terça-feira, 15 de julho de 2008

Contos de Inverno - História sem Fim



Sentou-se sobre o banco gelado e procurou esquecer o mundo, sem pressa. No balanço do frio congelante ela sentia que algo dentro de si estava muito errado - talvez a coisa mais certa que já ousara sentir.


A impressão era sempre a mesma. Acordava num dia qualquer no qual coisas aconteciam, sem que pudesse perceber uma nova movimentação ou o piscar de um outro olhar sobre si. Era ingênua, mas nem tanto. Sabia do que carregava por dentro e sabia o que o mundo arrastava lá fora. Não era um grande segredo, afinal, mas alguns seguiam sem compreender, ela também soube.


O fato é que ela sentou-se sobre o banco gelado e procurou esquecer o mundo, sim, sem saber que não conseguiria. Sem saber que alguém lhe enxergaria de costas a olhar para a imensidão daquele lugar nada imenso e lhe diria alguma coisa qualquer que parecesse normal. Sem saber que nada disso teria qualquer coisa de normal.


E quando seus olhos a surpreenderam, atrasados, já era tarde. Havia um olhar mais inteligente brilhando dentro de seu peito, quieto, quase perigoso. Um olhar mais sutil que pegava todos os detalhes e os escondia o maior tempo possível, até que os olhos de fora insistissem ao peito que o segredo viesse à tona. E então era tarde, simplesmente. Tarde, sim. Tarde pra tentar qualquer retorno, qualquer máquina do tempo ou amnésia induzida. Tarde pra que o tempo desse conta do que sequer sabia ser seu, pra que a vida lhe permitisse seguir na normalidade ou viajar pelos caminhos daquele sentir. Não havia escolha, nada a fazer.


Então ela sorriu. Graciosa, sem graça, meio confusa. E deixou-se levar pela voz, pelo olhar, pelas mãos e por aquele rosto. Deixou-se levar por ele, fraca. Sem pensar no porquê, sem pensar no aonde, no quando e no depois. Sem sequer pensar no que lhe era exterior, no que não dependia de si. Sem pensar em nada.


Como muitas, era uma história ainda sem um fim.


Talvez se falasse da dor, em seguida?


- dos rascunhos de 24 de junho de 2008.

6 comentários:

Carolina Pires disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Carolina Pires disse...

Aiii Isa, fizesse lágrimas virem ao meus olhos. Ofuscante. Não esperava mesmo esse teu comentário, esse teu carinho tão aconchegante. Diria eu que é uma pena só te dar oi pessoalmente, sabendo que antes nos falávamos muito mais. Queria passar uma tarde inteira contigo jogando conversa fora, comparando nossos sonhos, ideais. És simplesmente demais, mudasses a cor do meu dia, de um céu cinza chuvoso para um céu azul ensolarado. Obrigada por tanto carinho, por tanto amor, por tantas palavras, belas palavras.
Vir aqui a cada dia e esperar um novo pedacinho de Isa, tem virado rotina, rotina agradável. Gratificante.

Ahhh como eu te amo. Assim como dissestes, te amo nos dois. No Isa interior que transparece por entre sutis palavras em um blog, e no Isa alegre de manhã cedo dando-me um bom dia inteiramente confortável.

Mais uma vez, muitíssimo obrigada pelo carinho, pelo amor, pelas belas palavras, pelo conforto, por ter mudado meu dia, por tudo! Simplesmente obrigada. Te amo muito.

Beijinhos, Carol.

Alfredo k. disse...

Boa noite!

Por uma recomendação especial vim dar uma olhada no seu blog, e tenho que dizer, foi ótima essa visita. É gratificante poder encontrar ainda gente que sabe colocar bem as palavras. O elogios do Carlos sobre você foram exatos, e me baseando em uma peripécia muito dita por ele, posso dizer que já editei livros de "muita gente que se diz escritor por aí" e que não tem o calibre das suas palavras, ver uma alma jovem esboçar tais idéias só me faz ir para cama mais feliz.
Parabéns, e deixo meus incentivos para continuar escrevendo.

Abs.

Nana Psico disse...

Por que a dor ter que vir em seguida? Não basta a da vida real? E se fantasiasse um pouquinho e permanecesse na felicidade, mesmo que contra a vontade "dela"?
Apenas sugestão...
Beijinhos e parabéns pelo post! Remeteu-me a certo momento da minha vida! Muito bem vivido...

Carlos Martins disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Carlos Martins disse...

Às vezes certos sentimentos são lapidados em nossa alma com tamanha perfeição, e ficam ali escondidos, esperando algum dia aflorar. É como alguém que está fisicamente pronto para a corrida, mas o caminho certo para se percorrer parece nunca chegar, enquanto isso caminha-se por estradas tortuosas e sem um paradeiro certo, no escuro da vida. Necessita-se de um norte, um ponto forte e seguro para, aí sim, algo tão bem lapidado aparecer.

Por outro lado, esses sentimentos, que maduros estão há tempos, desejam fervorosamente serem colhidos e apreciados pela boca certa, a única capaz de sentir o verdadeiro gosto tão bem guardado.

Nunca se sabe se é momento de entrega, de mostrar os sentimentos, mas sabe-se que esses devem ser compartilhados em uma troca complexamente amorosa, sente-se proteção, força, e doa-se carinho, prestatividade.

Há um momento em que será seguro o suficiente para abdicar do que é externo e perpetuar somente aquilo que vem de dentro, e sentir de fato aquilo que tanto deseja, é nessa hora que a entrega não virá por fraqueza, mas sim, por pura vontade de ser feliz.