segunda-feira, 19 de maio de 2008

Avulsos de Maio

"O andar natural eu não me permito. O passado era um tempo onde a dor ardia organizada, onde eu tinha controle e pensava estar perdida. De rabisco em rabisco nessas folhas brancas eu fui me destruíndo e reconstruíndo, sem arquitetar nada, à mão solta e só. E agora o sufocar de um dia me parece tão quieto, o peso do passado tão nostálgico, a vida minha algo tão disforme e sem cor. Tudo em mim vem com o prefixo pseudo, porque já não sei se creio em minha própria canção. Meu sorriso é decorado, meu olhar ensaiado, minhas palavras medidas o tempo todo e sempre. Em qual dessas muitas eu encontro a mim?"

- 19/05

"O tema dos meus sentidos, ao contrário do que sempre imaginei, não é uma constante. Sinto que me movo à quebras de rotina, novidades e coisas preferencialmente descartáveis. Do contrário, na calmaria, me cansa até o respirar. Tem me assustado a maneira como só sei ser inconstante. E tem me feito mal a percepção do quão menos intensa do que falei eu realmente sou. Na minha pressa de ser eu passei reto pela auto-construção, transformando a mim mesma em um fantasma sem forma nem sentidos definidos. Minha culpa, eu sei.
Meu Deus, não posso com isso. Não posso com a sensação de que tudo o que eu pensava ter de melhor era só ilusão. Pra onde foi meu dom? Onde foram parar as palavras desequilibradas e carregadas de poesia inata que outrora saíam de mim como pedaços de alma escorrendo pela folha? Em que lugar se escondem o medo que inspira e a nostalgia que toca fundo, com a sensibilidade do papel fino sobre a água? Eu encaro as linhas vazias e, devorada pelo próprio sentir, tento pôr pra fora toda a angústia e o pavor de ser o que eu sou e ver o que eu vejo. É a ação íntima de apertar o lápis na mão, unhas cravadas na carne, e receber o reconhecimento do espaço vazio e do objeto, tão amigo e quieto. Intimidade que me abandonou, sinto cada vez mais. Toco a folha e o que sai vem sem o encanto do que eu julgava uma alma encharcada de inspirações incessantes. Será chegado o momento em que, além da ausência de compreensão humana, vou ter de aprender a sobreviver sem a força da escrita de subsistência que me segura em pé? Confundiram meu sorriso convencional com felicidade plena e inédita e me tiraram o entorpecente, julgando-me curada? Pois eu imploro que reconsiderem. Minha arte é meu ar e eu preciso, como nunca, respirar de novo."
- 16/05

Um comentário:

jú disse...

já te pedi pra continuar a remar, pra continuar a escrever, pra continuar a ser e nada disso nunca basta pra ti. não, eu não consigo nunca deixar de ver o brilho que tem por trás de tudo o que escreves, ainda que tu insista em dizer que andas fraquinha e que nada mais é carregado de poesia.
ah, é sim et, e COMO é.
mas eu sei que as coisas andam meio estranhas. sei lá, aqui também, como sempre.