terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Café e torturas


- Eu só queria não ter todos os dias essa dúvida incômoda sobre agir como agi por tantos anos, ou tomar o cuidado de fazê-lo de acordo com a pessoa que construí ultimamente. Difícil saber o que é mais certo. Essa racionalidade me cansa.

Um curto suspiro.

- Acho que quero ser eu outra vez, se é que me entende.

E sorveu o resto de café num único gole, perplexa. Queria mesmo era voltar no tempo, desesperada que estava. Ter, por Deus, seu mundo nas mãos.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Pisar no real


"No meu demente exercício para pisar no real, finjo que não fantasio. E fantasio, fantasio. Até o último momento esperei que você me chamasse pelo telefone. Que você fosse ao aeroporto. Casablanca, última cena."


Ela fechou o livro e sorriu, irônica, para o próprio peito. Outrora pulsante, seu coração parecia fraco o suficiente ao ponto de tornar possível uma morte forjada. Por alguns segundos, perguntou a si mesma o que aconteceria se estendesse o próprio corpo ao chão, fechasse os olhos e segurasse a respiração pelo maior tempo possível. Talvez fosse tão convincente que ela própria sentiria medo do que veria ao despertar.


Observou a capa do livro em silêncio. O nome "Caio Fernando Abreu" naquelas letras garrafais trouxe à tona alguma coisa pouco doce. Uma cópia perfeita do amargo antigo que sentira naqueles tempos de cólera, dor e suspiros cansados. E suspirou, cansada. Queria lembrar-se de tudo com exatidão incontestável.


Não era culpa dele. Se estava agora aos pedaços, sentido a vida esvair-se como um líquido rejeitado por seu corpo com rapidez, devia isso ao próprio coração errante. Se seus olhos enchiam-se de secura extrema no lugar das lágrimas sensíveis que antes os banhavam, se havia em seus passos incertos um tom mecânico e repetitivo, ao contrário da doçura com que andava ao lado dele, a culpa cabia apenas à ela própria, sabia bem. Ele era só mais um homem mostrando-se pouco disposto a satisfazer suas expectativas de ser ela mesma o tempo todo sem hesitar. Só mais um que não foi capaz de amá-la. Duro, cruel e insensível, sim. Mas inocente.


Levantou-se sem pensar, de súbito, quase como se um despertador interno houvesse tocado naquele instante. Observando a tarde vazia pela varanda do segundo andar, enquanto fitava a grama banhada pelo sol fraquejante, resolveu fechar os olhos e testar a si mesma.


O rosto dele. Seu cabelo, seu nariz, os lábios de uma amargura tão doce. As mãos enormes e delicadas, a altura inconcebível e os braços fortes que tão facilmente a faziam relaxar. Os olhos dele. Aquele olhar penetrante e profundo - descrição clichê, insuficiente. Os olhos que ela evitara no próprio pensamento pelas últimas semanas. E foi então que o medo a invadiu.


Com facilidade, como se recebesse permissão repentina, a sensação de perda percorreu primeiro seus músculos, sem dó, fazendo com que desabasse pesadamente na cadeira frágil atrás de si. E passou aos ossos. Corroendo, carcomendo, perfurando e adentrando um por um, crueldade explícita, a dor de não tê-lo por perto era como veneno de ação retardada. Bebido com fé por sua doçura, era agora o mal do qual ignorava sofrer há tanto.


O rosto enterrado nas mãos, ela percebeu: quentes, rolantes e esperadas, as lágrimas as quais sufocavam sua garganta e seu peito agora percorriam um caminho longo pelo seu rosto, seu pescoço e seus cabelos negros. Aqueles cabelos antes esvoaçantes, mas que não eram capazes de se mover um milímetro sequer sem que sua mão estivesse na dele. Perdê-lo era perder-se. Piegas, mas real.


Não sabia definir. Era alívio o que sentia? Poderia a dor cortante ser mais bem-vinda que o torpor imediato no qual entrara quando ele se foi? A vida mecanizada que vivia até aquele momento, apesar de cômoda, seria capaz de trazer mais danos que o poço fundo no qual mergulhava a cada novo segundo?


Decidiu que sim, sim e sim. Embora tomada pelo medo do que viria a seguir, por mais que sentisse cada pedaço de seu corpo sofrer os efeitos da porta trancada há tanto sendo aberta por completo, resolveu aceitar que assim era melhor. Quando se leva uma vida de comodidade forjada se é também capaz de viver na superfície, sim, pelo tempo que for. Mas no momento em que se permite emergir no poço mais profundo, não há pavor ou dor que sobreponha a verdade feita de esperança que se estabelece: há paredes? Há escalada. E o fim do poço ficava acima da superfície. Acima o suficiente pra que ela abrisse suas asas, por mais quebradas que estivessem, e tomasse o impulso necessário pra deixar tudo pra trás. Acima o suficiente pra que seus cabelos pudessem novamente esvoaçar com graça. Era o bastante pra que pudesse voar.

Manuscritos

"Não, meu bem, não adianta bancar o distante: lá vem o amor nos dilacerar de novo."
- Caio Fernando Abreu, quem mais?






"No canto do olho uma melancolia de açúcar, que hora machuca, hora dá prazer. Um sol gasto fraquejando pelo céu, o rosto alvo e tomado por serenidade ambígua. Queria só voar agora, no silêncio de paz dessa tarde amarela, olhar no horizonte e calada. Bater as asas feito um pássaro nômade e chorar feliz. A calmaria das cores já não me incomoda. Será que é a paz de estar feliz ou o gosto amargo e suicida de não encontrar sintonia com os que me cercam?"

Escrito em 22 de maio de 2008, num fim de tarde entre amigos.




"Não sei o que fazer de mim e dessas paixões que renascem com força em meio a esquecimento e comodidade. Eu sou uma constante inconstância. O amor não me cabe."

Escrito em agosto de 2008, num domingo estranho entre amigos.



"Não sei bem onde é, de onde vem ou como termina. Só sinto a sensação me consumindo em meio a vozes elevadas e risadas sinceras de pura alegria. Repentina, forte, estranhamente comum. Quase íntima. E não a de sempre, com o vazio oco e a face encharcada. Não. Seca por fora, enchente transborando no peito. É felicidade ou isso é ser triste?"

Escrito em outubro de 2008, sozinha em algum lugar.


Viajar é sempre bom. Olhar no espelho de dentro, depois de tanto. E surpreender a si mesma.

- Porto Alegre, 13 de dezembro de 2008.

Rascunhos antigos

Um pensamento insistente permeava a mente dela: como era difícil, por Deus, ser quem era. Como era difícil ser mulher, inteira e nua, em frente ao espelho ou esparramada pela cama fria. Que dificuldade angustiante a de ver o próprio rosto endurecer, sentir o corpo mudar e ver a sensibilidade outrora pura tornar-se sutil a cada passo.



Roupas, cheiros, cores e formas. O tempo arrastava a menina pra longe e empurrava-lhe garganta à baixo o que devia florescer sem ser notado. Como sempre em sua vida fora, transitar no próprio ser fazia-se tortura inevitável: arranhava ossos, lábios, sentidos. Cortava-lhe a pele macia sem dó.



