segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Sobre abuso sexual e extraterrestres

Foto: Google Imagens


Li, hoje, uma matéria no G1 sobre o abuso sexual sofrido por Mayra Dias Gomes, filha do romancista e dramaturgo Dias Gomes. Cheguei à reportagem durante uma pesquisa sobre o pai dela e acabei parando pra ler.

A garota relata um estupro que ocorreu há dez anos, quando tinha quinze e ainda estava na escola - um acontecimento de implicações inúmeras em sua vida pessoal e em sua forma de encarar a si mesma.

Mayra conta em detalhes a história, seus pensamentos da época e a confusão mental em que o episódio sempre a colocou. Será que a culpa era dela, que permitiu-se ficar várias vezes com um garoto mais velho claramente apressado? Será que, ao deixá-lo entrar em sua casa durante uma festa, deu espaço pra que as coisas acontecessem?  Ela relata o uso de drogas e assume que estava "muito louca" quando tudo se passou - mas ressalta ter pedido muitas vezes pra que "ele" parasse. Ele, que sabia que Mayra era virgem e já havia recusado sexo antes. Ele não parou. Antonio (nome fictício criado por Mayra), depois de muito insistir, resolveu que teria o que desejava nem que fosse a força. Em cima dela, segurando seus braços enquanto era empurrado, em vão, chegou ao fim de seu momento de prazer e a deixou no quarto sozinha. Saiu rindo.

A história é triste e eu não entendo como isso possa ser visto de outra maneira. Mas foi - e é sobre essa questão que eu me senti na obrigação de falar.

Mayra foi acusada de muitas coisas nas discussões das diversas reportagens. Teve seu relato dissecado em várias partes, com comentários maldosos sobre seu comportamento, o uso de drogas, o fato de ter ficado com um garoto que tinha namorada... Por todos os lados, diversas pessoas tiraram dela o status de vítima e a declararam culpada pelo que sofreu.

Oi?

Eu não conheço a Mayra e não estava lá pra dizer se a história aconteceu de fato. Mas sou do sexo feminino, tive uma adolescência difícil e dói como se fosse em mim enxergar o que o machismo e a ignorância das pessoas conseguem fazer.

Aos que acusam Mayra de ter "feito por merecer" é que se destina esse texto. Estes que, aparentemente, nunca tiveram quinze anos e nunca se sentiram pressionados socialmente a entrar em certas ondas; às mulheres que jamais foram desrespeitadas por homem algum e não souberam defender-se; aos homens os quais nunca souberam do que estas mulheres sofrem e nunca contribuíram ou presenciaram uma contribuição a esse sofrimento. Estes estranhos seres humanos que, pra mim, não podem viver no mesmo planeta em que eu vivo. E, se vivem, a alienação é tamanha que eu prefiro nem pensar.

À vocês, extraterrestres, tenho uma verdade bem cruel pra contar: estupro não é só aquilo que você aprendeu na escola. Se disseram a vocês que estupradores são bandidos sujos e mal vestidos, escondidos na noite pra atacar garotas enquanto elas voltam da escola com seus livros na mão, vocês só ficaram sabendo de uma parte ínfima da história. Estupradores são, em grande parte dos casos, pessoas comuns e de boa aparência. Médicos, advogados, pais de família, garotos populares ou quietinhos. Namorados, tios, amigos íntimos. Não existe um perfil único, não tem lugar específico onde a coisa acontece. Não precisa estar escuro, não são necessárias ruas desertas, saias curtas ou seios à mostra. Estupros acontecem todos os dias, em todos os lugares do mundo, das formas mais inimagináveis e discretas que vocês possam imaginar. E muito, mas muito importante: a definição de abuso sexual não determina que a vítima e o agressor sejam pessoas as quais nunca se viram antes.

Um homem casado que um dia faz sexo à força com sua esposa: estupro. Um amigo sempre carinhoso que resolve forçar a barra e transa contra a vontade da outra pessoa: estupro. Um garoto que recebe sexo oral de um homem amigável da própria família, sem jamais tê-lo desejado ou pedido: estupro.

Uma garota de quinze anos, sob o efeito de drogas, que consentiu em ficar com um cara mais velho mas pediu claramente a ele para não transar foi, no caso do ato sexual ter se consumado, estuprada. Não existe outra verdade diante de fatos assim e, se você criou uma, é melhor olhar pro lado e conversar com algumas das mulheres que o rodeiam antes de sair falando besteira por aí.

