quinta-feira, 12 de junho de 2008

Reabra as cortinas, por favor.



Acho que eu gosto de não saber.

Às vezes o mundo pega a gente de surpresa, com pedras na mão. Apedreja até que fira, até que a gente sinta que não há mais nada além da dor cegante, do coração vazio e do sangue que escorre em forma de fraqueza e sentimentos fortes, intensos. E sentimos como se não importasse o sol que brilha lá fora, como se as ruas da cidade quisessem devorar nossos corpos com rapidez e gula, como se momentos felizes fossem miragens ou sonhos de um tempo onde ainda se podia sonhar. Tempo que parece ter ido embora, e isso dói. Esperança? Piada. O colorido de uma magia qualquer que a gente sentisse ao encarar os olhos daquele alguém especial, o pulsar do coração num dia de Natal, o dourado de sonhar com algo incrível que aconteceria só em dois ou três anos... Tudo se vai. Nada faz sentido, nada a gente quer, nada quer a gente. Acabou, é o fim, sem mais. Fechem as cortinas e apaguem as luzes do palco, por favor, que o show acabou.

Mas o mesmo mundo que explode em cima da gente, é o que estende a mão e mostra o lado bonito de tudo o que é feio. Porque tudo o que é feio tem seu lado bonito, é preciso lembrar - embora eu também esqueça às vezes.
O sorriso de um estranho na rua já traz ao menos a vontade de voltar a andar. Aquela amiga que te abraça com sinceridade quando tudo o que você pediu foi um lápis emprestado, te passa um resquício de energia, que entra bem naquele lugar que você julgava perdido e morto. E depois vem um filme bonito trazendo esperança, alguém novo na sua vida que com palavras te faz encher os olhos e sorrir pra si, a barra de chocolate com que sua mãe chega em casa, o "me orgulho de ti" que seu pai exclama ao final da leitura daquela redação que você julgava mais ou menos... E a essa altura o calor retorna, o sol parece incrível e o Natal volta a ser esperado com ansiedade e amor. As ruas monstruosas parecem acolhedoras e carregam liberdade em cada esquina. Esperança? Forte e intensa. Tudo muda.

Essa minha intensidade, que eu reclamo dia e noite sem parar, é a mesma pela qual eu agradeço quando as coisas, embora não de volta à seus lugares, não parecem mais tão fora deles. Porque sentir o mundo com todo o peso que ele tem pode sufocar, sim; mas sei que a parte boa disso tudo compensa cada lágrima e cada segundo de desespero. Ou assim eu espero. Que continue sendo, que melhore, que a sensação chegue a outros seres perdidos em sua própria melancolia, ao menos por um ou dois dias. É tempo suficiente pra respirar e mergulhar lá de novo, se assim for preciso.

Eu quero sorrir ainda mais. Dizer mais "bom dia", agradecer mais, fazer um mundo mais bonito no limite que me é concedido. E quando a dor voltar eu até sei que nada disso vai fazer sentido, mas não importa agora. E aos que dizem que tudo isso não passa de tema de filminho americano, eu contesto. Ou será que vivo mesmo meio fora de tudo o que gira com razão e normalidade?

Acenda a luz. Ah, e reabra as cortinas, por favor.

5 comentários:

Julia disse...

e os olhos se enchem de lágrimas.
Talvez seja exagero de alguém que diz com todas as letras 'eu me orgulho de ti' mesmo não sendo aquele teu herói que tanto precisa de ti nesse momento, ou então seja uma alma perdida pedindo por socorro no meio da escuridão. é tão doce o jeito que te retratas que o nó na garganta é inevitável. Não sei porque, mas as lágrimas continuam a cair. E eu só tenho uma coisa a te dizer: nunca estarás sozinha.

Carlos Martins disse...

Clarice Lispector já disse um dia: “é na solidão que está minha força”, eu, bem, eu nunca duvidei disso. São nos momentos de reflexão solitária que podemos nos conhecer melhor. E Isadora, como isso é importante para nossas vidas. Entender melhor porque sentimos certas coisas em determinados momentos. Ouso poetizar e dizer, cada vez que leio uma exclamação tua, aqui neste blog, algo estranho acontece, há uma conexão, uma complementação, e assim como a solidão da Clarice, eu consigo ter forças para refletir exatamente aquilo que importa. Lendo teus textos, eu me conheço melhor, te conheço melhor, é a junção de metades que se complementam em um só pensamento.
Imagine uma águia no topo de uma montanha mirando sua caça(ainda viva) lá embaixo,que se esconde pretendendo proteger sua vida. O que enxergar com intensidade? A vida da presa? Ou a fome da águia? O que é bom? O que é ruim? Algo vai acontecer, e o teu sofrimento vai depender de quem você estava torcendo. A águia ou a caça? Percebe que em um só momento existem duas maldades(sofrimentos) e duas bondades(felicidades)? Escolher um time às vezes faz toda a diferença, reduz as chances de sofrimento. Você tem perfeita sensibilidade para intensificar qualquer tipo sentimento. Ser normal é ser você mesma, e neste sentindo, enxergo uma pessoa maravilhosa. Melhorar, é focar aquilo que você deseja e entender, que tudo depende da forma como vemos as coisas.

Acenda a luz. Reabra as cortinas, chegou a hora da tua apresentação!

Carlos Martins disse...

PS.: Às vezes mesmo rodeados de gente, em meio a multidão, nos sentimos sozinhos, difícilmente alguém enxerga isso. Se te fizer bem, ofereço minha compreensão.
Um grande abraço!

julia disse...

brigada etzinha. por tudo isso que entorpece e conforta quando eu leio alguma coia tua, tão bonita, tão pura

Carla Quadros disse...

"...e tanta gente sem perceber o quão algumas pessoas percebem coisas imperceptíveis pelos seus olhos insensíveis..."
Tão nova, tão doce, tão sicera...
Conhecer pessoas assim me dá vontade de viver mais e mais...
Seus pais devem ter muito orgulho de você. Um beijo