E o que chamavam paixão era o melhor remédio - sentir-se, ser, enxergar-se amada. Não o amor dos livros e filmes, sonho antigo. Esse carnal que a vida mostra duro, mas bonito e digno pra quem sabe aceitar. Prazer era também religião, pensava. E era.



Já não queria, porém, dopar-se de amor. Depender de outrém perigava doer. Sob efeito da droga sorrir era fácil - adormecido o corpo, flutuante a alma. Entorpecente finito, no entanto, paixão externa era efêmera que só. E com a lucidez repentina retornava o escuro medo: como era difícil, por Deus, suportar-se.





Criança e amor, mulher e vazio - sequer sabia quem queria ser, como ser fácil ser quem era?

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Parar o bonde

No fundo do túnel o amargo sorri. Sem luz, sem esperança, sem bondade.
O tempo passa e eu percebo que a vida, essa roda-gigante de ironias e intrigas, é fonte de riso solto mesmo com toda a estupidez dos erros e os reflexos de passados frios.

E de repente eu já quero estar, tudo de novo, naquela casa quente da cidade pequena de onde eu vim. Curtir aquele verão monótono e cheio de energias ruins, mas ao mesmo tempo tão doce que entorpece a alma só de voltar à lembrança. De repente eu quero os mesmos cheiros, lugares, cores e seres. Quero o antigo pra me livrar do novo, do contemporâneo arranhado desse existiremvelocidademáxima. De repente eu quero reescrever as velhas canções como se fossem novas.

Ter pouco a dizer é ter menos por dentro? O contrário, eu creio. E crer é sempre incerto.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Contos de Verão - Sentir

A brisa quente invadia a janela do quarto naquela tarde modorrenta de verão. Deitada na cama, suor se misturando com os cabelos esparramados pelo travesseiro, ela mirava um ponto qualquer do piso branco abaixo, carrancuda. O dia parecia adormecer antes mesmo de despertar. Estava escuro e o sol brilhava lá fora.


Sentir era uma coisa complicada.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

"Existe alguma coisa impressionante dentro de cada pessoa no mundo. Algo íntimo, calado, escondido. O tipo de coisa que não se enxerga em meia hora de conversa, que não se percebe em qualquer convivência diária pouco atenta. Há alguma coisa impressionante e tácita a qual talvez, para alguns, seja sempre interior. Não é necessariamente bonita, enfática ou doce: é simplesmente aquela coisa única que faz de você íntegro ou estúpido, agradável ou sujo, alguém de bem ou de mal. Há uma essência, um princípio, uma matriz. Boa ou ruim, surpreendente ou comum, é o que faz de você o que você é e das pessoas que o cercam o que elas são. Existe alguma coisa impressionante dentro de cada pessoa no mundo, inegável. E assim como descobri-la é descobrir-se, vê-la no outro é descobrir alguém. Ame: descubra."

Escrito em 30 de novembro de 2008.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Way back into revolution.


Eu preciso de mais fé.
Não fé nessa poesia de eufemismos que me consome e guia todos os dias, tampouco a crença numa vida colorida e digna de platéias satisfeitas. Quero e preciso dessa fé imponente e transformadora dos que sonham sem pudor, daqueles que escalam as montanhas mais altas na busca por um mundo que lhes parece, no mínimo, urgente.

Tanta gente passa, tanta gente eu vejo. Tantas pessoas diferentes cruzam meu caminho nesse dia-a-dia atolado de cidade grande, nesse cinza escuro que se torna claro à medida que percebo não estar assim tão sozinha. Gente que chora, que ri, que vive. Gente que simplesmente passa, gente que pára, gente que marca. Uns por tanto tempo fazendo tão pouco; outros que, em poucos segundos, injetam ânimo e esperança nas veias dos meus braços cansados de uma luta há pouco perdida. E voltam a andar.

Doeu desistir. Não que eu o tenha feito por completo em algum momento, mas marcou fundo na alma o instante em que olhei pra trás pela suposta última vez e decidi seguir meu caminho sem os velhos pesos constantes. Doeu abandonar o idealismo na primeira esquina, derrubar a esperança numa curva qualquer e jogar o espírito revolucionário pela janela na primeira oportunidade. Doeu e ainda dói.

Mas a vida é, eu repito, uma máquina de lavar maluca e pulsante, como me disse certa vez uma amiga. Em uma terça-feira chuvosa de novembro eu olhei pra trás pela primeira vez desde aquela de outrora, distante. Olhei pra trás e suspirei com o que vi.

Porquê eu hoje li um texto surpreendente em um blog incrível. Pois que hoje, em casa, sem nada importante pra fazer além de estudar pro número absurdo de provas da semana, recebi uma visita inusitada de alguém desconhecido que me fez querer recomeçar. Uma mulher que adentrou esta sala pequena e falou de projetos contra o preconceito racial. Um ser humano de sorriso sincero que agradeceu, ao sair, pelas frases soltas de uma peça de teatro que eu declamei, à pedidos de minha mãe. Frases de Olga Benário Prestes, mulher de fibra como a que eu hoje tive o prazer de encontrar. "Eu precisava dessa injeção de ânimo pra continuar acreditando no que eu faço", ela disse. E sua expressão cansada deu lugar a um brilho doce no olhar. Um brilho de esperança.

Fico perguntando a mim mesma o motivo pelo qual deixei tudo isso pra trás. Toda a minha vontade de mudar o mundo, de lutar por grandes ideais e protagonizar alguma coisa bonita que faça a diferença. Como eu pude dar as costas às dores que me acometiam sem piedade, à consciência e ao senso crítico que estão no meu sangue, imutáveis. Que forma foi essa a qual encontrei de viver uma vida fútil quando o que transborda por dentro nada tem a ver com futilidade.

Quem sabe seja tarde pra recomeçar. Pra fazer renascer a vontade, a força, a indignação necessária pra revolucionar. Ou talvez não seja, nunca.

Como me fez pensar um amigo, talvez estejamos todos errados, nós, os românticos. Ou será que somos a maré consciente desse mundo inconseqüente com o qual jamais pude me conformar?


Inspiration:
Maybe we are all wrong, pra quem quiser conferir.
E Janaína, uma desconhecida essencial.
"Eu te odeio, disse ela para um homem cujo crime único era o de não amá-la. Eu te odeio, disse muito apressada. Mas não sabia sequer como se fazia. Como cavar na terra até encontrar a água negra, como abrir passagem na terra dura e chegar jamais a si mesma?"

- Clarice Lispector,
"É difícil perder-se. É tão difícl que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo."

- Amém, Clarice.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Chuva e açúcar


Nada novo pra surgir de repente no vazio de uma tarde qualquer. Nada que se estenda sobre uma folha de papel imaculada pra dar origem a um suspiro logo adiante, quando lido. E ninguém nunca me havia dito que dons poderiam ser dádivas efêmeras se não cultivados e alimentados de forma adequada. Não li manual algum antes de começar essa jornada de intensidades angustiantes, essa que sequer escolhi.