Cito aqui um trecho do que disse um homem na discussão sobre a reportagem: "(...) nenhuma mulher pretendendo um relacionamento saudável se envolve com alguém assim (...), referindo-se ao fato de o garoto ter tentado outras formas de abuso já da primeira vez que ficaram. E eu pergunto: uma garota de quinze anos é pra você uma mulher? Porque eu, com quinze anos, não estava nem perto de ser uma. Eu, com quinze anos, ficava com garotos que não me tratavam bem porque achava que era mesmo assim que as coisas funcionavam. Não gostava do meu corpo, tinha a auto-estima lá no pé e pensava estar "no lucro" se um ou outro cara mais velho sentia vontade de me beijar. Demorei pelo menos até os dezoito pra entender que o meu valor era maior que isso. E essa história não é só minha - encho ao menos uma mão se for contar o número de amigas que agiam e pensavam da mesma forma. O fato é que, nessa idade, não tem essa de "mulher pretendendo um relacionamento saudável". O mundo nos faz crer que temos de nos preocupar em sermos bonitas, desejáveis, "femininas". A gente quer ser aceita, quer se encaixar, quer ser "legal" e desejada. Onde isso vai chegar é o que diferencia a história de cada um.

Li que "ser vítima de estupro virou moda." Li também que a história dela "ofende àqueles que sofrem violência sexual de verdade". Como é que é? Quer dizer que, pra ser considerada vítima dessa violência, a pessoa tem de se enquadrar em um perfil específico? São suas as regras pra que um estupro seja legitimado como tal? A violência dela é menor do que a violência sofrida por outras pessoas? Não basta que ela tenha declarado não querer e tenha tentado empurrar o agressor pra longe? É tanta ignorância que eu perco a vontade de argumentar.

O fato é que eu cansei desse papo de "atitudes anti-estupro". Cansei de receber e-mails com conselhos pra evitar que homens nojentos encostem em mim contra a minha vontade, cansei de quem julga sem se colocar no lugar. Enchi o saco de ignorantes que classificam uma garota de quinze anos como culpada por ser obrigada a perder sua virgindade de forma violenta e não desejada. De gente que acha que denúncias públicas assim só têm o objetivo de "chamar atenção". E pode ser que algumas tenham, sim. Mas, sinceramente, se essa é sua primeira opção na hora de decidir do que se tratam os fatos, você não conhece a sociedade em que vive. Não conhece a história das mulheres, o que elas passaram e o que passam todos os dias - coisas que sempre foram consideradas normais e que são, na verdade, agressões graves pelas quais nós não escolhemos passar. Pelas quais não merecemos passar. Além do mais, se a Mayra tivesse a intenção de "vitimizar-se", como o autor do trecho citado a acusou de ter, algo me diz que seria muito mais fácil inventar uma história sem drogas, sem beijos autorizados e sem tantas brechas pra esse pessoal que vive numa realidade de algodão doce duvidar. Se as pessoas soubessem a proporção com que histórias como essa se repetem, todos os dias, em todos os lugares; se soubessem o quanto é difícil pra essas pessoas falar, denunciar e superar, não teriam a iniciativa ignorante de condená-las.

Sorte da Mayra ter o papel e a caneta como válvulas de escape. Sorte dela ter superado o abuso, estar casada e com uma vida da qual parece se orgulhar. Muita gente não pode dizer o mesmo. E muita gente não tem a coragem que ela teve - de se expôr, de contar sua história e inspirar em outras pessoas a vontade de ir adiante com denúncias e pedidos de socorro.

Enfim, falei demais. É incrível como coisas que deveriam ser gritantemente óbvias têm de ser explicadas e, ainda assim, seguem mal compreendidas.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

oi, sonho.

engraçado é que eu tenho escrito só nos momentos em que me sinto bem. ou nos momentos em que acabei de sair da pior e voltei a respirar direito - nunca mais rabisquei as dores de um coração apertado, porque é quando as coisas suavizam que meus dedos coçam agora.

acho que é uma coisa boa sentir-se inteira assim. não o tempo todo, não completamente, não de forma plena (isso eu sei que nem existe). mas inteira. e são esses os momentos que, nos dias de hoje, merecem registro na folha e na memória. a gente já apanha tanto da vida, né? penso que essa coisa de escrever levezas vem com a maturidade... de tanto apanhar a gente nega à dor esse espaço todo, pra variar um pouco. ela que não venha se debruçando assim no meu sofá, que eu já to bem cansada da visita.

ou vai ver é com o I na frente - imaturidade. eu a me enganar na ilusão de que a vida é bonita. mas se eu vejo assim, então é. não é?

sem poesia nem grandes reflexões por hoje. meu quarto tá sujo, o armário tá uma bagunça e eu não faço muita ideia de como chegar aos meus objetivos nessa esse ano que já passa da metade. mas eu to nadando, sabe? às vezes contra a corrente (tão clichê, eu sei, desculpa), às vezes entregue ao balanço do mar (piorei, né?). mas sempre nadando e sempre a encontrar um milhão de liçõezinhas gostosas no caminho. me afogo, às vezes - é claro que sim. mas, como diz meu pai, água do mar quando entra pelo nariz limpa tudo. eu completo e digo que limpa a alma também.

não quero mais desafogar, não. uma hora ou outra o oxigênio preenche os pulmões outra vez e a gente cospe toda a água salgada e amarga. e é pela presença dela, posteriormente revertida em ausência, que eu tenho aprendido o quanto é bom respirar.

oi, sonho... já pode se realizar agora. to pronta pra você e não preciso mais jurar. vem me visitar? não - vem pra ficar. já expulsei a dor de casa e o sofá agora é todo seu.

