quinta-feira, 29 de outubro de 2009
calor e sorriso
Pra escrever é preciso solidão? Necessário que se tenha apenas a companhia do grafite quebradiço e do papel ainda nu?
Quando a inconstância de uma vida vazia de afeto me era íntima, eu era capaz de rabiscar o mundo diante de qualquer sol a brilhar um pouquinho demais. E agora, desde que tenho em minha mão a de outrém, qualquer fim de música atrapalha a intensidade, essa que hoje só escorre com dificuldade de meus dedos com unhas ineditamente bem-feitas.
Quando o mundo me pede pra escolher entre a amargura de ter inspiração, mas ver a mim mesma como poeira diante da impossibilidade do amor, ou deixar que a poesia se vá pra sentir o abraço dele a espantar o frio do meu peito, o que fazer?
Enquanto houver sorriso, dou adeus ao mundo das palavras mágicas sem pestanejar. Mas um coração aquecido não seria suficiente pra me manter longe disso tudo quando imersa em tristeza e solidão a dois.
Me faz sorrir pra sempre e eu não cobro do mundo o dom arrancado. Não solta da minha mão e felicidade tatua a pele pra não ir embora jamais.
24 de outubro de 2009, às 18h51min de um relógio adiantado.
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
merda nenhuma
É, merda nenhuma. Toda essa coisa de ter um blog, um lugar cheio de textos poéticos e nostálgicos os quais as pessoas lêem e nos quais comentam alguma coisa animadora, um elogio qualquer. Toda essa coisa de ouvir Beatles de vez em quando e ler Dostoievski pra não ser uma completa babaca como todos os outros pareceram ser por tanto tempo aos meus olhos. Isso de assistir a algum filme cult e fingir estar entorpecida quando os créditos começam a subir, mesmo quando não entendo coisa alguma do que acabei de acompanhar. Não falo francês, cara, e sotaque britânico me irrita bastante. O pouco que eu chamo de “meu inglês” é enlatado.
Caí na real e não sou merda nenhuma, mesmo. Não sou o tipo intelectual que tento, há tanto, parecer ser, e também não me encaixo exatamente no perfil pseudo-intelectual, fútil até o último fio de cabelo que tenta ser interessante. Não sou patricinha também, visto que shoppings só servem pra comer e ir ao cinema assistir algo bem Hollywood. Se possível sozinha, pra chorar e engolir um saco inteiro de pipoca gigante num desespero forçado. Sem ninguém pra me fazer sentir culpada.
Emo ou punk não me cabe também. Uso All Star porque, quando comecei a usar, ninguém gostava. Criança acha o máximo ser diferente de todo mundo. Ao menos eu achava. Era coisa de punk, coisa de emo, e eu queria ser só a Isadora - usando All Star. Quando virou modinha, não tirei do pé – adolescente sempre segue modinha, embora não admita nunca. Ao menos eu acho.
Eu sequer gosto muito de rock. Não posso dizer nem mesmo que sei ao certo o que o rock significa, o que ele foi pros anos 50, pros 60 e assim vai. Ouço rock porque meu pai ouvia e dependendo da banda me dói os ouvidos, me estressa. Não engulo música clássica, também. Quando fazia aula de piano era pensando em tocar Vanessa Carlton ou Mandy Moore assim que chegasse em casa, longe dos ouvidos sensíveis da minha professora. Bach e Chiquinha Gonzaga sempre foram interesses dos meus pais, eu creio.
Sabe quando eu disse que queria conhecer a Europa por adorar museus e programas considerados chatos pelas adolescentes normais? Não menti, não. Mas acho que a sensação gostosa que imaginei se devia na verdade ao fato de eu querer gostar de museus, de achar excitante – céus, o prefixo pseudo – ler um livro maluco sentada em frente a uma catedral histórica. Gosto mesmo da idéia de acordar sozinha num lugar bonito, cara, mas isso eu posso fazer no Rio de Janeiro ano que vem, imagino eu. A Europa pra mim era tipo virar a bruxinha Sabrina na Itália ou viver uma história maluca como a de Vicky Cristina Barcelona. Do Woody Allen eu gosto, disso ao menos eu sei. Do campo de centeio do Salinger também.
Mantendo o tom mais pragmático, nada habitual, acho que eu só queria mesmo era ser alguma coisa. Ser algo além dessa cabecinha ao mesmo tempo tão decidida e tão submissa e influenciável. Vulnerável, e muito. Talvez eu até seja alguma coisa, mas não creio ter achado o que isso significa. Não ainda. Sei lá, cansei também da falsidade bonitinha de encontrar frases de impacto toda vez que termino um texto de blog.
