terça-feira, 27 de maio de 2008

Colorindo (ou enfeite)






Eu tenho sido consumida pela imbecilidade de atribuir importância à opinião alheia. E nenhum escritor sobrevive à perseguição da sensação de futilidade sem sentir-se pequeno e mentiroso. Mas como diria um ET conhecido meu, escrever é mentir, sempre foi.


É só que no momento em que se acredita nas próprias mentiras, elas não só parecem reais como também estúpidas. E eu creio demais nas minhas.




Pára de enfeitar os sentidos, pega na física e finge que é fácil. Quem sabe assim se torne mesmo.




às vezes dói, mas mesmo quando não a gente sente e fala.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Avulsos de Maio

"O andar natural eu não me permito. O passado era um tempo onde a dor ardia organizada, onde eu tinha controle e pensava estar perdida. De rabisco em rabisco nessas folhas brancas eu fui me destruíndo e reconstruíndo, sem arquitetar nada, à mão solta e só. E agora o sufocar de um dia me parece tão quieto, o peso do passado tão nostálgico, a vida minha algo tão disforme e sem cor. Tudo em mim vem com o prefixo pseudo, porque já não sei se creio em minha própria canção. Meu sorriso é decorado, meu olhar ensaiado, minhas palavras medidas o tempo todo e sempre. Em qual dessas muitas eu encontro a mim?"

- 19/05

"O tema dos meus sentidos, ao contrário do que sempre imaginei, não é uma constante. Sinto que me movo à quebras de rotina, novidades e coisas preferencialmente descartáveis. Do contrário, na calmaria, me cansa até o respirar. Tem me assustado a maneira como só sei ser inconstante. E tem me feito mal a percepção do quão menos intensa do que falei eu realmente sou. Na minha pressa de ser eu passei reto pela auto-construção, transformando a mim mesma em um fantasma sem forma nem sentidos definidos. Minha culpa, eu sei.
Meu Deus, não posso com isso. Não posso com a sensação de que tudo o que eu pensava ter de melhor era só ilusão. Pra onde foi meu dom? Onde foram parar as palavras desequilibradas e carregadas de poesia inata que outrora saíam de mim como pedaços de alma escorrendo pela folha? Em que lugar se escondem o medo que inspira e a nostalgia que toca fundo, com a sensibilidade do papel fino sobre a água? Eu encaro as linhas vazias e, devorada pelo próprio sentir, tento pôr pra fora toda a angústia e o pavor de ser o que eu sou e ver o que eu vejo. É a ação íntima de apertar o lápis na mão, unhas cravadas na carne, e receber o reconhecimento do espaço vazio e do objeto, tão amigo e quieto. Intimidade que me abandonou, sinto cada vez mais. Toco a folha e o que sai vem sem o encanto do que eu julgava uma alma encharcada de inspirações incessantes. Será chegado o momento em que, além da ausência de compreensão humana, vou ter de aprender a sobreviver sem a força da escrita de subsistência que me segura em pé? Confundiram meu sorriso convencional com felicidade plena e inédita e me tiraram o entorpecente, julgando-me curada? Pois eu imploro que reconsiderem. Minha arte é meu ar e eu preciso, como nunca, respirar de novo."
- 16/05

domingo, 11 de maio de 2008

Que assim seja

Ah, meu Deus, traz um pouco de paz pra esse coração de mãe. Que eu não sou ninguém pra julgar, pra saber e pra supor o que quer que seja eu já sei, mas me permite ao menos a certeza de que haverá qualquer tipo de consolo vindo aí de cima. Não sou mãe e creio ainda faltar tempo pra tanto, mas no meu coração arde o instinto da mulher que, por vontade ou por destino, um dia vai compreender a dádiva que é ter nos braços um ser que saiu de si.
E dá forças a mim, também. Que na minha sensibilidade, tantas vezes irritante e tantas outras inconveniente, eu encontre a fé e a certeza de que um algo a mais está sempre por vir. Porque a dor de ver uma mãe falando da filha, a dor de constatar que um ser ainda sem vestígios da maldade que esse mundo corrompido nos rende foi arrancado dos braços daquela que a trouxe a vida e a amou, é algo grande demais pra que eu possa digerir e compreender. Compreensão. Dá compreensão a todos que com sinceridade se deixaram tocar pela história da menina Isabella. E luz também, meu Deus, aos causadores disso tudo, que numa loucura imperdoável aos nossos olhos imperfeitos trouxeram dor desnecessária e pesos incalculáveis aos corações do Brasil, e a um em especial.
Traz também justiça. Não essa que o nosso sistema incoerente tenta dar com métodos tão ásperos, mas a justiça de verdade, essa divina que a gente desconhece, a qual serve pro tanto que ainda havemos de encontrar nessa e em outras existências. E com essa justiça traz esperança, Senhor, de que o inconcebível possa ser um dia palpável aos nossos sentidos, cansados de tanta barbárie e desumanidade. Carrega de amor as lágrimas dos que sentem tudo isso na própria pele, e de sinceridade a indignação dos que indignados se mostram agora. Tira de mim a futilidade de crer nesse caso como digno de atenção especial, pois que sei bem que a maldade do mundo atinge limites ainda mais impensáveis. Mas dá também, a mim e a todos, o direito de gritar essa dor junto com os que a sentiram de mais perto, direito esse concedido a todos que zelam e buscam por um mundo mais alvo. Eu quero só um pouquinho de paz pra ela, a quem não foi dada uma despedida digna ou uma preparação. E àquela menina, meu Pai. Que ela suba aos céus como um anjo que agora manda raios de sol diários à todos que por ela oraram. Que sua alma seja instruída, seus passos guiados e sua evolução concebida, da forma que eu, humano imperfeito e atrasado, penso ser justa e esperada.
E por último, eu peço proteção. Vida longa aos que me cercam, por mais que eu saiba não depender de mim e da minha vontade. Nem da Tua, bem sei, pois que “o mal não é obra Tua, Senhor” e ele só arde “nos que nele se comprazem”. Que o destino, então, ou o que quer que seja essa força que leva tão cedo e inesperadamente os bons, trate de manter ao meu lado, pelo maior tempo possível, os que eu amo. Se a dor dos outros pode ser assim tão imensa aos meus olhos, não quero precisar pensar na minha própria como algo real.
Que a religiosidade e o espírito de inconformidade não sejam confundidos com a ignorância e curiosidade do ser humano, esse que possui instintos e interesses tão assustadores.

Que assim seja.