terça-feira, 21 de maio de 2013

eu, atriz.


e concluí que muita gente não entende - não tem, afinal, como entender sem que seja explicado: não faço teatro porque foi o que consegui. faço teatro porque é ele quem vai me levar a qualquer lugar com a bagagem certa, com o brilho certo no olhar e com o corpo no lugar. é no teatro que eu aprendo a ser, é através dele que eu encontro o que há de mais verdadeiro em mim e que às vezes assusta de tão escondido que estava. aprendo a usar as ferramentas certas e a não confiar em soluções práticas, emoções pré-construídas. aprendo a abocanhar, mastigar, engolir, deglutir. digerir e metabolizar, pra que nada seja de mentirinha. nem na vida e nem no palco.

vim ao Rio de Janeiro pra ser atriz, com tudo o que a profissão engloba, mas foi o teatro que me abraçou logo de cara e me fez tocar essa arte que eu antes só intuía, trôpega e fora do eixo: a arte de interpretar. eu e o teatro nos apaixonamos e este é um relacionamento difícil, porque dói abrir-se pra ele. dói deixar que o teatro te veja e dói também encarar o teatro em toda a sua dimensão devoradora. porque o teatro é o mundo, o que há de melhor e de pior nele - o inferno e o céu indivisíveis em um palco, em um texto, nas entrelinhas da mais simples das histórias. o teatro é visceral, animal, transcendental. mas é também a mais delicada poesia, a suavidade de um olhar e a sutileza de se avançar um único passo à meia luz. carrega nele o que carregamos dentro de nós; por isso parece diferente aos olhos de cada um. conto, então, aos que não tiveram a oportunidade de experimentá-lo em sua plenitude (e conto a mim, também, pois que tenho ainda uma longa jornada teatral pela frente): um ator, no sentido completo e louvável da palavra, se faz no palco. e é nele que eu ainda vou encontrar a atriz que eu quero ser.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Aquelas

Vim pra dizer que estamos vivas.

Quando acordei hoje cedo eu era de novo a mesma menina de quinze anos cheia de buracos e de intensidade. Chorei a vida difícil na cidade grande, a saudade dos pampas gaúchos, o medo de não reencontrar mais em mim aquela que sonha e acredita. Reli Clarice Lispector, abracei de novo as mesmas dores - porque existir dói, meu Deus, como foi que eu pude esquecer? - e adormeci sozinha no sofá desse apartamento que não é meu.

E acordei com fome. Liguei o ventilador, fritei um ovo que deu errado e me fez sentir falta da minha mãe, fiz um arroz que deu certo e comi feliz. É, feliz. Porque quando eu acordei tava passando Friends na Warner. Aí pensei que eu ao menos tenho TV a cabo agora, que meu quarto é pequeno mas tem uma porta pra fechar e pra eu assim poder me fechar em mim mesma quando dá vontade. Ri do Chandler só de calcinha no banheiro feminino e pensei que a Julia Roberts é uma atriz e tanto.

Lembrei que eu sou atriz. Que depois de anos imaginando e calculando possibilidades, eu de fato moro no Rio de Janeiro, estudo na escola onde sempre quis estudar, faço a arte que eu amo... E aprendo a cada dia a me amar também, sem clichês baratos. Percebi que de lá pra cá - dos quinze pros vinte, que não é tanto mas é muito - já tapei um monte de buracos e transferi a intensidade habitual pra um mundo de coisas mais produtivas que o meu simples diário. Passei dos amores inconstantes e difíceis pros que me fazem ser "mais fácil" constantemente. Olhei no espelho e dei boa tarde àquela que sabe o que quer e corre atrás.

A tarde passou, o sol forte deu lugar a uma chuva torrencial, caiu um raio do ladinho do meu prédio. Passado o susto e o prato quase espatifado no chão durante a lavagem da louça, voltei ao sofá. Li George Orwell, pensei no mundo, nas pessoas, no Renan Calheiros de volta à presidência do Senado. Meu Deus, como eu ando alienada... Aquela de treze anos, revolucionária até o último fio de cabelo, espiou de leve pelo buraco do meu umbigo. Disse assim: se lembra de mim? Pois é. Eu ainda to aqui, mas ando dormindo bastante.

E pensei que a vida é isso. Que quando eu me cobro pura seriedade ou quando me entrego exclusivamente ao que é material e bobo eu estou, em ambos os casos, assassinado uma parte de mim. Descobri que eu sou sim muitas e que mesmo quando passa, não passou. Porque pra ficar latente outra vez é só cutucar ou alimentar - um livro, uma música, uma vitrine de sapatos bonitos. Cada uma aqui dentro vê em coisas diferentes o que a faz acordar e me surpreende, num dia qualquer, com sua ainda-existência. E vai ser assim até o fim dos meus dias, arrisco dizer.

Vim pra dizer, então, que estamos vivas, eu e todas as outras que moram dentro de mim. E que eu não tenho mais medo - nem vergonha - de nenhuma delas.