domingo, 11 de maio de 2008

Que assim seja

Ah, meu Deus, traz um pouco de paz pra esse coração de mãe. Que eu não sou ninguém pra julgar, pra saber e pra supor o que quer que seja eu já sei, mas me permite ao menos a certeza de que haverá qualquer tipo de consolo vindo aí de cima. Não sou mãe e creio ainda faltar tempo pra tanto, mas no meu coração arde o instinto da mulher que, por vontade ou por destino, um dia vai compreender a dádiva que é ter nos braços um ser que saiu de si.
E dá forças a mim, também. Que na minha sensibilidade, tantas vezes irritante e tantas outras inconveniente, eu encontre a fé e a certeza de que um algo a mais está sempre por vir. Porque a dor de ver uma mãe falando da filha, a dor de constatar que um ser ainda sem vestígios da maldade que esse mundo corrompido nos rende foi arrancado dos braços daquela que a trouxe a vida e a amou, é algo grande demais pra que eu possa digerir e compreender. Compreensão. Dá compreensão a todos que com sinceridade se deixaram tocar pela história da menina Isabella. E luz também, meu Deus, aos causadores disso tudo, que numa loucura imperdoável aos nossos olhos imperfeitos trouxeram dor desnecessária e pesos incalculáveis aos corações do Brasil, e a um em especial.
Traz também justiça. Não essa que o nosso sistema incoerente tenta dar com métodos tão ásperos, mas a justiça de verdade, essa divina que a gente desconhece, a qual serve pro tanto que ainda havemos de encontrar nessa e em outras existências. E com essa justiça traz esperança, Senhor, de que o inconcebível possa ser um dia palpável aos nossos sentidos, cansados de tanta barbárie e desumanidade. Carrega de amor as lágrimas dos que sentem tudo isso na própria pele, e de sinceridade a indignação dos que indignados se mostram agora. Tira de mim a futilidade de crer nesse caso como digno de atenção especial, pois que sei bem que a maldade do mundo atinge limites ainda mais impensáveis. Mas dá também, a mim e a todos, o direito de gritar essa dor junto com os que a sentiram de mais perto, direito esse concedido a todos que zelam e buscam por um mundo mais alvo. Eu quero só um pouquinho de paz pra ela, a quem não foi dada uma despedida digna ou uma preparação. E àquela menina, meu Pai. Que ela suba aos céus como um anjo que agora manda raios de sol diários à todos que por ela oraram. Que sua alma seja instruída, seus passos guiados e sua evolução concebida, da forma que eu, humano imperfeito e atrasado, penso ser justa e esperada.
E por último, eu peço proteção. Vida longa aos que me cercam, por mais que eu saiba não depender de mim e da minha vontade. Nem da Tua, bem sei, pois que “o mal não é obra Tua, Senhor” e ele só arde “nos que nele se comprazem”. Que o destino, então, ou o que quer que seja essa força que leva tão cedo e inesperadamente os bons, trate de manter ao meu lado, pelo maior tempo possível, os que eu amo. Se a dor dos outros pode ser assim tão imensa aos meus olhos, não quero precisar pensar na minha própria como algo real.
Que a religiosidade e o espírito de inconformidade não sejam confundidos com a ignorância e curiosidade do ser humano, esse que possui instintos e interesses tão assustadores.

Que assim seja.

Um comentário:

just.cássia disse...

Nossa, achei pleno. Traduzisse em palavras tudo que todas as mulheres, principalmente, estao sentindo.
Lindo texto Isa.

Beijao..