Escrevi em terceira pessoa por muito tempo. Pus ela sentia quando quem sentia era eu, usei o peito dela pulsava forte enquanto o meu é que quase chegava à garganta. Fiz uso de contos, ficções baratas e descrições piegas, na tentativa falha de esconder de mim mesma o que tenho sido por todos os dias dessa minha vida de mentiras.


Uma apaixonada, uma tola, uma romântica incurável.


E nessa frieza forjada depositei as últimas esperanças de um endurecimento verdadeiro. Nas entrelhinhas do meu olhar calculado, do meu andar frio e desse meu sorriso decidido, andaram verdades as quais eu, cega, esperava serem visíveis aos olhos de alguém desconhecido. Alguém que viria até mim em algum momento inesperado e diria que enxergou além, que foi capaz de decifrar meu segredo e compreender o que eu carrego por dentro. Alguém que me amaria pelo que eu sou de verdade ao invés de sorrir pra tudo o que eu já tentei ser.


É só que, meio tarde, descobri erros graves. Percebi com surpresa que ninguém entraria na minha vida pra mudá-la por completo, assim como ninguém no mundo poderia decodificar palavras inventadas ou interpretar minhas atuações quase diárias. Entendi que esse alguém só pode ser eu.


Olhando-me no espelho, dessa vez sem fingir, sou capaz de confessar em silêncio: sempre fui a mesma. Essa mesma que eu talvez jamais compreenda, é certo, mas ainda assim a mesma Isadora, com a mesma essência de tantos anos. A que sonha com um intercâmbio inalcansável por querer fugir, infantil, de uma realidade inevitável. A garota que é capaz de mergulhar num livro de ficção e oferecer a própria vida em troca de um caminho sem volta até ele. A Isadora patética que chora com sinceridade assistindo a um filme americano clichê, trocando horas de sono por construções milimétricas de uma vida imaginária e impossível. A Isa que sonha.


Mas o que fazer depois? Como agir depois de meses, talvez anos de mentiras, agora que os tempos são outros e as pessoas já me vêem como algo que eu nunca vou ser? E quando cada palavra escrita aqui soa falsa, insuficiente ou fútil, o que eu posso fazer pra essa dor de cabeça eterna passar? Onde jogar os erros cometidos, as mentiras que contei e tudo o que construí nessa vida impensada?


Certas marcas são inapagáveis. E a verdade, por mais que apareça, pode ser inútil quando tarda como agora. Em meio a ilusões que se dissipam com o vento, há sempre algo que fica - temo que nem tudo seja chuva e açúcar. O cansaço, a dor e os erros são palpáveis em qualquer lugar.


domingo, 2 de novembro de 2008

Um gole de saudade

"É como voltar a ser criança e compreender a maravilha por trás daquele brinquedo no qual adulto nenhum decifra graça ou o que quer que seja. Te vejo assim, exposta em palavras, ouço tua voz no telefone, leio algo melancólico contigo, te ouço rir até chorar e chorar pra depois rir. Olho pra ti, olho pra mim. Olho pra ela, como a gente. Tenho medo por ti, por mim, por ela. Temo por nós e a causa sequer é a dor.Nos últimos tempos a ausência daquela gota salgada escorrendo livremente pela face tem assustado tanto, que eu sequer tenho conseguido sentir o peso de todo o intangível de sempre. Aqui dentro, e eu acredito que aí também, mora algum tipo de ser estranho, talvez monstruoso, o qual acorda quando quer sem perguntar se a hora é boa ou ruim. Ele adormeceu por um bom tempo, eu sei. Aí eu venho até aqui com os últimos resquícios desse veneno que corroe por dentro, sem esperanças - feliz ou triste? - de que ele faça arder em mim de novo tudo o que sempre ardeu e fez parte."Que as lágrimas caiam vez em quando". Vez em sempre dói demais, mas vez em nunca é tão o oposto de mim mesma que eu não suporto. Parar de me engolir foi um erro ou a escolha mais certa da minha vida? E por quê me sinto na garganta vez ou outra mesmo assim?

Quem sabe de mãos dadas os olhos vejam um pouco além do concreto sem luz."

E que falta fazes, meu Deus...

domingo, 26 de outubro de 2008

Uma repostagem




Eu olhava nos seus olhos e tentava compreender, achar coisas que eu queria que ali fossem encontradas, desenhando sonhos a seu respeito que talvez não passassem disso, de sonhos, de ilusões pré-fabricadas, e todo o seu sorriso caía sobre mim feito um jato d'água quente num dia gelado em Nova York, e quando eu chegava mais perto admitia em silêncio que seu cheiro era único no mundo, que nada mais poderia cheirar como o seu cabelo, o seu sorriso, o seu olhar e o seu beijo, que eu já nem sei mais se era doce ou não, se era sincero ou se assim queria eu que fosse, então eu encostava minha cabeça no seu ombro e fingia que suas mentiras e seus sumiços me bastavam, que eu não precisava de mais nada, mas nada disso, eu tinha de me levantar, tinha de gritar pra você todas aquelas coisas que eu decorara na frente do espelho, tudo o que me disseram que era preciso dizer, aquelas palavras agressivas que eu encontrei dentro de mim, perplexa, porque eu nunca soube que sabia ser assim, agressiva, ainda mais com você, cuja agressão mascarada de doçura me encantava, e então eu encostava a cabeça no seu ombro e fingia que tudo aquilo me bastava, que eu estava feliz, que isso era a vida e que não precisava mais nada, mais nada, mais nada pra que eu pudesse dormir sem culpa nem dor na noite que surgia, lenta, enquanto você estava ali, e por mais que eu não soubesse quanto tempo ficaria, eu sorria, estática, uma felicidade ignorante percorrendo os olhos em luz, seu cheiro invadindo o lugar, meu corpo, seu corpo, tudo errado e tão certo quanto poderia ser, na vida, no céu, no frio das cobertas quentes ou no escuro de um dia de sol, porque éramos eu e você e minha cabeça estava sobre o seu ombro, mais nada, nada mais, tão raro, tão doce, tão suficiente por dez segundos e alguns milésimos e uma lágrima ausente de adeus e promessas soltas e fim.




- "Desamor", de 8/07, Contos de Outono.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Bater de asas


Hoje as palavras acordaram tão, mas tão insuficientes, que o convívio comigo mesma é insuportável ao ponto de impedir uma vida social nesta tarde. E sim, eu sei que não faz o menor sentido, mas nada aqui dentro tem feito, de qualquer forma - bagunça constante.


Passei muito tempo culpando as pessoas, os lugares e as situações. Reclamei que "não era essa a vida", que estava tudo errado, todas essas coisas bonitas e tristes que Caio Fernando Abreu ou Clarice Lispector já disseram um dia. Mas a verdade aparece ao mesmo tempo em que as lágrimas caem, embora eu acorde fingindo que já não sei: o problema sou eu.