Escrito em 27 de janeiro de 2009.
depois de tanto tempo, dois textos num só dia.
tanto tempo
Diria que escrever é meio louco, meio doentio mesmo, se a escrita não fosse tudo aquilo de que sou composta. Dizer tudo isso de si mesmo é como engolir sapos em meio a sorrisos de satisfação e eu não engulo, não degluto. Sou como aquele pássaro livre que só come do melhor alpiste, mal acostumado pelos estranhos generosos de suas ruas mutantes. E eu diria também que parar dói, mas não sei como é esse outro lado, esse lado vazio indizível de não transpor-se em palavras. Conheço bem o vazio, pois sim, mas só esse que sentem alguns, coitados, segundos antes de cair nas cascatas douradas da vida. O vazio intenso e ocre me dói em pensamento e imaginação; esse, por maior que tenha sido a dor, jamais toquei.
É só que escrever tem sido meio louco, meio doentio, mesmo. Tem sido quase a humanidade tácita pela qual peço perdão ao meu próprio olhar, diante do espelho. Essa humanidade que eu renego por vergonha, pudor amargo de viver na roda comum, implorada antes, agora rejeitada por todos os meus poros e suspiros cansados. Eu quis ser parcela do que vocês, homens comuns, sempre constituíram parte. Eu quis ser mais um na rotina embalada em doçura dos dias de paz. Mas o caos é tão mais doce, meu Deus. Minha fuga inconstante do caos fez de mim, cegamente, moça de peito dilacerado e sorriso de alta-costura - falso, mas bem feito. Eu cresci tanto nos meus quase dezessete anos de literatura, caos, doçura forjada e agonia insípida. Eu cresci tanto pra dentro que vomitar é natural. Escrever é natural.
Escrito em 18 de março de 2009.
certas coisas nunca mudam.
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
Pra ele
Todos os anos, em todas as datas importantes pelas quais a gente passa, eu tenho essa mania de tentar transpor em palavras a infinidade absurda de coisas a serem ditas pra quem eu amo, pra quem me ama. Depois de tantos aniversários, dias dos pais e viradas de ano tentando fazer milagre com as palavras, já não sei por onde começar. Tudo o que eu teria pra te dizer já foi dito e, ao mesmo tempo, vive sempre em mim a sensação de que poderia ter expressado mais, quando a meia noite traz o dia seguinte.
Não preciso te dizer o tamanho do amor e da gratidão que eu tenho por ti. É quase óbvio o fato de termos uma ligação infinitamente maior que a de pai e filha, como se tivéssemos, em outras vidas, feito parte da existência um do outro, como agora ou até de outra maneira – e a gente sabe o quanto isso é possível e provável. Porque além de todas as coisas que tu me ensinaste, quando penso naquelas inatas que sempre compuseram minha essência, sinto a sensação clara de que elas, de alguma forma, também têm a ver contigo e com o fato de seres meu pai.
Quando pequena, papai, eu tinha dos adultos os quais me cercavam a imagem clara de que eram criaturas perfeitas. Enxergava cada tio e cada padrinho e madrinha, bem como a ti e à mamãe, como espécies de super-heróis indefectíveis, todos presentes pra me proteger e impedir que eu passasse por um monte de coisinhas hoje vistas por mim como inevitáveis. A parte da perfeição, obviamente, era um engano infantil. Nem tu nem a mamãe, da mesma forma como a dinda Ângela ou quem quer que tenham sido sempre os meus maiores exemplos, são desprovidos de falhas e erros de percurso, quaisquer que sejam eles. Ser adulto é ser humano também – sei disso como nunca, até por estar crescendo e, cada vez mais, me tornando uma de vocês. Mas o que importa, eu percebi, é a parte da proteção. Nessa eu nunca estive errada.
Sabe aquela coisa toda do papel de pai? Trocar fraldas (com mais nojo que a mamãe, eu sei), fazer aviãozinho com a comida, colocar na garupa pra correr por aí e ensinar a andar de bicicleta? Não sei se sou eu, se é essa minha nostalgia natural que me faz ver as coisas assim, mas a verdade é que cada coisinha passada contigo teve um gostinho diferente das outras. Cada abraço, cada conversa e cada ataque de choro, fossem quais fossem os motivos, fizeram de mim alguém cada vez mais grata por te ter ao meu lado e poder contar contigo de todas as maneiras possíveis. Quando eu digo que tu és meu herói, papai, não falo mais dos poderes infalíveis imaginados na minha infância. Falo da forma como me proteges sem sufocar, do jeitinho único com que me ensinas a encarar a vida de frente sem fazer disso uma aula assustadora sobre violência e um mundo doente. Até porque eu aprendi contigo que esse “mundo doente” está, na verdade, rumando pra uma realidade melhor – e que essa passagem depende de mim também.
