domingo, 26 de outubro de 2008

Uma repostagem




Eu olhava nos seus olhos e tentava compreender, achar coisas que eu queria que ali fossem encontradas, desenhando sonhos a seu respeito que talvez não passassem disso, de sonhos, de ilusões pré-fabricadas, e todo o seu sorriso caía sobre mim feito um jato d'água quente num dia gelado em Nova York, e quando eu chegava mais perto admitia em silêncio que seu cheiro era único no mundo, que nada mais poderia cheirar como o seu cabelo, o seu sorriso, o seu olhar e o seu beijo, que eu já nem sei mais se era doce ou não, se era sincero ou se assim queria eu que fosse, então eu encostava minha cabeça no seu ombro e fingia que suas mentiras e seus sumiços me bastavam, que eu não precisava de mais nada, mas nada disso, eu tinha de me levantar, tinha de gritar pra você todas aquelas coisas que eu decorara na frente do espelho, tudo o que me disseram que era preciso dizer, aquelas palavras agressivas que eu encontrei dentro de mim, perplexa, porque eu nunca soube que sabia ser assim, agressiva, ainda mais com você, cuja agressão mascarada de doçura me encantava, e então eu encostava a cabeça no seu ombro e fingia que tudo aquilo me bastava, que eu estava feliz, que isso era a vida e que não precisava mais nada, mais nada, mais nada pra que eu pudesse dormir sem culpa nem dor na noite que surgia, lenta, enquanto você estava ali, e por mais que eu não soubesse quanto tempo ficaria, eu sorria, estática, uma felicidade ignorante percorrendo os olhos em luz, seu cheiro invadindo o lugar, meu corpo, seu corpo, tudo errado e tão certo quanto poderia ser, na vida, no céu, no frio das cobertas quentes ou no escuro de um dia de sol, porque éramos eu e você e minha cabeça estava sobre o seu ombro, mais nada, nada mais, tão raro, tão doce, tão suficiente por dez segundos e alguns milésimos e uma lágrima ausente de adeus e promessas soltas e fim.




- "Desamor", de 8/07, Contos de Outono.