As idéias se misturam como um mar de lembranças perdidas em uma mente insana. Já não sei mais o que é meu e o que eu construí, estrutura tão frágil, na tentativa de montar uma pessoa que eu sequer admiraria vendo de fora. Ou sim, não sei. Há muito eu não sei muitas coisas.


É só que me doem essas percepções repentinas da minha própria existência, se isso não ficar filosófico e fútil demais. Meu dom já não é mais algo incrível, nenhum deles. Há quem manipule as palavras melhor do que eu faço, muita gente por aí sabe ser doce de um jeito mais útil e melodias mais bonitas saem da boca de outras garotas de dezesseis anos. Milhares delas.

Cansei de fingir determinação, de inventar uma realidade alternativa que nunca existiu, de passar séculos convencendo a mim mesma de que eu não preciso daquilo que não tenho pra ser forte e feliz. Cansei de sorrir por fora.


Eu definitivamente não sou infeliz. Só queria uma psicóloga e sequer isso consigo concretizar. Tudo isso aqui em cima me dá náuseas, e o que eu quero não é o abraço reconfortante, tão desejado. Eu quero o bater de asas, pelo contrário. Das minhas asas. Só preciso arranjar um jeito de voar.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Fugir ou voltar, fútil



"Tenho uma vontade besta de voltar, às vezes. Mas é uma vontade semelhante à de não ter crescido"


Caio Fernando Abreu, pra não perder o costume. Cinco rascunhos gravados no blog e nada parece verdadeiro pra ser postado.

Época de provas, uma semana de febre alta, formatura da mãe e dois livros terminados. Acho que existe algum tipo de limite em mim. Visível, eu creio. Apesar de as explosões serem agora tão diferentes.


Não tenho conseguido chorar. Parece trágico escrever dessa forma, com essa pontuação, com esse tom, mas é fato que eu ando meio trágica, embora sem lágrimas e desespero constante. O silêncio das minhas dores e o sorriso incerto do espelho têm me feito sentir outro alguém que não eu. E apesar disso eu sorrio o tempo todo, sequer forjando. Mas seca por dentro.


Vontade de voltar ou de pular etapas, ir em frente. Sumir ou surgir. Nunca soube.

Não sei bem o que eu quero, mas não é isso. Nunca é.


Tem alguma janela que eu preciso abrir, aqui dentro ou lá fora, não sei.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Contos de Inverno - Chuva e abismo


- Não te compraz na falsa poesia, por favor, que ela te consome e tudo vira falso também.

Ele deixou-se inundar pela surpresa ao ver os lábios entreabertos dela, duvidando que coisas assim duras pudessem deixar sua boca pra nele repousarem, cruas. Não sorriu.


- O que disse?


- Não te compraz na falsa poesia, por favor, que ela te consome. E se a falsa poesia te consome todo o desnudo e verdadeiro torna-se falso também.


Ele soltou a mão dela, sem chão. Sorriu pequeno pra não parecer patético, sem saber que dessa forma mostrava-se assim mais do que nunca. Voltou-se, surpreso:


- E o que de falso és capaz de ver em mim, se é que podes enxergar além do véu dessa tua existência forçadamente doce e pura?


Não esperava que ela chorasse ou demonstrasse qualquer dor, e por isso surpreendeu-se com a lágrima lenta que brotou de seu olho esquerdo, percorrendo-lhe a face num caminho sinuoso e difícil como era aquele momento. Procurou as mãos dela de novo, um tanto perdido, dividido entre o arrependimento e o alívio pós-explosão. Ela deu um passo atrás, vacilando no equilíbrio precário das pernas descobertas.


- Me feres com tão pouco e mal sabes. Não te julgo nem nunca o fiz, não enxergas? Só te peço que não use de uma poesia que não carregas pra me dizer o que talvez sincero não seja. Não duvido de ti, apenas protejo-me. Sinto tanto...


E com olhos de quem pouco sabe e muito sente, perseguida pelo abstrato de uma essência mal construída, virou-se e correu.

Ele, ombros caídos e olhos secos, compreendeu de imediato o que ocorrera, já tarde. Ela era tanto e ele tão pouco, se muito. Duas almas procurando compreender-se, mas destoando de alguma maneira injusta em algum ponto inacessível.


A chuva desceu forte pra levar toda a poeira que dois corações machucados são capazes de deixar, numa noite de inverno, pairando no ar. Ele queria envolvê-la nos braços e dizer-lhe que, embora separados por aquele imenso abismo interior, havia ainda amor, e se havia amor tinha de haver também esperança e paz. Ela, correndo sem pausa, desejava voltar.


Ele não pôde mover-se; ela não conseguia parar. E a noite seguiu lúcida e insensível com seus ruídos de silêncio e calma, ignorando a intensidade do que se passara na esquina da Rua dos Sonhos com a Avenida Pés no Chão. Dar vazão ao improvável era ingenuidade, por fim?
~ Segunda-feira, 21 de julho de 2008, 20h26min.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Contos de Inverno - História sem Fim



Sentou-se sobre o banco gelado e procurou esquecer o mundo, sem pressa. No balanço do frio congelante ela sentia que algo dentro de si estava muito errado - talvez a coisa mais certa que já ousara sentir.


A impressão era sempre a mesma. Acordava num dia qualquer no qual coisas aconteciam, sem que pudesse perceber uma nova movimentação ou o piscar de um outro olhar sobre si. Era ingênua, mas nem tanto. Sabia do que carregava por dentro e sabia o que o mundo arrastava lá fora. Não era um grande segredo, afinal, mas alguns seguiam sem compreender, ela também soube.


O fato é que ela sentou-se sobre o banco gelado e procurou esquecer o mundo, sim, sem saber que não conseguiria. Sem saber que alguém lhe enxergaria de costas a olhar para a imensidão daquele lugar nada imenso e lhe diria alguma coisa qualquer que parecesse normal. Sem saber que nada disso teria qualquer coisa de normal.


E quando seus olhos a surpreenderam, atrasados, já era tarde. Havia um olhar mais inteligente brilhando dentro de seu peito, quieto, quase perigoso. Um olhar mais sutil que pegava todos os detalhes e os escondia o maior tempo possível, até que os olhos de fora insistissem ao peito que o segredo viesse à tona. E então era tarde, simplesmente. Tarde, sim. Tarde pra tentar qualquer retorno, qualquer máquina do tempo ou amnésia induzida. Tarde pra que o tempo desse conta do que sequer sabia ser seu, pra que a vida lhe permitisse seguir na normalidade ou viajar pelos caminhos daquele sentir. Não havia escolha, nada a fazer.


Então ela sorriu. Graciosa, sem graça, meio confusa. E deixou-se levar pela voz, pelo olhar, pelas mãos e por aquele rosto. Deixou-se levar por ele, fraca. Sem pensar no porquê, sem pensar no aonde, no quando e no depois. Sem sequer pensar no que lhe era exterior, no que não dependia de si. Sem pensar em nada.


Como muitas, era uma história ainda sem um fim.


Talvez se falasse da dor, em seguida?


