esperava, mas era meu, só meu, daquele jeito como as pessoas podem ser umas das outras quando fingimos esquecer que somos todos livres, mas você era sim meu, e eu era sua, porque ser de alguém sempre foi a imagem de felicidade que pintaram pra mim, que eu pintei, que a vida pintou, mas você agora silenciava ao lado de outro corpo e a beijava e tocava como me tocou um dia, como se fosse fácil assim apegar e desapegar de alguém, como se um simples beijo não fosse nada mais que o roçar agradável dos lábios de duas pessoas, como se eu não te adorasse, como se você jamais me tivesse adorado mesmo naqueles momentos em preto e branco no meu quarto, quando eu tinha seu corpo no meu, quando você estava aqui segurando minha mão, quando eu não precisava olhar pra você e falar de coisas banais com alguém que ironicamente vive num canto seguro do mundo, cara, porque eu estava vagando pelos cantos mais inseguros e eles pareciam tão inofensivos enquanto eu sentia o calor dos seus dedos frios nos meus.
Inspiração: Caio Fernando Abreu

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Pisar no real


"No meu demente exercício para pisar no real, finjo que não fantasio. E fantasio, fantasio. Até o último momento esperei que você me chamasse pelo telefone. Que você fosse ao aeroporto. Casablanca, última cena."

Ela fechou o livro e sorriu, irônica, para o próprio peito. Outrora pulsante, seu coração parecia fraco o suficiente ao ponto de tornar possível uma morte forjada. Por alguns segundos, perguntou a si mesma o que aconteceria se estendesse o próprio corpo ao chão, fechasse os olhos e segurasse a respiração pelo maior tempo possível. Talvez fosse tão convincente que ela própria sentiria medo do que veria ao despertar.

Observou a capa do livro em silêncio. O nome "Caio Fernando Abreu" naquelas letras garrafais trouxe à tona alguma coisa pouco doce. Uma cópia perfeita do amargo antigo que sentira naqueles tempos de cólera, dor e suspiros cansados. E suspirou, cansada. Queria lembrar-se de tudo com exatidão incontestável.

Não era culpa dele. Se estava agora aos pedaços, sentindo a vida esvair-se como um líquido rejeitado por seu corpo com rapidez, devia isso ao próprio coração errante. Se seus olhos enchiam-se de secura extrema no lugar das lágrimas sensíveis que antes os banhavam, se havia em seus passos incertos um tom mecânico e repetitivo, ao contrário da doçura com que andava ao lado dele, a culpa cabia apenas à ela própria, sabia bem. Ele era só mais um homem mostrando-se pouco disposto a satisfazer suas expectativas de ser ela mesma o tempo todo sem hesitar. Só mais um que não foi capaz de amá-la. Duro, cruel e insensível, sim. Mas inocente.

Levantou-se sem pensar, de súbito, quase como se um despertador interno houvesse tocado naquele instante. Observando a tarde vazia pela varanda do segundo andar, enquanto fitava a grama banhada pelo sol fraquejante, resolveu fechar os olhos e testar a si mesma.

O rosto dele. Seu cabelo, seu nariz, os lábios de uma amargura tão doce. As mãos enormes e delicadas, a altura inconcebível e os braços fortes que tão facilmente a faziam relaxar. Os olhos dele. Aquele olhar penetrante e profundo - descrição clichê, insuficiente. Os olhos que ela evitara no próprio pensamento pelas últimas semanas. E foi então que o medo a invadiu.

Com facilidade, como se recebesse permissão repentina, a sensação de perda percorreu primeiro seus músculos, sem dó, fazendo com que desabasse pesadamente na cadeira frágil atrás de si. E passou aos ossos. Corroendo, carcomendo, perfurando e adentrando um por um, crueldade explícita, a dor de não tê-lo por perto era como veneno de ação retardada. Bebido com fé por sua doçura, transformava-se no mal do qual ignorava sofrer há tanto.

O rosto enterrado nas mãos, ela percebeu: quentes, rolantes e esperadas, as lágrimas as quais sufocavam sua garganta e seu peito agora percorriam um caminho longo pelo seu rosto, seu pescoço e seus cabelos negros. Aqueles cabelos antes esvoaçantes, mas que não eram capazes de se mover um milímetro sequer sem que sua mão estivesse na dele. Perdê-lo era perder-se. Piegas, mas real.

Não sabia definir. Era alívio o que sentia? Poderia a dor cortante ser mais bem-vinda que o torpor imediato no qual entrara quando ele se foi? A vida mecanizada que vivia até aquele momento, apesar de cômoda, seria capaz de trazer mais danos que o poço fundo no qual mergulhava a cada novo segundo?

Decidiu que sim, sim e sim. Embora tomada pelo medo do que viria a seguir, por mais que sentisse cada pedaço de seu corpo sofrer os efeitos da porta trancada há tanto sendo aberta por completo, resolveu aceitar que assim era melhor. Quando se leva uma vida de comodidade forjada se é também capaz de viver na superfície, sim, pelo tempo que for. Mas no momento em que se permite emergir no poço mais profundo, não há pavor ou dor que sobreponha a verdade feita de esperança a qual se estabelece: há paredes? Há escalada.
E o fim do poço ficava acima da superfície. Acima o suficiente pra que ela abrisse suas asas, por mais quebradas que estivessem, e tomasse o impulso necessário pra deixar tudo pra trás. Acima o suficiente pra que seus cabelos pudessem novamente esvoaçar com graça. Suficiente pra que pudesse voar.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

"You never know how strong you are until being strong is the only choice you have."