terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Café e torturas


- Eu só queria não ter todos os dias essa dúvida incômoda sobre agir como agi por tantos anos, ou tomar o cuidado de fazê-lo de acordo com a pessoa que construí ultimamente. Difícil saber o que é mais certo. Essa racionalidade me cansa.

Um curto suspiro.

- Acho que quero ser eu outra vez, se é que me entende.

E sorveu o resto de café num único gole, perplexa. Queria mesmo era voltar no tempo, desesperada que estava. Ter, por Deus, seu mundo nas mãos.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Pisar no real


"No meu demente exercício para pisar no real, finjo que não fantasio. E fantasio, fantasio. Até o último momento esperei que você me chamasse pelo telefone. Que você fosse ao aeroporto. Casablanca, última cena."


Ela fechou o livro e sorriu, irônica, para o próprio peito. Outrora pulsante, seu coração parecia fraco o suficiente ao ponto de tornar possível uma morte forjada. Por alguns segundos, perguntou a si mesma o que aconteceria se estendesse o próprio corpo ao chão, fechasse os olhos e segurasse a respiração pelo maior tempo possível. Talvez fosse tão convincente que ela própria sentiria medo do que veria ao despertar.


Observou a capa do livro em silêncio. O nome "Caio Fernando Abreu" naquelas letras garrafais trouxe à tona alguma coisa pouco doce. Uma cópia perfeita do amargo antigo que sentira naqueles tempos de cólera, dor e suspiros cansados. E suspirou, cansada. Queria lembrar-se de tudo com exatidão incontestável.


Não era culpa dele. Se estava agora aos pedaços, sentido a vida esvair-se como um líquido rejeitado por seu corpo com rapidez, devia isso ao próprio coração errante. Se seus olhos enchiam-se de secura extrema no lugar das lágrimas sensíveis que antes os banhavam, se havia em seus passos incertos um tom mecânico e repetitivo, ao contrário da doçura com que andava ao lado dele, a culpa cabia apenas à ela própria, sabia bem. Ele era só mais um homem mostrando-se pouco disposto a satisfazer suas expectativas de ser ela mesma o tempo todo sem hesitar. Só mais um que não foi capaz de amá-la. Duro, cruel e insensível, sim. Mas inocente.


Levantou-se sem pensar, de súbito, quase como se um despertador interno houvesse tocado naquele instante. Observando a tarde vazia pela varanda do segundo andar, enquanto fitava a grama banhada pelo sol fraquejante, resolveu fechar os olhos e testar a si mesma.


O rosto dele. Seu cabelo, seu nariz, os lábios de uma amargura tão doce. As mãos enormes e delicadas, a altura inconcebível e os braços fortes que tão facilmente a faziam relaxar. Os olhos dele. Aquele olhar penetrante e profundo - descrição clichê, insuficiente. Os olhos que ela evitara no próprio pensamento pelas últimas semanas. E foi então que o medo a invadiu.


Com facilidade, como se recebesse permissão repentina, a sensação de perda percorreu primeiro seus músculos, sem dó, fazendo com que desabasse pesadamente na cadeira frágil atrás de si. E passou aos ossos. Corroendo, carcomendo, perfurando e adentrando um por um, crueldade explícita, a dor de não tê-lo por perto era como veneno de ação retardada. Bebido com fé por sua doçura, era agora o mal do qual ignorava sofrer há tanto.


O rosto enterrado nas mãos, ela percebeu: quentes, rolantes e esperadas, as lágrimas as quais sufocavam sua garganta e seu peito agora percorriam um caminho longo pelo seu rosto, seu pescoço e seus cabelos negros. Aqueles cabelos antes esvoaçantes, mas que não eram capazes de se mover um milímetro sequer sem que sua mão estivesse na dele. Perdê-lo era perder-se. Piegas, mas real.


Não sabia definir. Era alívio o que sentia? Poderia a dor cortante ser mais bem-vinda que o torpor imediato no qual entrara quando ele se foi? A vida mecanizada que vivia até aquele momento, apesar de cômoda, seria capaz de trazer mais danos que o poço fundo no qual mergulhava a cada novo segundo?


Decidiu que sim, sim e sim. Embora tomada pelo medo do que viria a seguir, por mais que sentisse cada pedaço de seu corpo sofrer os efeitos da porta trancada há tanto sendo aberta por completo, resolveu aceitar que assim era melhor. Quando se leva uma vida de comodidade forjada se é também capaz de viver na superfície, sim, pelo tempo que for. Mas no momento em que se permite emergir no poço mais profundo, não há pavor ou dor que sobreponha a verdade feita de esperança que se estabelece: há paredes? Há escalada. E o fim do poço ficava acima da superfície. Acima o suficiente pra que ela abrisse suas asas, por mais quebradas que estivessem, e tomasse o impulso necessário pra deixar tudo pra trás. Acima o suficiente pra que seus cabelos pudessem novamente esvoaçar com graça. Era o bastante pra que pudesse voar.

Manuscritos

"Não, meu bem, não adianta bancar o distante: lá vem o amor nos dilacerar de novo."
- Caio Fernando Abreu, quem mais?