- dos rascunhos de 24 de junho de 2008.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Desculpa pela minha ausência, mundo, mas não posso estar presente pra ninguém enquanto eu não estou aqui em mim.
Não quero definições agora. Minhas dores já têm nome, sim, embora as anônimas venham com força desigual quando estas novas aparecem. Mas não quero falar de dores hoje, já é tarde.

Eu já sei que tudo isso é meu fardo, eu já sei, eu já sei sim, sem problemas. Não tenta me convencer de que é fácil nem mostrar que por ser difícil eu devo ser forte, que não adianta e não faz a menor diferença. Obrigada mundo. Obrigada pelas palavras, todo mundo que as dirige à mim. Pelos abraços, pelos sorrisos, pelo ajudarsemsabernoquê. Mas agora eu só preciso do escuro e da lágrima e dos sonhos em destruição e da força que enfraquece a cada segundo a cada sol a cada dia a cada sorriso forçado e sínico que parece sincero enfim. Só preciso dessa coisa que me engole inteira a cada problema pequeno, crescendo de dentro como um monstro adormecido que eu havia deixado pra trás pensando estar livre pra sempre.

Escrever é uma praga, se querem saber. Me faz descobrir coisas demais. E eu gosto.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Por uma noite (ou Noite de Estrelas)




Estava sentada sem nada importante pra fazer. Uma sexta-feira, um sol, um sentimento. Um dia qualquer, embora diferente de todos os outros. E ela levantou-se pensando em muitas coisas que talvez devessem ser esquecidas ou deixadas de lado pra que tomassem rumo próprio. Não poderia.


Acordou. Por dentro, pois os olhos já estavam abertos há mais tempo. Despertou seu peito, não mais apertado, não mais dolorido, não mais dela. Não mais comum, sequer conhecido. Era um coração diferente daquele que adormecera não sabia quando. Um coração que batia compassado, sem pressa, sem tempestades repentinas.


Sentia que era temporário, como tudo em sua vida. A proximidade do aniversário, canceriana que era, talvez fosse o motivo da sensação de renovação inexplicável. Música lenta nos ouvidos, um teclado à frente, palavras soltas em um momento sem nome nem precedentes. Mapa astral aberto, horóscopo, livro dos sonhos, tudo o que projetasse dez segundos de futuro parecia válido. O que pulsava era bonito e cheio de expectativas. Queria manter-se acordada pra sensação nova e assustadora de se bastar.


Não tinha mais o que dizer. A noite prometia estrelas, no sentido figurado. E ela, por mais que cética pelas promessas anteriores do céu, sentia que não havia muito a perder. Quem sabe abrir os olhos de dentro fosse fechar os de fora, engano de anos. Vai ver intuição era isso.


Um banho quente, roupas bonitas e o perfume suave no ar. E maquiagem. Mas só por fora.

Era hora de sair e tentar levar uma vida um pouco menos planejada e mecanizada. Só por uma noite.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Roda Gigante.

Isso tudo me cansa, se quer saber. As pessoas, os anos, as cores e os sons. A futilidade, o clichê que me persegue, os dias iguais, os diferentes demais. Dores se acumulam feito pedras no sapato, que ferem aos poucos, rasgam a carne, derramam o sangue. Mas eu não quero usar palavras sensacionalistas ou elevar meus sentimentos. Sou um ser humano comum, sim, desses que saem por aí dançando em festas com os amigos e tocando violão num fim de tarde. E talvez eu nem seja tão diferente assim, ao passo que me escondo e as pessoas podem estar a se esconder da mesma forma, quietas. Mas isso tudo me cansa, não interessa com quem mais acontece.

Me dá um novo tom, pelo amor de Deus. Não quero pensar nas minhas notas, nas minhas confusões, no meu coração de gelatina, na frieza mentirosa e danosa dos meus olhos, no meu avô morrendo e eu aqui sentada. Não quero pensar na droga da "lei da vida" nem no fato de que eu tenho de ser madura por sempre assim ter sido. Não quero sequer saber se estou ferindo alguém a partir de agora, porque firo a mim mesma há muito tempo e não é tão terrível quanto dizem ser. Só quero jogar tudo pro alto, essa coisa louca, parar essa montanha-russa agoniante que de tão fraca já virou roda gigante. Não quero essas palavras, não quero outras, quero escrever sem letras. Não me basta nada disso, nunca. Simplesmente não me basta.

E que ninguém me dê conselhos sobre auto-controle ou espiritismo, ao passo que estes eu conheço bem. E não me bastam agora também. Um turbilhão de coisas na cabeça e tudo o que eu quero é o fim desse barulho insuportável que me estoura os tímpanos, o silêncio. Aumentem o volume do mundo, por favor. Quero ouvir algo diferente daquilo que se passa aqui dentro de mim, alto demais.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Do que se vê no espelho. No de dentro.

Ela abriu os olhos e sentiu o calor das cobertas macias. Levantou de um pulo e andou, sem pressa, até o banheiro pequeno que ladeava a porta do quarto escuro. Adjetivos demais.
Olhou no espelho como sempre olhara, sem intimidade, sem paz. Uma estranha no reflexo nítido e tão figuradamente distorcido. O relógio mal marcava sete horas e ela sentia que era tarde pra tanta coisa...

Não quis voltar a dormir. Seu tempo de "foda-se o mundo" se prolongava havia quase três dias e já sentia que tudo estava muito errado. Embora quisesse com todas as forças, não sabia fazê-lo: acordar em um dia qualquer de junho e decidir que não precisa de ninguém também não era a solução, pelo jeito. Precisava mais do que indiferença pra encontrar a resolução da incógnita que ela própria sempre sentira ser.

Não cabem eufemismos ou metáforas no que ela sentiu ao encarar o espelho de novo: era uma menina feia, suja e machucada. Menina. As garotas de dezesseis anos não deviam chamar a si próprias mulher?

E a luz do sol não entrava pela janela naquele amanhecer. Nada além dela, tão dentro do espelho e tão fora de si, como uma projeção enfraquecida e sem cor. Sentia que, se movesse os lábios e tentasse uma única palavra, alguma coisa dentro dela se quebraria para sempre. Não aquilo que os outros, tolos, chamavam amor; isso era pequeno quando comparado àquela sensação aparentemente inata. Era algo muito maior do que qualquer desses sentimentos que reluzem na gente e vez ou outra nos fazem pensar. Era o existir. Sem filosofias, sem crises existenciais, sem melancolia forçada ou meia dúzia de palavras medidas em conta-gotas. Só existir, por dentro. E estranhar a si mesma. Essa coisa de produzir anti-corpos fortes contra a própria essência, simplesmente por não reconhecê-la no coração e na mente. A alma dela não era sua própria morada, triste.

Talvez por isso sentiu o que sentiu. Quem sabe foi esse o motivo de ela ter querido quebrar o espelho à frente, ou a razão a qual não deixou que mexesse sequer um dedo. Não era sua. Não havia um ela, não havia um dela. Era isso, não resta dúvida. O motivo pelo qual seu coração almejava um alguém distante e desconhecido, sem rosto nem voz, estava claro como nunca estivera seu olhar: precisava de um lugar pra ser ela, pra ser dela, pra ser. Não sabia onde era, não sabia em quem. E pouco importava, agora. Dentro dela é que não era.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Reabra as cortinas, por favor.



