terça-feira, 18 de novembro de 2008

Way back into revolution.


Eu preciso de mais fé.
Não fé nessa poesia de eufemismos que me consome e guia todos os dias, tampouco a crença numa vida colorida e digna de platéias satisfeitas. Quero e preciso dessa fé imponente e transformadora dos que sonham sem pudor, daqueles que escalam as montanhas mais altas na busca por um mundo que lhes parece, no mínimo, urgente.

Tanta gente passa, tanta gente eu vejo. Tantas pessoas diferentes cruzam meu caminho nesse dia-a-dia atolado de cidade grande, nesse cinza escuro que se torna claro à medida que percebo não estar assim tão sozinha. Gente que chora, que ri, que vive. Gente que simplesmente passa, gente que pára, gente que marca. Uns por tanto tempo fazendo tão pouco; outros que, em poucos segundos, injetam ânimo e esperança nas veias dos meus braços cansados de uma luta há pouco perdida. E voltam a andar.

Doeu desistir. Não que eu o tenha feito por completo em algum momento, mas marcou fundo na alma o instante em que olhei pra trás pela suposta última vez e decidi seguir meu caminho sem os velhos pesos constantes. Doeu abandonar o idealismo na primeira esquina, derrubar a esperança numa curva qualquer e jogar o espírito revolucionário pela janela na primeira oportunidade. Doeu e ainda dói.

Mas a vida é, eu repito, uma máquina de lavar maluca e pulsante, como me disse certa vez uma amiga. Em uma terça-feira chuvosa de novembro eu olhei pra trás pela primeira vez desde aquela de outrora, distante. Olhei pra trás e suspirei com o que vi.

Porquê eu hoje li um texto surpreendente em um blog incrível. Pois que hoje, em casa, sem nada importante pra fazer além de estudar pro número absurdo de provas da semana, recebi uma visita inusitada de alguém desconhecido que me fez querer recomeçar. Uma mulher que adentrou esta sala pequena e falou de projetos contra o preconceito racial. Um ser humano de sorriso sincero que agradeceu, ao sair, pelas frases soltas de uma peça de teatro que eu declamei, à pedidos de minha mãe. Frases de Olga Benário Prestes, mulher de fibra como a que eu hoje tive o prazer de encontrar. "Eu precisava dessa injeção de ânimo pra continuar acreditando no que eu faço", ela disse. E sua expressão cansada deu lugar a um brilho doce no olhar. Um brilho de esperança.

Fico perguntando a mim mesma o motivo pelo qual deixei tudo isso pra trás. Toda a minha vontade de mudar o mundo, de lutar por grandes ideais e protagonizar alguma coisa bonita que faça a diferença. Como eu pude dar as costas às dores que me acometiam sem piedade, à consciência e ao senso crítico que estão no meu sangue, imutáveis. Que forma foi essa a qual encontrei de viver uma vida fútil quando o que transborda por dentro nada tem a ver com futilidade.

Quem sabe seja tarde pra recomeçar. Pra fazer renascer a vontade, a força, a indignação necessária pra revolucionar. Ou talvez não seja, nunca.

Como me fez pensar um amigo, talvez estejamos todos errados, nós, os românticos. Ou será que somos a maré consciente desse mundo inconseqüente com o qual jamais pude me conformar?


Inspiration:
Maybe we are all wrong, pra quem quiser conferir.
E Janaína, uma desconhecida essencial.

3 comentários:

Lilian Dalledone disse...

É difícil deixar pesos mortos´pra tras, mas a leveza que advem desse abandono nos faz muito mais felizes...
Tenha uma noite agradável...

Henrique Salvaro disse...

Lindo texto como de costume, haha. Não sabes o quanto eu fico feliz de saber que EU te inspirei, porque eu na verdade fiz o blog depois que li uns textos teus e fiquei impressionado com o jeito que tu organizavas as palavras, de um modo muito verdadeiro.. Sério, fico muito feliz :).

Manuella Secco disse...

Nossa, se precisas de mais fé, então acho que eu nem um pingo sequer devo ter. Sou tão contestadora e exigente com tudo, mas maior do que minha exigência e meu desejo de mudança é esta minha comodidade. Acho que não só minha, mas de todos né... Está aí um dos motivos da ausência de recomeços. Como tu mesma disse, talvez seja tarde pra eles. Prefiro ficar com a segunda opção: nunca é tarde! Acho que todos nós precisamos de mais fé, não é mesmo?