quarta-feira, 18 de junho de 2008

Do que se vê no espelho. No de dentro.

Ela abriu os olhos e sentiu o calor das cobertas macias. Levantou de um pulo e andou, sem pressa, até o banheiro pequeno que ladeava a porta do quarto escuro. Adjetivos demais.
Olhou no espelho como sempre olhara, sem intimidade, sem paz. Uma estranha no reflexo nítido e tão figuradamente distorcido. O relógio mal marcava sete horas e ela sentia que era tarde pra tanta coisa...

Não quis voltar a dormir. Seu tempo de "foda-se o mundo" se prolongava havia quase três dias e já sentia que tudo estava muito errado. Embora quisesse com todas as forças, não sabia fazê-lo: acordar em um dia qualquer de junho e decidir que não precisa de ninguém também não era a solução, pelo jeito. Precisava mais do que indiferença pra encontrar a resolução da incógnita que ela própria sempre sentira ser.

Não cabem eufemismos ou metáforas no que ela sentiu ao encarar o espelho de novo: era uma menina feia, suja e machucada. Menina. As garotas de dezesseis anos não deviam chamar a si próprias mulher?

E a luz do sol não entrava pela janela naquele amanhecer. Nada além dela, tão dentro do espelho e tão fora de si, como uma projeção enfraquecida e sem cor. Sentia que, se movesse os lábios e tentasse uma única palavra, alguma coisa dentro dela se quebraria para sempre. Não aquilo que os outros, tolos, chamavam amor; isso era pequeno quando comparado àquela sensação aparentemente inata. Era algo muito maior do que qualquer desses sentimentos que reluzem na gente e vez ou outra nos fazem pensar. Era o existir. Sem filosofias, sem crises existenciais, sem melancolia forçada ou meia dúzia de palavras medidas em conta-gotas. Só existir, por dentro. E estranhar a si mesma. Essa coisa de produzir anti-corpos fortes contra a própria essência, simplesmente por não reconhecê-la no coração e na mente. A alma dela não era sua própria morada, triste.

Talvez por isso sentiu o que sentiu. Quem sabe foi esse o motivo de ela ter querido quebrar o espelho à frente, ou a razão a qual não deixou que mexesse sequer um dedo. Não era sua. Não havia um ela, não havia um dela. Era isso, não resta dúvida. O motivo pelo qual seu coração almejava um alguém distante e desconhecido, sem rosto nem voz, estava claro como nunca estivera seu olhar: precisava de um lugar pra ser ela, pra ser dela, pra ser. Não sabia onde era, não sabia em quem. E pouco importava, agora. Dentro dela é que não era.

7 comentários:

Carlos Martins disse...

Detalhes...

Li teu comentário às 3h15min. Antes disso, havia passado o dia resolvendo coisas com gente ignorante. Às 3h35min fui pra cama, e até às 6h45min, refleti muito sobre, talvez, o comentário mais simples que tenha feito até agora, mas sem sombra de dúvidas o mais importante. Enxergar detalhes para mim sempre foi uma rotina, mas nesta madrugada refletindo sobre tudo o que ouvi durante o dia e sobre o teu comentário, cheguei a conclusão, de que se você não fosse um detalhe, um mundo perderia muito. Querer enxergar você pelas palavras que sabiamente manipula é um erro, primeiro porque você conhece experiências que até nunca vivenciou, e mesmo assim pode ser mais realista com isso do que quem participa delas todos os dias, e segundo, porque em cada palavra que expressa, há uma vontade de complementação, como se lançasse ao ar charadas para serem descobertas por alguém capaz, é como se fosse um grito de socorro camuflado em palavras agradáveis.
Detalhes...

“Consome energias do coração”, fazia tempos eu não via alguém com a alma tão prestativa Para mim, essa frase tua, soa como querer permanecer perto de quem precisa, e compartilhar sua dor, o que para mim é puramente altruísta. Incrível...
Detalhes...

É difícil, Isadora, mostrar da forma mais adequada, aqui, comentando por blogs, mas durante minha reflexão surgiu algo muito importante, que deve ser compartilhado com você, talvez nada que você já não saiba. O mundo todo especial que você tem aí guardadinho, todo detalhado, é vivido com a mesma intensidade com a que você vive o mundo aqui de fora, mundo de fragilidades humanas, mesquinharias e fraquezas. Eu entendo perfeitamente que toda vez que esse transporte ocorre, há desilusão, há desencontro, há ódio, mas há amor, e talvez, o mais verdadeiro de todos. Esse teu mundo especial, existe sim, digamos que para vê-lo todo o tempo, é preciso um óculos mágico, e mudar a visão das coisas. Os significados verdadeiros para as tuas palavras só podem ser entendidos quando se enxerga tudo isso, caso contrário, as pessoas serão sempre hipócritas dizendo te entender, você deve saber isso muito melhor do que eu...
Poucas pessoas estão tão prontas para se sentir mulher como você está. Admiro muito, e isso é sincero, acredite, teu caráter, tua competência, tua prestatividade, e acima de tudo, admiro a pessoa que você é verdadeiramente, que em nada precisa mudar, apenas se libertar. É hora de vivenciar um pouco de tudo aquilo que deseja intimamente.
Não dá pra falar muito aqui, espero que tenha passado um pouco do que eu percebo dos teus detalhes importantes.
Boa semana de prova.
Um graande abraço!

Carolina Pires disse...
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Carolina Pires disse...

Leio teus textos com o mesmo carinho, precisão, atenção e cuidado que leio uma bíblia. A cada linha uma incógnita, um sentimento diferente, perfeitamente delineados com a ponta do lápis ou com as pontas dos dedos frios no teclado do computador, se é que se rendes à tecnologia tão ágil. Amo, amo mesmo decifrar-te os pensamentos, mesmo que não consiga chegar a lugar algum. Viajo. Não pára. NUNCA!

Te amo Isa.
Beijinhos, Carol.

cássia guerra disse...

Isa, gosto de todos teus textos mas me permita dizer que esse, em expecial, achei fantástico.
Dá pra perceber a influência da leitura que tens feito de Caio F nessa linhas.
Belas palavras, um belissimo texto.
Beijos, Cá.

teste disse...
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Carlos Martins disse...

Além da cama e dos livros, quando sentir vontade de algo mais, de compartilhar a tua realidade, ou simplesmente conversar com um "estranho" que de vez em quando te "assusta" um pouco, fique a vontade, será ótimo:

carlos-ms@hotmail.co.uk

Pensei em escrever aqui, mas seria muita coisa. Engraçado, com nossos comentários, aqui e lá, criamos um blog paralelo, um diário compartilhado, interessante isso.

.....
A tua realidade, não é para mim tão estranha assim...

Abração!

júlia disse...

.
não sei etzinha. pela primeira vez na vida eu to tão sem palavras como eu nunca estive antes, pra nenhuma outra coisa. sempre é assim contigo e eu devia estar acostumada, mas dessa vez foi mais forte, e ficar tentando descrever essa coisa absurda só vai estragar.
nem um "continua, por favor", ou "muito obrigada, de coração", vai servir hoje. entrasse mais aqui dentro do que eu jamais estive, sei lá