Acho que eu gosto de não saber.

Às vezes o mundo pega a gente de surpresa, com pedras na mão. Apedreja até que fira, até que a gente sinta que não há mais nada além da dor cegante, do coração vazio e do sangue que escorre em forma de fraqueza e sentimentos fortes, intensos. E sentimos como se não importasse o sol que brilha lá fora, como se as ruas da cidade quisessem devorar nossos corpos com rapidez e gula, como se momentos felizes fossem miragens ou sonhos de um tempo onde ainda se podia sonhar. Tempo que parece ter ido embora, e isso dói. Esperança? Piada. O colorido de uma magia qualquer que a gente sentisse ao encarar os olhos daquele alguém especial, o pulsar do coração num dia de Natal, o dourado de sonhar com algo incrível que aconteceria só em dois ou três anos... Tudo se vai. Nada faz sentido, nada a gente quer, nada quer a gente. Acabou, é o fim, sem mais. Fechem as cortinas e apaguem as luzes do palco, por favor, que o show acabou.

Mas o mesmo mundo que explode em cima da gente, é o que estende a mão e mostra o lado bonito de tudo o que é feio. Porque tudo o que é feio tem seu lado bonito, é preciso lembrar - embora eu também esqueça às vezes.
O sorriso de um estranho na rua já traz ao menos a vontade de voltar a andar. Aquela amiga que te abraça com sinceridade quando tudo o que você pediu foi um lápis emprestado, te passa um resquício de energia, que entra bem naquele lugar que você julgava perdido e morto. E depois vem um filme bonito trazendo esperança, alguém novo na sua vida que com palavras te faz encher os olhos e sorrir pra si, a barra de chocolate com que sua mãe chega em casa, o "me orgulho de ti" que seu pai exclama ao final da leitura daquela redação que você julgava mais ou menos... E a essa altura o calor retorna, o sol parece incrível e o Natal volta a ser esperado com ansiedade e amor. As ruas monstruosas parecem acolhedoras e carregam liberdade em cada esquina. Esperança? Forte e intensa. Tudo muda.

Essa minha intensidade, que eu reclamo dia e noite sem parar, é a mesma pela qual eu agradeço quando as coisas, embora não de volta à seus lugares, não parecem mais tão fora deles. Porque sentir o mundo com todo o peso que ele tem pode sufocar, sim; mas sei que a parte boa disso tudo compensa cada lágrima e cada segundo de desespero. Ou assim eu espero. Que continue sendo, que melhore, que a sensação chegue a outros seres perdidos em sua própria melancolia, ao menos por um ou dois dias. É tempo suficiente pra respirar e mergulhar lá de novo, se assim for preciso.

Eu quero sorrir ainda mais. Dizer mais "bom dia", agradecer mais, fazer um mundo mais bonito no limite que me é concedido. E quando a dor voltar eu até sei que nada disso vai fazer sentido, mas não importa agora. E aos que dizem que tudo isso não passa de tema de filminho americano, eu contesto. Ou será que vivo mesmo meio fora de tudo o que gira com razão e normalidade?

Acenda a luz. Ah, e reabra as cortinas, por favor.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Mais um clichê (ou Até Breve)

Só queria ser enrolada em um cobertor quente e acolhedor, embalada por braços gigantes e afetuosos que me fizessem dormir em alguns minutos, com um cheiro doce pelo ar, uma música suave tocando ao longe e uma mente vazia de problemas e dores.
Existe algum lugar do mundo que não permita a entrada daquilo que machuca e sufoca, me deixando à sós comigo mesma pela primeira vez?

Creio que não. Mas que seria a única chance de eu me conhecer e aceitar por inteiro, ah, isso seria.


Viajar vai me faz bem, apesar do motivo. Ver as pessoas de quem eu gosto, estejam no estado em que estiverem. Saudade morta. De sexta à domingo.
Até breve,

terça-feira, 10 de junho de 2008

Longe de mim




Eu não queria outra vida, não é isso. E eu tenho idéia do quanto pode parecer fútil e imaturo colocar pra fora o que dá nó na garganta em um blog, um lugar público, ainda mais quando o endereço não é algo exatamente secreto. De qualquer forma, embora sempre amendrotada pelo fantasma da possível futilidade, eu sinto vontade e vou sempre fazê-lo. Se aliviar um terço, é lucro e me basta. Que outra opção eu tenho?

Problemas são coisas relativas e superáveis, sei bem. O tempo todo ouço dos outros que tudo se resolve, tudo se vai, que o tempo cura e as coisas se encaixam em seus devidos lugares quando se menos espera. Eu mesma uso desse discursso já bem ultrapassado pra consolar amigos, mas às vezes é difícil crer na própria canção, como eu disse uns dias atrás por aqui. E quer saber? Eu hoje não quero crer em coisa alguma.

Não sei se é sensibilidade, se é imaturidade, se é ser infantil, fútil, pequena ou o que for. Sei que dói aqui dentro ver as coisas desandando, os problemas se acumulando e a vida se instabilizando a cada novo dia, com raras exceções de tempos de paz, os quais eu nunca deixei de agradecer. Dos cinco anos que se passaram desde que eu vim pra essa cidade o estado tem sido sempre de "vamos ver no que dá", de " aguenta mais um pouco que passa", de "eu sei que você é forte, Isa". Legal, talvez eu seja mesmo forte. Mas é demais querer dores condizentes com a minha idade, minha experiência e a fase pela qual eu deveria estar passando?

Eu nunca fui de reclamar. Cresci feliz numa família incrível, sem decepções gigantescas ou situações desesperadoras. Até os meus dez ou onze anos tudo de que eu podia reclamar era do fato de não ter Mc Donald's na cidade onde eu morava ou coisa que o valha. O tempo passou, no entanto, e trouxe o inesperado turbilhão de verdades cuja aspereza eu só esperava conhecer em cinco anos ou mais e, mesmo assim, segui sorrindo pra vida e tentando ajudar meus pais a superar a fase ruim. Só que certas coisas, certas descobertas e certas batalhas deixam marcas complicadas de se ignorar, mesmo depois que tudo passa. Pior ainda quando não passa.

Não, eu não sou infeliz. É só que tenho problemas relativamente grandes, dores inexplicáveis (ou talvez nem tanto) e tristezas repentinas de origem que, embora eu saiba existente, ainda desconheço. As minhas fugas são os livros, meu remédio a escrita, e a proteção meu silêncio verbal. Essa vontade de fugir pra bem longe que ninguém compreende tem mil explicações que eu prefiro esquecer.

Talvez o verdadeiro anseio seja inalcançável. Vai ver eu só preciso de um tempo longe de tudo isso aqui dentro que perturba e fere desse jeito. Não queria saber e enxergar tanto assim.
Quem sabe eu só ande precisando de um tempinho longe de mim.

