segunda-feira, 21 de julho de 2008

Contos de Inverno - Chuva e abismo


- Não te compraz na falsa poesia, por favor, que ela te consome e tudo vira falso também.

Ele deixou-se inundar pela surpresa ao ver os lábios entreabertos dela, duvidando que coisas assim duras pudessem deixar sua boca pra nele repousarem, cruas. Não sorriu.


- O que disse?


- Não te compraz na falsa poesia, por favor, que ela te consome. E se a falsa poesia te consome todo o desnudo e verdadeiro torna-se falso também.


Ele soltou a mão dela, sem chão. Sorriu pequeno pra não parecer patético, sem saber que dessa forma mostrava-se assim mais do que nunca. Voltou-se, surpreso:


- E o que de falso és capaz de ver em mim, se é que podes enxergar além do véu dessa tua existência forçadamente doce e pura?


Não esperava que ela chorasse ou demonstrasse qualquer dor, e por isso surpreendeu-se com a lágrima lenta que brotou de seu olho esquerdo, percorrendo-lhe a face num caminho sinuoso e difícil como era aquele momento. Procurou as mãos dela de novo, um tanto perdido, dividido entre o arrependimento e o alívio pós-explosão. Ela deu um passo atrás, vacilando no equilíbrio precário das pernas descobertas.


- Me feres com tão pouco e mal sabes. Não te julgo nem nunca o fiz, não enxergas? Só te peço que não use de uma poesia que não carregas pra me dizer o que talvez sincero não seja. Não duvido de ti, apenas protejo-me. Sinto tanto...


E com olhos de quem pouco sabe e muito sente, perseguida pelo abstrato de uma essência mal construída, virou-se e correu.

Ele, ombros caídos e olhos secos, compreendeu de imediato o que ocorrera, já tarde. Ela era tanto e ele tão pouco, se muito. Duas almas procurando compreender-se, mas destoando de alguma maneira injusta em algum ponto inacessível.


A chuva desceu forte pra levar toda a poeira que dois corações machucados são capazes de deixar, numa noite de inverno, pairando no ar. Ele queria envolvê-la nos braços e dizer-lhe que, embora separados por aquele imenso abismo interior, havia ainda amor, e se havia amor tinha de haver também esperança e paz. Ela, correndo sem pausa, desejava voltar.


Ele não pôde mover-se; ela não conseguia parar. E a noite seguiu lúcida e insensível com seus ruídos de silêncio e calma, ignorando a intensidade do que se passara na esquina da Rua dos Sonhos com a Avenida Pés no Chão. Dar vazão ao improvável era ingenuidade, por fim?
~ Segunda-feira, 21 de julho de 2008, 20h26min.

7 comentários:

Carolina Pires disse...

"Dar vazão ao improvável era ingenuidade, por fim?"

Maravilhoso, continua isso, por favor!

Carlos Martins disse...

Apaixonante sensibilidade! Desejos tão perfeitos, cada detalhe, cada momento, cada gesto. Tão real, tão próximo, tão verdadeiro. Bonito, Isa!

Nana Psico disse...

POR FAVOR! Dê vazão ao improvável sim, deixe que se testem, que se conheçam, que se experimentem! Não vamos limitar as realizações... Seria tão bom transcrever em palabvras os sonhos que guardamos dentro de nós não tendo que limitá-los! Aproveite...
Obrigada pela sua visita sempre carinhosa. Não fique muito tempo sem ecsrever! Suas palavras são brilhantemente transparentes, me fazem imaginar cena por cena. E não se boicote... Volte sempre ao meu espacinho! Espero conseguir te proporcionar ao menos metade do que você me proporciona por aqui.
Beijo enorme! Com carinho...

júlia disse...

se mata, só isso.
se não continuares deixa que eu faço o trabalho sujo.

ahahha sei lá, muito muito muito mesmo.
brigada por tanta intensidade sincera sempre. te amo!

O Profeta disse...

O vale acorda no encontro ao mar
Engalanado por pingos do céu
A terra exulta em alegria
Tal como noiva debaixo do véu

Vem voar comigo no vale dos milhafres


Boa semana


Doce beijo

Nana Psico disse...

Recadinho prá você lá no meu blog...
;-)
Beijos!

Carolina Pires disse...

saudade disso aqui.