terça-feira, 10 de junho de 2008

Longe de mim




Eu não queria outra vida, não é isso. E eu tenho idéia do quanto pode parecer fútil e imaturo colocar pra fora o que dá nó na garganta em um blog, um lugar público, ainda mais quando o endereço não é algo exatamente secreto. De qualquer forma, embora sempre amendrotada pelo fantasma da possível futilidade, eu sinto vontade e vou sempre fazê-lo. Se aliviar um terço, é lucro e me basta. Que outra opção eu tenho?

Problemas são coisas relativas e superáveis, sei bem. O tempo todo ouço dos outros que tudo se resolve, tudo se vai, que o tempo cura e as coisas se encaixam em seus devidos lugares quando se menos espera. Eu mesma uso desse discursso já bem ultrapassado pra consolar amigos, mas às vezes é difícil crer na própria canção, como eu disse uns dias atrás por aqui. E quer saber? Eu hoje não quero crer em coisa alguma.

Não sei se é sensibilidade, se é imaturidade, se é ser infantil, fútil, pequena ou o que for. Sei que dói aqui dentro ver as coisas desandando, os problemas se acumulando e a vida se instabilizando a cada novo dia, com raras exceções de tempos de paz, os quais eu nunca deixei de agradecer. Dos cinco anos que se passaram desde que eu vim pra essa cidade o estado tem sido sempre de "vamos ver no que dá", de " aguenta mais um pouco que passa", de "eu sei que você é forte, Isa". Legal, talvez eu seja mesmo forte. Mas é demais querer dores condizentes com a minha idade, minha experiência e a fase pela qual eu deveria estar passando?

Eu nunca fui de reclamar. Cresci feliz numa família incrível, sem decepções gigantescas ou situações desesperadoras. Até os meus dez ou onze anos tudo de que eu podia reclamar era do fato de não ter Mc Donald's na cidade onde eu morava ou coisa que o valha. O tempo passou, no entanto, e trouxe o inesperado turbilhão de verdades cuja aspereza eu só esperava conhecer em cinco anos ou mais e, mesmo assim, segui sorrindo pra vida e tentando ajudar meus pais a superar a fase ruim. Só que certas coisas, certas descobertas e certas batalhas deixam marcas complicadas de se ignorar, mesmo depois que tudo passa. Pior ainda quando não passa.

Não, eu não sou infeliz. É só que tenho problemas relativamente grandes, dores inexplicáveis (ou talvez nem tanto) e tristezas repentinas de origem que, embora eu saiba existente, ainda desconheço. As minhas fugas são os livros, meu remédio a escrita, e a proteção meu silêncio verbal. Essa vontade de fugir pra bem longe que ninguém compreende tem mil explicações que eu prefiro esquecer.

Talvez o verdadeiro anseio seja inalcançável. Vai ver eu só preciso de um tempo longe de tudo isso aqui dentro que perturba e fere desse jeito. Não queria saber e enxergar tanto assim.
Quem sabe eu só ande precisando de um tempinho longe de mim.

Passa, tempo, mas passa logo. Vem universidade, vem futuro, vem o jornalismo, a psicologia, o teatro ou seja lá o que for. Só muda tudo isso, por favor. Preciso da proximidade de um destino que dependa, por inteiro, daquilo de que sou capaz.

3 comentários:

Carlos Martins disse...

Olá Isadora!
Não curso psicologia, apesar dela fazer parta da minha vida desde muito tempo(muito tempo mesmo), minha opção por enquanto foi não toma-la como disciplina. Não me vejo em uma clínica cuidado de “pacientes”. O que me fascina é o comportamento humano em si, e as conseqüências que certas atitudes tem na nossa vida. Sou algumas vezes contestador, talvez por isso curse Direito, e ainda teimo em contrariar algumas regras de alguns Doutores que encontro por aí. Uma história longa, cheia de detalhes, mas que me ensinou no mínimo uma coisa, neste mundo o que existe é uma infinidade de pessoas mal compreendidas e uma raridade quase extinta de pessoas com vontade de entende-las. É isso que me toca. É isso que me desperta a vontade sublime de respeitar o teu espaço íntimo e ao mesmo tempo estender uma mão para que possa se expandir.

Este fantasma da futilidade, está mais do que vivo, e é justamente ele que às vezes nos desencoraja(até com uma certa razão) a revelar um pouco do que sentimos ao mundo externo. Teu receio é normal, tua coragem, aliviadora.

Problemas, pedrinhas que entravam nosso caminho. Imagine que não seja importante defini-los, o que vale é como os sentimos. Todo problema é resolvível, o que eu me importo é o que sentimos quando temos problemas. Se você é forte? Sua força é palpável. A grande tarefa é perceber que dores de hoje somam-se a dores de ontem, e de anteontem, e nenhuma delas saiu ainda. Sentir alívio nessas horas, é com tomar Dorflex para deixar de sentir uma dor muscular, e no dia seguinte esforçar o mesmo músculo achando já ter resolvido o problema. A pessoas, mesmo que sem querer, nos encharcam de sentimentos-dores e se esquecem de nos ajudar a retira-los. Quando esses sentimentos não colidem, sentimos paz, mas qualquer reação perigosa e tudo se agita novamente.

Você não é doente, imatura ou infantil. É simplesmente humana demais. Percebo que tem uma capacidade enorme de produzir sentimentos, até mesmo vendo um por do sol, por exemplo. E quando estes sentimentos são compilados com outros nem tão agradáveis, surge uma confusão. O intrigante é que você tem a solução para sempre sentir-se aliviada, e isso é exatamente fugir um pouco de você. Você possui uma extrema capacidade de absorver informações e transpassa-las exatamente da forma que sentiu, e qualquer profissão em que isso seja válido, fará da tua capacidade uma constante expansão.

Um grande abraço!

jú disse...

eu só queria conseguir dizer um terço de tudo o que trava na garganta quando eu leio algo assim, tão grande, tão bonito, tão doce, e ao mesmo tempo tão doído. a compreensão chega ao cúmulo de machucar por não conseguir pôr pra fora a montanha-russa que se forma aqui dentro, que depois de tanto tempo já deveria ter se acalmado e não deveria se surpreender tanto. mas continuas te superando.
e eu já aceitei que contigo vai ser sempre assim, que não inventaram palavra no mundo ainda que seja suficiente pra dizer tudo o que eu queria, e tudo o que eu precisava.

eu sei dessa pressa, sei melhor do que eu queria, mas sei também que amanhã, quando esse hoje indefinido passar, a saudade vai sufocar.
a proximidade do futuro que depende de nós tá muito mais perto que a gente imagina.
etzinha, já me dissesse pra não parar nunca, e eu te digo o mesmo, pelo amor de Deus

cássia guerra disse...

Nossa Isa, como escreves bem! Acho que já cansasse de ouvir isso né.
Enfim..
sobre desejar que o tempo passe logo e que o futuro que a gente tanto planeja chegue rapidamente, eu sinto exatamente a mesma coisa. Mas sempre lembro de uma citação que 'pausa' essa minha angustia e impaciencia. Espero que também te ajude..

“Dwayne - I wish I could just sleep until I was eighteen and skip all of this, high school, everything.
Frank - [explica que Proust acreditava que o sofrimento faz de nós quem nós somos] So if you go to sleep until you're 18...? Think of all the suffering you're gonna miss! High school's your prime suffering years! You don't get better suffering than that!”

obvio que ja deves ter escutado isso em algum lugar, little miss sunshine. ;)
Bom.. é isso entao haha.
Beijos, a gente se esbarra pelo colegio =**