Passa, tempo, mas passa logo. Vem universidade, vem futuro, vem o jornalismo, a psicologia, o teatro ou seja lá o que for. Só muda tudo isso, por favor. Preciso da proximidade de um destino que dependa, por inteiro, daquilo de que sou capaz.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Fina linha. Fim da linha, não.

É tão fina a linha. Tão fina essa linha que separa a vida da morte, o mundo nosso daquele que tanto tememos, o último suspiro do respirar intenso e eterno que eu, imperfeita, julgo como o depois.
Não sei se tenho medo. Uma coisa é a resposta quando se está filosofando num fim de tarde com os amigos. Quando alguém que amamos está em um leito de hospital, em lençóis transpirados de um suor amendrotado, pelo motivo que é, por uma razão escolhida pra si, embora não se soubesse das consequências antes, a resposta é outra.
Não temo tanto por mim. Não temo por ele, pela sua dor, embora isso me rasgue o peito quando fecho os olhos e imagino que ele agora não enxerga tão bem, que seu corpo incha a cada novo dia e que as palavras amargas de alguém já tomado pela idade e pela vida não saem mais de sua boca com a mesma intensidade. Temo pelo meu pai, por seus irmãos, temo pelo impacto que tudo isso gera em quem ama.

É tão fina a linha. Tão estranho isso, tão estranho que a força possa ser fraca às vezes. Ouvir a voz do meu herói no telefone fraquejar porque o herói dele fraquejou. E será que eu devo fazê-lo também?
Meu avô. A gente nunca dá o valor devido aos avôs por aí, podem crer nisso. Aqueles abraços no Natal, as moedinhas bem-vindas pra comprar chiclete no barzinho da cidade pequena de infância, os abraços apertados e os conselhos exagerados. A gente sorri, diz que ama, sente saudade uma vez por ano, mas não raro esquece de parar e olhar pra ele, pra sabedoria que ele emana, pra força do tempo que não só traz rugas como também marcas no olhar. Esquece desse olhar, que diz coisas incompreensíveis aos sete, estranhas aos doze e aparentemente patéticas aos quinze. Dá pra entender, não é estranho e nem patético. Porque a gente esquece que ter dezesseis é saber menos e querer saber mais.

Fica tudo meio sem sentido. A gente volta no tempo e refaz momentos, tentando concertar erros que talvez nem tenham sido tão grandes assim. Família unida eu sempre tive, é fato, mas quando é que me entreguei por inteiro a uma reunião daquelas anuais, sendo eu mesma e demonstrando toda a admiração e saudade que sinto por todos eles? Por ele, pelo meu avô?
Eu nunca fui eu mesma com meus amigos, meu diário ou minha solidão. Tem alguma Isadora aqui dentro que sequer conhece a si mesma, e eu já desisti de descobrir se isso é a confusão da adolescência ou o reflexo de um coração que diverge dos demais, de uma alma cansada, de um peso íntimo que não mais assusta e veio pra ficar.

Só esperança, então. De que o meu herói retorne à nossa casa com aquele brilho de sabedoria e amor no olhar, e que ele tire esse brilho dos olhos do herói dele. Que ele o recupere também.
"Vai dar tudo certo". Não o tudo que as pessoas dizem o tempo todo que dará e que, não raro, é só ilusão, mas o tudo que eu vejo no horizonte dos meus sonhos, dos meus medos, dos meus arrependimentos e dos meus anseios. Esse tudo movido a amor que eu desejo que dê certo pra ele, pra mim, pra gente. Que caia do céu junto com a chuva que, lenta e suave, começa a passar. E que molhe de vez. Encharque.

domingo, 8 de junho de 2008

Contos de outono - Desamor

Eu olhava nos seus olhos e tentava compreender, achar coisas que eu queria que ali fossem encontradas, desenhando sonhos a seu respeito que talvez não passassem disso, de sonhos, de ilusões pré-fabricadas, e todo o seu sorriso caía sobre mim feito um jato d'água quente num dia gelado em Nova York, e quando eu chegava mais perto admitia em silêncio que seu cheiro era único no mundo, que nada mais poderia cheirar como o seu cabelo, o seu sorriso, o seu olhar e o seu beijo, que eu já nem sei mais se era doce ou não, se era sincero ou se assim queria eu que fosse, então eu encostava minha cabeça no seu ombro e fingia que suas mentiras e seus sumiços me bastavam, que eu não precisava de mais nada, mas nada disso, eu tinha de me levantar, tinha de gritar pra você todas aquelas coisas que eu decorara na frente do espelho, tudo o que me disseram que era preciso dizer, aquelas palavras agressivas que eu encontrei dentro de mim, perplexa, porque eu nunca soube que sabia ser assim, agressiva, ainda mais com você, cuja agressão mascarada de doçura me encantava, e então eu enconstava a cabeça no seu ombro e fingia que tudo aquilo me bastava, que eu estava feliz, que isso era a vida e que não precisava mais nada, mais nada, mais nada pra que eu pudesse dormir sem culpa nem dor na noite que surgia, lenta, enquanto você estava ali, e por mais que eu não soubesse quanto tempo ficaria, eu sorria, estática, uma felicidade ignorante percorrendo os olhos em luz, teu cheiro invadindo o lugar, meu corpo, teu corpo, tudo errado e tão certo quanto poderia ser, na vida, no céu, no frio das cobertas quentes ou no escuro de um dia de sol, porque éramos eu e você e minha cabeça estava sobre o seu ombro, mais nada, nada mais, tão raro, tão doce, tão suficiente por dez segundos e alguns milésimos e uma lágrima ausente de adeus e promessas soltas e fim.

No rodapé de Caio (ou Avulsos de Junho)

"Me engolem essas doses de melancolia agridoce que eu sorvo com o fervor de um ser sedento de água em Marte. Minha constante inconstância me assusta a cada amanhecer de encarar o espelho de dentro. Não é fácil ver a alma desnuda em páginas assinadas por outro nome que não o meu".
- De 4/06/08, às o9h01min, no rodapé de O Ovo Apunhalado, página 42, acima de "Ascenção e queda de Robhéa, manequim e robô".

"Dessa loucura sã eu tiro o néctar da sobrevivência de toda a minha insanidade interior. Não posso perdê-la. Há tanto mais em tudo isso do que eu consigo explicar em palavras,"
- Sem data, no rodapé de O Ovo Apunhalado, página 59, abaixo de "Uma Veste Provavelmente Azul".

"Me deixa mergulhar em um desses contos, quem sabe no meu favorito ou no mais apavorante deles, pra que as frases me consomam, o cheiro de ausência das folhas fique impregnado no meu corpo, pra que o tempo passe a ser contado em páginas e os sentimentos se evaporem na velocidade de um virar de folhas, pra que eu seja muitas sem culpa nem vergonha, pra que a futilidade me liberte de suas garras, pra que a realidade chore dores que não as minhas, amém."
- Sem data, no rodapé de O Ovo Apunhalado, páginas 60/61, abaixo de "Eles", pra mim o melhor conto de Caio Fernando Abreu.

