segunda-feira, 9 de junho de 2008

Fina linha. Fim da linha, não.

É tão fina a linha. Tão fina essa linha que separa a vida da morte, o mundo nosso daquele que tanto tememos, o último suspiro do respirar intenso e eterno que eu, imperfeita, julgo como o depois.
Não sei se tenho medo. Uma coisa é a resposta quando se está filosofando num fim de tarde com os amigos. Quando alguém que amamos está em um leito de hospital, em lençóis transpirados de um suor amendrotado, pelo motivo que é, por uma razão escolhida pra si, embora não se soubesse das consequências antes, a resposta é outra.
Não temo tanto por mim. Não temo por ele, pela sua dor, embora isso me rasgue o peito quando fecho os olhos e imagino que ele agora não enxerga tão bem, que seu corpo incha a cada novo dia e que as palavras amargas de alguém já tomado pela idade e pela vida não saem mais de sua boca com a mesma intensidade. Temo pelo meu pai, por seus irmãos, temo pelo impacto que tudo isso gera em quem ama.

É tão fina a linha. Tão estranho isso, tão estranho que a força possa ser fraca às vezes. Ouvir a voz do meu herói no telefone fraquejar porque o herói dele fraquejou. E será que eu devo fazê-lo também?
Meu avô. A gente nunca dá o valor devido aos avôs por aí, podem crer nisso. Aqueles abraços no Natal, as moedinhas bem-vindas pra comprar chiclete no barzinho da cidade pequena de infância, os abraços apertados e os conselhos exagerados. A gente sorri, diz que ama, sente saudade uma vez por ano, mas não raro esquece de parar e olhar pra ele, pra sabedoria que ele emana, pra força do tempo que não só traz rugas como também marcas no olhar. Esquece desse olhar, que diz coisas incompreensíveis aos sete, estranhas aos doze e aparentemente patéticas aos quinze. Dá pra entender, não é estranho e nem patético. Porque a gente esquece que ter dezesseis é saber menos e querer saber mais.

Fica tudo meio sem sentido. A gente volta no tempo e refaz momentos, tentando concertar erros que talvez nem tenham sido tão grandes assim. Família unida eu sempre tive, é fato, mas quando é que me entreguei por inteiro a uma reunião daquelas anuais, sendo eu mesma e demonstrando toda a admiração e saudade que sinto por todos eles? Por ele, pelo meu avô?
Eu nunca fui eu mesma com meus amigos, meu diário ou minha solidão. Tem alguma Isadora aqui dentro que sequer conhece a si mesma, e eu já desisti de descobrir se isso é a confusão da adolescência ou o reflexo de um coração que diverge dos demais, de uma alma cansada, de um peso íntimo que não mais assusta e veio pra ficar.

Só esperança, então. De que o meu herói retorne à nossa casa com aquele brilho de sabedoria e amor no olhar, e que ele tire esse brilho dos olhos do herói dele. Que ele o recupere também.
"Vai dar tudo certo". Não o tudo que as pessoas dizem o tempo todo que dará e que, não raro, é só ilusão, mas o tudo que eu vejo no horizonte dos meus sonhos, dos meus medos, dos meus arrependimentos e dos meus anseios. Esse tudo movido a amor que eu desejo que dê certo pra ele, pra mim, pra gente. Que caia do céu junto com a chuva que, lenta e suave, começa a passar. E que molhe de vez. Encharque.

2 comentários:

Carlos Martins disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Carlos Martins disse...

Certa vez, em conversas com “adultos”, o assunto da vez era a capacidade de alguém mais jovem, um adolescente, por exemplo, participar de uma conversa mais “séria” e ter conhecimento ou gabarito suficiente para dar alguma opinião. Idéias daqui e dali, resolvi não participar, pois provavelmente a conversa tomaria outro rumo. Experiência(digamos idéias argumentativas de valor) para mim existe também nos sentimentos às vezes“confusos” da juventude, em alguns casos é claro. É bonito ver sentimentos borbulharem na alma de alguém que quer entendê-los, ou ao menos apaziguá-los. Tuas palavras Isadora, cada vírgula, cada letra, refletem sutilmente a pessoa que você é. Longe de definir por completo quem você é, mas é um passo importante para te compreender melhor. Imagine uma concha, forte, e que protege os sentimentos mais íntimos. Essa proteção de tão eficaz, vai criando pérolas perfeitas com pitadas de nostalgia momentânea e que às vezes te faz chorar. Tantas palavras queriam ser ditas, tantos sentimentos sentidos,e a proteção gera dúvidas quando se tenta voltar no tempo, pois não há tempo passado, ta tudo ali, guardadinho no presente(futuro presente). É na mesma fina linha que separa a vida da morte que em “nós”, está ligada a fina linha da esperança. E é de um estranho que admira tuas palavras, que fica o pensamento positivo, para você e para todos os teus heróis.
Um grande abraço!