Só queria agradecer mais uma vez por tudo o que já fizeste por mim. Agradecer por teres estado por perto nos momentos mais importantes da minha vida, incluindo aí os difíceis e os maravilhosos. Pela história que me contaste quando te falei do meu primeiro beijo, essa que eu pretendo passar aos teus netos um dia. Pelo abraço apertado em cada aniversário, seguido do monte de coisas lindas as quais sempre ouvi de ti e da mamãe nessa data. Pelas palmas fortes quando meu nome apareceu em um livro, pela primeira vez. Pelo assovio orgulhoso ao final de cada apresentação do colégio, das do primário aos teatros do ensino médio. Obrigada por me provar com facilidade que eu não preciso de drogas pra fugir do meu mundo, às vezes – os livros me dão essa chance com muito mais intensidade e saúde. Pela forma engraçada como seguras meu pescoço quando eu ando, essa com a qual já acostumei e sinto falta quando estás longe. Obrigada por teres me dito um dia que eu deveria sempre respeitar quem quer que fosse, o que quer que fosse, onde quer que fosse. Pela noção que hoje eu carrego da importância inigualável que tem a humildade e a compaixão.
Obrigada por teres me provado o que é música boa – eu não tenho funk no meu iPod e isso é mérito teu. Não só por teres me ensinado a escrever “pato”, mas principalmente porque eu sei que, ao fazer isso, acreditavas de alguma maneira que eu escreveria outras coisas um dia, talvez um mundo mais colorido. Por teres lido todas as minhas redações do colégio, fazendo comentários nem sempre só positivos, mas impecavelmente sinceros. Por teres sentado comigo numa tarde qualquer e lido todo o meu blog em busca dos melhores textos, um favor bem chatinho. Por cada favor bem chatinho que eu já te pedi e tu me concedeste sem pestanejar.
Obrigada por seres a minha força. Por toda essa confiança que me passas em cada palavra, cada abraço e cada sermão cuidadoso. Por me ouvires sempre, por considerar os pensamentos de uma adolescente – ou mesmo de uma criança, quando mais nova – na tomada das tuas decisões acerca de um assunto qualquer. Obrigada pela capacidade de escutar até o meu silêncio, coisa que fazes como ninguém. Obrigada por me conhecer de verdade e não me permitir sentir vergonha ou medo do que eu sou, do que eu me tornei. Um muito obrigada por deixar espaço pra que eu falhasse tantas vezes e, mesmo assim, sempre guardar um abraço e um “tudo bem” pra quando o arrependimento e a auto-decepção se manifestassem. Por fazer de mim alguém que, mesmo quando sem coragem ou desprovida de motivação, é capaz de sonhar e acreditar um pouquinho em si.
Eu me orgulho muito de ti, papai. Observei cada passo teu nesses dezessete anos, seja quando eu te via lá do chão, aprendendo a andar, seja agora que eu já posso apoiar o queixo no teu ombro e competir contigo nas cócegas. E sabe o que mais me faz encher o peito pra dizer que tu és meu pai? A forma simples e inexplicável com que olhas a vida nos olhos e dizes pra ela, mesmo tremendo, que não pretendes desistir em nenhum dos pontos críticos do caminho. Eu já te vi chorar, já te vi gargalhar uma tarde inteira, já te observei cantando e tomando chimarrão com os olhos estanhados numa manhã de domingo, ao som de Zé Ramalho. Já pude ver meu pai sofrendo e tomando rasteira da vida e das peças que ela nos prega. Te conheço inteirinho, papai, mesmo nas coisas que tentaste ocultar pra não me preocupar ou encher a cabeça. E continuo dizendo que tua força, mesmo quando te permites cair, é de um tamanho que o mundo nunca viu igual.
Que a vida passe, que a velhice te alcance, que eu vá pra longe ou fique bem pertinho. Que a gente morra de saudades ou sofra as conseqüências de uma convivência cansativa, que falte paciência, que sobre amor. Que eu te magoe e que me magoes também, inevitável. Mas que dentro de mim e de ti, independente de tempestades ou tempos de sol, sobreviva sempre a certeza desse amor atemporal e da nossa cumplicidade quase assustadora.
Não duvida nunca, papai, que o mundo gosta e precisa de ti. Que tudo aquilo que a gente ouve no centro espírita ou mesmo dentro do próprio coração são verdades reais, mesmo quando a dor e as surpresas ruins insistem em tentar nos convencer do contrário. Não duvida do que tu és, do que tu construíste, do que tu ainda és capaz de construir. Jamais ignora a tua herança espiritual, essa que eu pretendo não deixar morrer nunca. E não esquece que o meu “eu te amo” pra ti é sem tamanho e sem fim, sempre. Tu és o melhor pai do mundo e, arrisco dizer, sou uma das poucas pessoas no universo inteiro que podem dizer isso sem ser da boca pra fora.
De quem te ama,
Isa.
Carta do Dia dos Pais - 9 de agosto de 2009.