"É como uma febre"
- Sem data nem sentido, no rodapé de O Ovo Apunhalado, página 64, em meio à perplexidade de "Eles".




Pra terminar, um conselho: pra quem quer sonhar, uma boa fantasia. Mas se o desejo é realidade com gosto de imaginação e verdade, dessas que encantam e assustam, ao mesmo tempo, é Caio Fernando Abreu sempre. Recomendo... Por sua conta e risco.
Efeitos colaterais: indisponível


,não tem importância que você não compreenda isso, porque estou acostumado com a incompreensão alheia, com a minha própria incompreensão, mais do que tudo.
- Caio.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Colorindo (ou enfeite)






Eu tenho sido consumida pela imbecilidade de atribuir importância à opinião alheia. E nenhum escritor sobrevive à perseguição da sensação de futilidade sem sentir-se pequeno e mentiroso. Mas como diria um ET conhecido meu, escrever é mentir, sempre foi.


É só que no momento em que se acredita nas próprias mentiras, elas não só parecem reais como também estúpidas. E eu creio demais nas minhas.




Pára de enfeitar os sentidos, pega na física e finge que é fácil. Quem sabe assim se torne mesmo.




às vezes dói, mas mesmo quando não a gente sente e fala.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Avulsos de Maio

"O andar natural eu não me permito. O passado era um tempo onde a dor ardia organizada, onde eu tinha controle e pensava estar perdida. De rabisco em rabisco nessas folhas brancas eu fui me destruíndo e reconstruíndo, sem arquitetar nada, à mão solta e só. E agora o sufocar de um dia me parece tão quieto, o peso do passado tão nostálgico, a vida minha algo tão disforme e sem cor. Tudo em mim vem com o prefixo pseudo, porque já não sei se creio em minha própria canção. Meu sorriso é decorado, meu olhar ensaiado, minhas palavras medidas o tempo todo e sempre. Em qual dessas muitas eu encontro a mim?"

- 19/05

"O tema dos meus sentidos, ao contrário do que sempre imaginei, não é uma constante. Sinto que me movo à quebras de rotina, novidades e coisas preferencialmente descartáveis. Do contrário, na calmaria, me cansa até o respirar. Tem me assustado a maneira como só sei ser inconstante. E tem me feito mal a percepção do quão menos intensa do que falei eu realmente sou. Na minha pressa de ser eu passei reto pela auto-construção, transformando a mim mesma em um fantasma sem forma nem sentidos definidos. Minha culpa, eu sei.
Meu Deus, não posso com isso. Não posso com a sensação de que tudo o que eu pensava ter de melhor era só ilusão. Pra onde foi meu dom? Onde foram parar as palavras desequilibradas e carregadas de poesia inata que outrora saíam de mim como pedaços de alma escorrendo pela folha? Em que lugar se escondem o medo que inspira e a nostalgia que toca fundo, com a sensibilidade do papel fino sobre a água? Eu encaro as linhas vazias e, devorada pelo próprio sentir, tento pôr pra fora toda a angústia e o pavor de ser o que eu sou e ver o que eu vejo. É a ação íntima de apertar o lápis na mão, unhas cravadas na carne, e receber o reconhecimento do espaço vazio e do objeto, tão amigo e quieto. Intimidade que me abandonou, sinto cada vez mais. Toco a folha e o que sai vem sem o encanto do que eu julgava uma alma encharcada de inspirações incessantes. Será chegado o momento em que, além da ausência de compreensão humana, vou ter de aprender a sobreviver sem a força da escrita de subsistência que me segura em pé? Confundiram meu sorriso convencional com felicidade plena e inédita e me tiraram o entorpecente, julgando-me curada? Pois eu imploro que reconsiderem. Minha arte é meu ar e eu preciso, como nunca, respirar de novo."
- 16/05

domingo, 11 de maio de 2008

Que assim seja

Ah, meu Deus, traz um pouco de paz pra esse coração de mãe. Que eu não sou ninguém pra julgar, pra saber e pra supor o que quer que seja eu já sei, mas me permite ao menos a certeza de que haverá qualquer tipo de consolo vindo aí de cima. Não sou mãe e creio ainda faltar tempo pra tanto, mas no meu coração arde o instinto da mulher que, por vontade ou por destino, um dia vai compreender a dádiva que é ter nos braços um ser que saiu de si.
E dá forças a mim, também. Que na minha sensibilidade, tantas vezes irritante e tantas outras inconveniente, eu encontre a fé e a certeza de que um algo a mais está sempre por vir. Porque a dor de ver uma mãe falando da filha, a dor de constatar que um ser ainda sem vestígios da maldade que esse mundo corrompido nos rende foi arrancado dos braços daquela que a trouxe a vida e a amou, é algo grande demais pra que eu possa digerir e compreender. Compreensão. Dá compreensão a todos que com sinceridade se deixaram tocar pela história da menina Isabella. E luz também, meu Deus, aos causadores disso tudo, que numa loucura imperdoável aos nossos olhos imperfeitos trouxeram dor desnecessária e pesos incalculáveis aos corações do Brasil, e a um em especial.
Traz também justiça. Não essa que o nosso sistema incoerente tenta dar com métodos tão ásperos, mas a justiça de verdade, essa divina que a gente desconhece, a qual serve pro tanto que ainda havemos de encontrar nessa e em outras existências. E com essa justiça traz esperança, Senhor, de que o inconcebível possa ser um dia palpável aos nossos sentidos, cansados de tanta barbárie e desumanidade. Carrega de amor as lágrimas dos que sentem tudo isso na própria pele, e de sinceridade a indignação dos que indignados se mostram agora. Tira de mim a futilidade de crer nesse caso como digno de atenção especial, pois que sei bem que a maldade do mundo atinge limites ainda mais impensáveis. Mas dá também, a mim e a todos, o direito de gritar essa dor junto com os que a sentiram de mais perto, direito esse concedido a todos que zelam e buscam por um mundo mais alvo. Eu quero só um pouquinho de paz pra ela, a quem não foi dada uma despedida digna ou uma preparação. E àquela menina, meu Pai. Que ela suba aos céus como um anjo que agora manda raios de sol diários à todos que por ela oraram. Que sua alma seja instruída, seus passos guiados e sua evolução concebida, da forma que eu, humano imperfeito e atrasado, penso ser justa e esperada.
E por último, eu peço proteção. Vida longa aos que me cercam, por mais que eu saiba não depender de mim e da minha vontade. Nem da Tua, bem sei, pois que “o mal não é obra Tua, Senhor” e ele só arde “nos que nele se comprazem”. Que o destino, então, ou o que quer que seja essa força que leva tão cedo e inesperadamente os bons, trate de manter ao meu lado, pelo maior tempo possível, os que eu amo. Se a dor dos outros pode ser assim tão imensa aos meus olhos, não quero precisar pensar na minha própria como algo real.
Que a religiosidade e o espírito de inconformidade não sejam confundidos com a ignorância e curiosidade do ser humano, esse que possui instintos e interesses tão assustadores.

Que assim seja.