"No canto do olho uma melancolia de açúcar, que hora machuca, hora dá prazer. Um sol gasto fraquejando pelo céu, o rosto alvo e tomado por serenidade ambígua. Queria só voar agora, no silêncio de paz dessa tarde amarela, olhar no horizonte e calada. Bater as asas feito um pássaro nômade e chorar feliz. A calmaria das cores já não me incomoda. Será que é a paz de estar feliz ou o gosto amargo e suicida de não encontrar sintonia com os que me cercam?"

Escrito em 22 de maio de 2008, num fim de tarde entre amigos.




"Não sei o que fazer de mim e dessas paixões que renascem com força em meio a esquecimento e comodidade. Eu sou uma constante inconstância. O amor não me cabe."

Escrito em agosto de 2008, num domingo estranho entre amigos.



"Não sei bem onde é, de onde vem ou como termina. Só sinto a sensação me consumindo em meio a vozes elevadas e risadas sinceras de pura alegria. Repentina, forte, estranhamente comum. Quase íntima. E não a de sempre, com o vazio oco e a face encharcada. Não. Seca por fora, enchente transborando no peito. É felicidade ou isso é ser triste?"

Escrito em outubro de 2008, sozinha em algum lugar.


Viajar é sempre bom. Olhar no espelho de dentro, depois de tanto. E surpreender a si mesma.

- Porto Alegre, 13 de dezembro de 2008.

Rascunhos antigos

Um pensamento insistente permeava a mente dela: como era difícil, por Deus, ser quem era. Como era difícil ser mulher, inteira e nua, em frente ao espelho ou esparramada pela cama fria. Que dificuldade angustiante a de ver o próprio rosto endurecer, sentir o corpo mudar e ver a sensibilidade outrora pura tornar-se sutil a cada passo.



Roupas, cheiros, cores e formas. O tempo arrastava a menina pra longe e empurrava-lhe garganta à baixo o que devia florescer sem ser notado. Como sempre em sua vida fora, transitar no próprio ser fazia-se tortura inevitável: arranhava ossos, lábios, sentidos. Cortava-lhe a pele macia sem dó.



E o que chamavam paixão era o melhor remédio - sentir-se, ser, enxergar-se amada. Não o amor dos livros e filmes, sonho antigo. Esse carnal que a vida mostra duro, mas bonito e digno pra quem sabe aceitar. Prazer era também religião, pensava. E era.



Já não queria, porém, dopar-se de amor. Depender de outrém perigava doer. Sob efeito da droga sorrir era fácil - adormecido o corpo, flutuante a alma. Entorpecente finito, no entanto, paixão externa era efêmera que só. E com a lucidez repentina retornava o escuro medo: como era difícil, por Deus, suportar-se.





Criança e amor, mulher e vazio - sequer sabia quem queria ser, como ser fácil ser quem era?

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Parar o bonde

No fundo do túnel o amargo sorri. Sem luz, sem esperança, sem bondade.
O tempo passa e eu percebo que a vida, essa roda-gigante de ironias e intrigas, é fonte de riso solto mesmo com toda a estupidez dos erros e os reflexos de passados frios.

E de repente eu já quero estar, tudo de novo, naquela casa quente da cidade pequena de onde eu vim. Curtir aquele verão monótono e cheio de energias ruins, mas ao mesmo tempo tão doce que entorpece a alma só de voltar à lembrança. De repente eu quero os mesmos cheiros, lugares, cores e seres. Quero o antigo pra me livrar do novo, do contemporâneo arranhado desse existiremvelocidademáxima. De repente eu quero reescrever as velhas canções como se fossem novas.

Ter pouco a dizer é ter menos por dentro? O contrário, eu creio. E crer é sempre incerto.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Contos de Verão - Sentir

A brisa quente invadia a janela do quarto naquela tarde modorrenta de verão. Deitada na cama, suor se misturando com os cabelos esparramados pelo travesseiro, ela mirava um ponto qualquer do piso branco abaixo, carrancuda. O dia parecia adormecer antes mesmo de despertar. Estava escuro e o sol brilhava lá fora.


Sentir era uma coisa complicada.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

"Existe alguma coisa impressionante dentro de cada pessoa no mundo. Algo íntimo, calado, escondido. O tipo de coisa que não se enxerga em meia hora de conversa, que não se percebe em qualquer convivência diária pouco atenta. Há alguma coisa impressionante e tácita a qual talvez, para alguns, seja sempre interior. Não é necessariamente bonita, enfática ou doce: é simplesmente aquela coisa única que faz de você íntegro ou estúpido, agradável ou sujo, alguém de bem ou de mal. Há uma essência, um princípio, uma matriz. Boa ou ruim, surpreendente ou comum, é o que faz de você o que você é e das pessoas que o cercam o que elas são. Existe alguma coisa impressionante dentro de cada pessoa no mundo, inegável. E assim como descobri-la é descobrir-se, vê-la no outro é descobrir alguém. Ame: descubra."

Escrito em 30 de novembro de 2008.